Tsunami: que espectáculo!

A propósito das ondas que varreram o Índico. Há coisas que me chamam a atenção para lá da caridade e da demagogia promotora dos sentimentos de humanidade universal.

Penso que este desastre deu um jeitaço aos mass media de todo o mundo, tradicionalmente lixados nesta altura do ano com a falta de conteúdos noticiosos. Assim, tiveram um reality-show à borla com muita emoção, criancinhas orfãs, gente que já era miserável tornada ainda mais miserável pronta a receber em encomendas aéreas todo o sentimento de culpa de um ocidente (e Japão) demasiado rico e poderoso para olhar para o sul durante o resto do ano.
Este reality-show só é verdadeiramente eficaz porque também lá estavam brancos louros que falavam inglês ou outras línguas caucasianas, prontos a darem comovidas entrevistas nos aeroportos da europa, com muito estado de choque e lágrimas genuínas.
Curiosamente, com tantos milhares de mortos disponíveis, há um pudor não assumido em mostrar a morte deste lado das ondas hertezianas.
Todas as empresas de mass media (as corporações, como diriam os americanos) dão tempo de antena aos especialistas que nos vêem explicar que os americanos já sabiam do maremoto uma hora antes dos acontecimentos. Eu vi na CNN. Mas não vi ninguém questionar-se sobre o porquê de terem falhado os alertas. No máximo diziam que eram falhas de organização lá deles, dos asiáticos.
As corporações de mass média que criam e divulgam os conteúdos informativos e difundem modelos de elaboração dos conteúdos não gostam de contribuir para uma memória colectiva do horror. Preferem dar-nos a catástrofe espectacular e delicodoce das destruições materiais, das ondas que já todos vimos em filmes de hollywood, ao choque dos corpos amontoados e inchados de gente de olhos amendoados.
Parece-me que entram nesta mesma estratégia de espectacularização do horror o abafamento de mortes em massa como as que quotidianamente se “vêem” em África e na Ásia. Há muito tempo que deixamos de ser impressionados em nossas casas pelo horror da morte pela fome em directo, pelos massacres das guerras que os nossos governos promovem em casa dos outros.
Uma outra estratégia de manipulação da política e das emoções tem a ver com a construção das “tragédias”, das “fatalidades”, das “catástrofes”. Tanto entram neste domínio o tsunami como os genocídios no Ruanda, no Sudão, no Iraque, na Palestina…

[Renegade]

4 thoughts on “Tsunami: que espectáculo!

  1. de muito mau gosto é um dos nossos canais de televisão, cujo nome não vou revelar mas que começa por R e acaba em P, ter na sua programação de hoje um filme sobre uma tempestade bíblica, sendo que os spots de promoção têm por pano de fundo uma onda gigantesca. A acção passa-se na Nova Inglaterra e suponho que se queira passar a mensagem do género “vêem isto pobrezinhos? nós somos civilizados e também temos coisas más a contecer, e nem todas passam pelo pacto de estabilidade!”.

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