Comunistas?


É já quase unanimemente aceite e do domínio do senso comum a ideia de que a eleição de pessoas por voto secreto é mais democrática e menos sujeita a pressões de diverso tipo do que o braço no ar. Pode, por isso, para o observador desatento, parecer natural que isso aconteça em qualquer organização política, mesmo no PCP. No entanto, a decisão do CC do PCP de propor ao Congresso a eleição do próximo CC por voto secreto (toda a informação aqui) é um curioso case study para a ciência política.
Depois de redigir um tratado sobre o carácter anti-democrático da lei dos partidos e sobre os propósitos dos seus autores de terem em vista “o enfraquecimento e destruição do Partido” e de afirmar que “a atitude a adoptar não pode ser, passado o momento da sua aprovação, dispormo-nos a uma mera aceitação ou conformado cumprimento”, o CC conclui que “no que se refere à forma de eleição do Comité Central deve ter-se em conta simultaneamente, por um lado, a adopção de uma posição pelo Congresso de repúdio das leis sobre os partidos, de exigência da sua revogação e de combate às suas negativas consequências e, por outro, a avaliação dos riscos decorrentes do aproveitamento, no plano legal, pelos inimigos do Partido de uma forma de resistência e combate a estas leis que passasse pela forma de eleição do Comité Central por voto de braço no ar” e que “a eleição do Comité Central (…) seja feita por voto secreto”.
Basicamente, traduzindo para português inteligível, deve ler-se: “A burguesia anda a ver se nos lixa com as suas leis contra os trabalhadores e as suas organizações de classe. Eles sabem que nós um dia ainda havemos de construir o socialismo e por isso não descansam enquanto não nos destruirem. Mas nós não nos calaremos. Continuaremos a denunciar as manobras dos nosso inimigos. Mas entretanto, foi visto que seria muito negativo, no actual quadro e, naturalmente, sem prejuízo da identidade e natureza do partido e da sua independência face aos interesses do grande capital, deixar de dispor dos fundos que nos são fornecidos pelo sistema anti-democrático burguês. Nesse sentido, e sem calar os nossos mais vivos protestos, a eleição do CC será feita por voto secreto, ou seja, sujeitar-nos-emos à imposição anti-democrática dos inimigos do partido. É que enquanto o pau vai e vem, descansam as costas”.
[FR]

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