Em busca do tempo perdido

Quando comecei a mandar umas bojardas no admirável mundo novo dos blogs fi-lo a medo mas com um sentido de liberdade que me vejo perder. Quando escrevia no Assédio com dois outros camaradas de Spectrum sob o alter-ego Deco, tinha a consciência difusa que ninguém lia aquilo e que, portanto, podia mandar as caralhadas que me apetecessem e esticar-me à vontade sem outra preocupação que não fosse o dar-me prazer com o que escrevia. E os camaradas estavam de acordo.
Depois fizemos o Spectrum. É verdade que a base programática não limitava nem impunha grande coisa (e por aí se mede a grande valia política de qualquer base programática, diga-se de passagem). A moral previsível da história deveria ser que cada um escreve o que lhe dá na gana e que isso seria suficiente para fazer um blog que desse tanto prazer escrever como ler. Mas não é.

Eu não estou satisfeito com o que faço. Por três razões: 1) aceitei uma espécie de pacto tácito sobre a “dificuldade” de aceitar posts longe da política, tão longe como um gajo a discorrer sobre o sentimento ou sobre a sua vida quotidiana, por comezinha e irrelevante que seja; 2) com o aumento das visitas (embora às vezes me pareça que nos conhecemos todos) apareceu-me uma responsabilidade da abrangência dos conteúdos, um aceitar que só se pode meter aqui o que se supõe que pode interessar ao maior número. Daí também o privilégio pela actualidade política; 3) finalmente, o peso de ter que respeitar um padrão mínimo de inteligibilidade e respeitabilidade no que escrevo não me satisfaz. Queria ter o à vontade para mandar as caralhadas que me apetecessem, para teclar incoerências, para mandar umas flatulências intelectuais e sentir-me bem com isso.

No fundo, queria não me preocupar com o que os camaradas de blog e os leitores podem pensar do que faço, como acontecia no Assedio. Será que posso, ou isso desvirtuaria o Spectrum? E será que sou capaz?

3 thoughts on “Em busca do tempo perdido

  1. Renegade: Escreve o que quiseres no blog, mané. Sempre tão preocupado com a linha editorial… O que tens escrito está fixe. Vai em frente

  2. Sinceramente acho que ninguém resiste por vezes a uma valente e libertátia caralhada, é como os peidos… Vai em frente, aposta tudo!!!

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