O que é um turco?

A primeira coisa que oiço quando digo que estou na Alemanha é que os alemães sao frios. A segunda é que são racistas. Nenhuma delas é verdade, pela minha experiência, e sempre por aí.
Estava curioso de ver como é que um povo frio e racista lidava com uma capital que é ao mesmo tempo a terceira maior cidade turca do mundo (depois de Istambul e Ankara).
A densidade de estrangeiros em relação à distância aos centros da cidade (Berlim tem três centros) é o oposto do que se passa em Lisboa e do que imagino que se passe na maioria das capitais europeias. Passo a explicar. O bairro mais movimentado da cidade (e situado praticamente no centro geográfico) é Kreuzberg (lê-se Crróitzberrque), uma pequena Turquia. Por outro lado, quando pergunto qual é a zona mais perigosa da cidade, falam-me em Marzahn, um bairro periférico para leste onde os estrangeiros não são bem vindos.
[Rex]


O problema da integração da comunidade turca (e fala-se mais da turca por ser a maior) é que se formam pequenas sociedades fechadas onde é possível viver aqui como na Turquia (há lojas turcas, cafés turcos, restaurantes turcos, jornais turcos), isto é, sem aprender alemão ou fazer a mínima ideia sobre o que se passa no pais. Não é muito grave quando se tem mais de 40 anos, mas para a segunda e terceira gerações é catastrófico. Há crianças que entram na escola primária sem falar a língua, o que quer dizer que, depois de 5 anos a estudar têm conhecimentos ao nível de uma criança alemã na 3ª classe (que teve mais 6 anos para aprender alemão).
Há também as pessoas que não têm uma língua materna, isto é, falam alemão e turco com sotaque, o que só pode agravar os problemas de desenraizamento.
Os meus colegas de casa trabalham num café de bairro, encostado a uma igreja. O cafe foi assaltado (uma coisa aparentemente inaudita ou, pelo menos, muito rara) por um grupo de putos turcos. Gostei de ver que a conversa sobre o tema seguiu para uma discussão semelhante à que tenho estado a escrever neste post, em oposição ao tão frequente entre nós (agora só vós) “esses gajos deviam ser todos mandados para casa”. Não faria sentido, porque a casa deles é aqui.
Contaram-me ontem um episódio que se passou com um pequeno alemão-turco. Perguntou à família o que era um inglês. Depois de responderem à questão resolveram testá-lo. “-E o que é um italiano? -É alguém que mora em Itália. -E um francês? -É alguém que mora em França. -E um turco? -É alguém que mora em Berlim.” Sei que, no fundo, temos todos pena de não sermos um pouco mais turcos.

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