Um tiro no porta-aviões


Como se querer ver-se livre do regime islâmico, ver-se livre da tirania religiosa, do apartheid de género, da opressão, da pobreza e da corrupção fossem à partida aspirações do Ocidente, e não aspirações de toda a Humanidade. Como se o povo do Irão, as mulheres do Irão, não soubessem distinguir sozinhos entre ditadura e liberdade, entre discriminação e igualdade, entre brutalidade e respeito humano. Como se, mesmo que se tratasse de “valores ocidentais”, tal facto lhes tirasse a validade e a premência. [...]
A História agora repete-se. Como sempre, com medo de mudanças radicais que possam levar a esquerda ao poder, a máquina de fabricar opinião dos médias [da mídia] está a dizer metade da verdade. As suas “análises aprofundadas” são totalmente inofensivas. Talvez alguns jornalistas sejam capazes de ver alguma coisa à superfície, mas na generalidade existe um plano deliberado para censurar a esquerda, para esconder as aspirações profundas e as exigências do povo. Um “líder moderado” é o máximo a que estão dispostos a dar voz. [...]
Interpretaram erradamente a realidade. Não conseguiram perceber que há um estado psicológico colectivo diferente, um ambiente diferente. Não viram, ou não perceberam, que os tempos estão a mudar. Desta vez, a disposição das pessoas é muito diferente. Aparentemente, as pessoas não estão dispostas a recuar. Não se trata necessariamente de uma decisão consciente ou expressa. Este ambiente de desafio foi em grande parte criado por uma mudança profunda do ambiente social e da psicologia colectiva do povo. A situação parece ter atingido um ponto de não-retorno.[...]

Os manifestantes já gritam “Abaixo a República Islâmica”. Vêm à tona, nas ruas, sem censura, os seus sentimentos profundos. Há notícias e até pequenos vídeos de mulheres sem véu, vestidas com trajes não-islâmicos, em algumas zonas da cidade. Uma característica importante deste movimento de protesto é o facto de não ser organizado ou dirigido pelos que clamam serem seus líderes, ou como tais são identificados pelos médias [pela mídia]. Há um carácter espontâneo. O que vemos, não apenas nas ruas de Teerão mas também noutras grandes cidades, mais se assemelha a um levantamento. O regime islâmico parece ter entrado numa fase em que, sejam quais forem a sua táctica e as suas cambiantes, só conseguirá aproximar-se do seu termo. Isto é o princípio do fim de um dos regimes políticos mais brutais e odiosos do século XX. O seu derrube terá importantes repercussões no Islão político médio-oriental. As mulheres do Irão, como certamente toda a região, farão tudo para conseguir ganhos a partir destes acontecimentos.

Azar Majedi, Passa Palavra

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4 thoughts on “Um tiro no porta-aviões

  1. Como se querer ver-se livre do regime islâmico, ver-se livre da tirania religiosa, do apartheid de género, da opressão, da pobreza e da corrupção fossem à partida aspirações do Ocidente, e não aspirações de toda a Humanidade.
    De que parte da humanidade estará a falar?
    Cá para mim isto é contra-informação

  2. Grande parte da distorçao mediática ocidental dos acontecimentos deve-se à “confusao” intencional entre esta ansia de liberdade e a promoçao do oligarca Mousavi baseada numa pretensa fraude no processo eleitoral. Processo com o qual foi conivente até ao fim, e pouco diferente de todos os processos nos quais participou, nos anos 80, quando era oficialmente inimigo do ocidente.

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