Formas de Violência

«Chamar – não muito longe, a montante do tempo – “Escrivão da pena grande” ao varredor municipal do lixo.

Escrever e publicar um livro com o título “O Preto que tinha a alma branca”.

Conceber, fabricar e pôr à venda bonecas e bonecos assexuados.

Abominar, ao ponto de proibir ou desejar ver proibir, os brinquedos chamados belicistas, com o pretexto de que são de um “realismo atroz” ou que – pior ainda! – se é pacifista. (Por estas e por outras é que há muito consequente pacifista que chega a adulto desarmado. É caso de perguntar: E a paz quem a defende? E como?

Noticiar rixas urbanas ou suburbanas, ocorridas naquele mundo que os cronistas castiços apodam de “as alfurjas”, identificando como “caboverdianos” alguns caboverdianos, entretanto “integrados”, que nelas possam ter participado. (Para remover lixo citadino, não precisam de pátria ou nome; para anavalhar ou capoeirar o cidadão, sim.)

Votar de braço ao alto (quase nunca ao baixo).

(…) Desaconselhar ou desacreditar a prática da política com razões deste jaez: “O que o povo quer é trabalhar em paz”. (E se o povo quiser trabalhar em zás-trás-pás?)

Perguntar – como, microfone na mão, se perguntou – a uma velha camponesa transmontana: “A senhora sabe o que é a política?” (Lá do seu universo ela respondeu que não sabia, mas quem, realmente, mostrou que não sabia, cá do nosso universo, foi o perguntador, rapaz de boas maneiras, mas de fracas ideias, um que pensa, afinal, que a água começa nas torneiras…)»

Alexandre O’Neill
[Joystick]

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