Os novos bárbaros

Perre é uma freguesia rural encostada à cidade de Viana do Castelo a que estou ligado por razões familiares e afectivas muito fortes. Como todas as zonas rurais de Portugal, também Perre viveu um século XX marcado pelo atraso económico, social e cultural, pela fome, pela doença, pela pobreza, pela emigração. No fundo, mais um prolongamento do concreto século XIX, bem longe das idílicas construções da nossa literatura (lembrem-se dos delírios de um Garrett, Camilo, de um Júlio Dinis, Ramalho Ortigão…). Ainda há 15 anos não era raro ver as crianças andarem descalças nos caminhos de pedra e ainda se conseguia ver um ou outro carro de bois a trabalhar na lavoura. Hoje as coisas estão diferentes, há mais dinheiro, o progresso continua a chegar em forma de estradas, caminhos e outros melhoramentos e casas de emigrantes. Entre as primeiras está o prolongamento do IC1 até Valença.

Imagem do IC1 em parte da freguesia.
Infelizmente, os decisores políticos em Portugal (e a decisão do traçado de uma estrada não é uma mera questão técnica) continuam a primar pela estupidez, pela arrogância, pela boçalidade.
Dói o coração ver que o progresso chega apagando tudo à passagem. No caso de Perre, foi definido um traçado para a auto-estrada que corta a meio um castro com cerca de 2500 anos localizado num outeiro até agora coberto de floresta, cuja existência era do conhecimento das pessoas da freguesia há pelo menos 50 anos. O castro está de forma bastante evidente integrado num contexto regional de povoamento no vale do Lima com o castro de Santa Luzia em Viana e com outros assentamentos da cultura castreja em outeiros vizinhos (e ao alcance da vista) de que se conhecem vestígios. Junto ao castro há dois riachos que correm do monte, um dos quais tem a forma de bacia/caldeirão escavada na rocha pela água onde hoje os putos dafreguesia tomam banho no Verão. Uma pessoa põe-se a imaginar o que é que aquela gente faria ali há 2500 anos…
Fui ao google e reparei em meia dúzia de notícias dos últimos dias sobre a questão. A mediatização das coisas já é um passo na direcção certa e parece que, depois do povo da freguesia e da junta começarem a espernear, a coisa até é capaz de se resolver.
Além do castro, há também vestígios de uma estrada (romana?) que atravessava toda a freguesia e está maioritariamente soterrada por campos de cultivo e floresta. Ocasionalmente aparece junto a uma ponte românica (a “Ponte do Arco”) medieval do mesmo tipo da ponte de Vilar de Mouros e que está, tal como esta, em risco de ruína. Segundo soube em Novembro, há também restos de um recolhimento de religiosos dos tempos medievais perto do castro, no meio do monte.
pontedoarco.JPG
A Ponte do Arco.
Aliás, o traçado do mesmo IC1 entre a freguesia de Nogueira e Perre já tinha destruído uma outra travessia medieval de um riacho afluente do rio Lima. E preparam-se mais atentados ao património na freguesia vizinha de Lanhelas, em particular com a destruição de um troço do Caminho de Santiago, minas de água e outros vestígios arqueológicos.
Entre o divórcio cultural dos habitantes com a sua terra e a boçalidade economicista do Instituto de Estradas de Portugal se vão matando algumas das nossas fontes de memória e identidade.
Filhos da puta.
[Renegade]

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3 thoughts on “Os novos bárbaros

  1. Ganda testamento! É tudo sobre Perre? Não podes fazer um resumo, ou tenho de esperar pelo filme?

  2. Vista cansada ou não é o que se passa por esse país “profundo”. Tirem-nos tudo mas não nos tirem as touradas no Campo Pequeno, que é a ruralidade e a tradição que fazem perdurar como memória do nosso povo!
    Filhos da Puta como dizes

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