A Madonna italiana


“Elvira Nereu, uma jovem serena, com cara de Madona italiana, que chefiava um bloco dactilográfico da Unilever quando a conheci, pouco tempo depois da minha chegada a Lisboa, foi acordada às dez horas, na noite de vinte e cinco de Abril, por uma mensagem tensa: Golpe de Estado! Coragem!A notícia chegara à cadeia horas antes, transmitida por um automóvel que subira e descera várias vezes uma estrada próxima, buzinando-a no «morse» simplificado usado pelos presos – um toque para o A, dois toques para o B, três toques para o C, etc.
Uma vez recebida, fora comunicada no mesmo «morse», por pancadas, dadas nas paredes, junto aos canos que ligam quase todas as celas do edifício branco e triste da cadeia de Caxias em que se encontrava presa Elvira Nereu, que foi uma das últimas presas a receber a notícia por estar numa cela afastada das restantes.”
É com esta ternura ingénua que Wilfred Burchett reporta em Portugal depois da revolução dos capitães, Seara Nova, 1975.


“(…)Elvira Nereu fora presa, com mais 47 pessoas, semanas antes do vinte e cinco de Abril. O grupo reunira para organizar uma forma de comemorar o 1º de Maio, o que estava de acordo com as tradições da oposição portuguesa que todos os anso tentava assinalar a data com risco, muitas vezes, para a vida dos manifestantes.
Nesta altura do ano a PIDE dobrava a sua vigilância e, certamente por imprudência de alguém, tomara conhecimento da reunião, cercara a casa e prendera os 48 membros do grupo que tinham seguido imediatamente para a sede da Polícia de Degurança Pública de onde os maiores de 15 anos tinham transitado para a cadeia de Caxias, entregues à PIDE.
Depois de uma investigação preliminar, a maioria foi incriminada por «associação ilegal», obrigada a pagar uma multa de 2000$00 e depois posta em liberdade. Mas um pequeno grupo de que Elvira Nereu fazia parte – era a única mulher deste grupo – recusara-se a confessar fosse o que fosse e os seus componentes tinham sido sujeitos à tortura do sono, de que voltarei a falar, porque a PIDE queria, à viva força, arrancar-lhes o nome da organização a que afirmava pertencerem.
(…)Quis saber qual tinha sido a prmeira coisa que ela fizera ao chegar a casa. Telefonei à noiva de um fuzileiro naval que tinha estado todo o dia e toda a noite de serviço na prisão para lhe dizer que não estivesse em cuidado porque não lhe tinha acontecido nada.
Libertada nas primeiras horas da manhã de sábado, voltara ao trabalho na segunda-feira depois de um fim-de-semana passado com o marido e com amigos a trabalhar na organização do 1º de Maio – todos queriam que o 1º de Maio fosse a maior festa de sempre.

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