Chapéus há muitos


1- O PCP quebrou o habitual silêncio reservado para estas coisas e emitiu um comunicado (disponível através do link abaixo) acerca do III Volume da biografia de Álvaro Cunhal, da autoria de Pacheco Pereira.
Com a dureza a que já nos habituaram, os camaradas acusam Pacheo Pereira de ir mais longe do que a PIDE no ataque ao partido.
2- Pacheco Pereira responde como um historiador e coloca o comunicado no blog que dedicou ao livro, fazendo da reacção do PCP mais um elemento em torno da sua obra e esvaziando assim a acusação efectuada, segundo a qual o livro faria parte de uma conspiração anti-comunista contra a memória dos combatentes anti-fascista.
3- Eu ainda não tenho o livro, mas li os primeiros dois volumes, que são globalmente sérios do ponto de vista historiográfico e têm a qualidade de estar muito bem documentados.

4- Os dirigentes do PCP fingem esquecer o que há de mais relevante no que toca a este tema (o historiador mais chegado ao aparatchik, João Arsénio Nunes, tem de se esforçar mais…).
Para que se possa desmentir ou confirmar Pacheco Pereira é necessário que os arquivos do partido anteriores ao 25 de Abril de 1974 sejam abertos e entregues a uma entidade pública digna de confiança (preferencialmente a Torre do Tombo, que é onde estas coisas têm lugar, e que se encarregaria de disponibilizar apenas o material relavante do ponto de vista historiográfico), de maneira a que todos os interessados possam consultar pessoalmente as fontes e estar em condições de avaliar os factos e acontecimentos, bem como o seu tratamento historiográfico.

5- Não há nenhuma razão válida para que assim não seja, descontando o facto de o PCP ser dirigido por um grupo de pessoas muito avessas a essas coisas do debate, da reflexão crítica, do contraditório e da polémica – tudo aquilo, enfim, que impede que a historiografia seja a continuação da heráldica e da genealogia por outros meios.
Para o marxismo-leninismo de alguns parece ser difícil encaixar o facto de que a história do PCP não pode ser definida nas reuniões do secretariado.
Isso pode chegar para os militantes mais disciplinado do partido (e mesmo assim…), mas não chega para quem quer conhecer seriamente a história do comunismo em Portugal e não apenas a história que alguns comunistas em Portugal querem que se conheça.
6- Pacheco Pereira, é claro, gosta. Sabe que com comunicados destes pode bem (até deve ter estranhado que tenha demorado tanto tempo), que a coisa corre a seu favor, a ele que pode ir a Moscovo ou a Amsterdão consultar material inédito sempre que quiser, ou simplesmente recorrer à sua biblioteca de colecionista na Marmeleira.
Gosta tanto disto que chegou a escrever e repetir que, se alguma vez mudar o PCP o seu funcionamento orgânico ou questionar as suas referências históricas e teóricas, acaba.

7- Pacheco Pereira gosta da direcção do PCP, porque sabe que contra ela ganha por falta de comparência. Gosta de um estado de coisas que lhe permite passear-se como “o” especialista na história do PCP.
Gosta de uma situação monopolista de facto, ao nível da historiografia como da luta de ideias.
Na verdade e apesar do comunicado, a actual situação agrada a ambas as partes, biógrafo não autorizado e direcção não autorizante.
Agrada a muitos. Só não agrada aos comunistas.


COMUNICADO DO PCP SOBRE O III VOLUME DA BIOGRAFIA
PCP contra falsificação da história – Denunciar os crimes do fascismo
O Gabinete de Imprensa do Partido Comunista Português, em nota do dia 6 de Dezembro, acusa Pacheco Pereira de, a propósito de análises contidas no terceiro volume do seu livro «Álvaro Cunhal – uma biografia política, padecer de um anticomunismo vesgo e de pretender «inocentar a PIDE e criminalizar o PCP». Para os comunistas, a defesa da liberdade e da democracia exige não o branqueamento do fascismo e dos seus crimes, mas a sua denúncia. Publicamos em seguida, na íntegra, a nota do Gabinete de Imprensa.
1. Nos últimos dias, a propósito da edição do 3.º volume do livro de Pacheco Pereira, «Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política», a opinião pública foi literalmente bombardeada com uma caluniosa e intelectualmente indigna campanha contra a história, o papel e a luta do PCP, a pretexto de pretensos assassinatos efectuados pelo PCP nos anos 50, do século passado, história desenterrada por Pacheco Pereira das operações da PIDE, aliás a sua principal e praticamente única «fonte», em particular na pessoa de um inspector da PIDE, o conhecido torcionário Fernando Gouveia.
2. As afirmações de Pacheco Pereira, de uma extrema gravidade, não podem ser silenciadas tanto mais que para além de serem caluniosas em relação ao PCP, o são igualmente em relação a pessoas que deram o melhor das suas vidas à luta pela liberdade do povo português e cuja memória deve ser preservada.
A história, o método e as «fontes» não são novos, nem originais. A ditadura fascista e a sua polícia política, aliás na esteira dos seus mestres hitlerianos, sempre responsabilizaram o PCP e as forças antifascistas por crimes que eles próprios cometeram, e não foram poucos.
O que há de novo e original é o facto de Pacheco Pereira adoptar como suas as «provas» e os argumentos da PIDE e procurar credibilizá-las com uma pretensa investigação histórica cujo objectivo é inocentar a PIDE e criminalizar o PCP.
3. Pacheco Pereira afirma que o «PCP sempre negou ter procedido a qualquer execução», como diz igualmente que «não existe qualquer documentação decisiva e de nem mesmo a PIDE – e a Polícia Judiciária, neste caso – terem conseguido encontrar provas que incriminassem os autores materiais dos assassinatos», mas nada disso o impede, recorrendo a um processo indigno e violador das mais elementares exigências de rigor, isenção e honestidade intelectual que deve pautar qualquer investigação histórica, de concluir pela responsabilidade do PCP nas referidas execuções.
4. Para Pacheco Pereira a ausência de provas, os desmentidos do PCP são coisas de pouca monta. Para ele, o que conta é a sua convicção de que essas seriam práticas comuns em outros Partidos Comunistas «amigos do PCP, além de que a PIDE não tinha por hábito executar militantes comunistas».
Pacheco Pereira não apresenta uma única prova que comprove as suas teorias, mas absolvida a PIDE, só lhe resta a teoria de que foi o PCP, teoria alicerçada nas elucubrações do inspector da PIDE, no diz que diz, em fontes «confidenciais», na referência a documentos da época que não revela e na infame truncagem e descontextualização de textos para os ligar aos factos.
5. Dando-se conta da inconsistência da sua «investigação histórica» tropeçando no assassinato de Humberto Delgado, não hesita, para manter a sua tese e ilibar a PIDE como instituição, em considerar o «caso Delgado muito obscuro quanto à responsabilidade da hierarquia da polícia no assassinato».
6. É facto que Pacheco Pereira, penetrado de um anticomunismo vesgo, revela muito pouco respeito pelas vítimas do fascismo, mas não pode passar sem a mais viva indignação a lama que lança sobre a memória de Militão Ribeiro, militante comunista que se portou sempre com grande heroicidade e que foi tragicamente assassinado pela PIDE, afirmando ser duvidosa a genuinidade da carta – ou pelo menos parte do texto – escrita por Militão Ribeiro ao PCP, com o seu próprio sangue, pouco antes da sua morte na cadeia da Penitenciária, onde foi assassinado pela PIDE.
7. Finalmente, o PCP não pode deixar de chamar a atenção da opinião pública democrática para a gravidade das acusações de Pacheco Pereira, na medida em que na base de meras suposições e efabulações, vai muito mais longe do que foi a própria PIDE, acusando no concreto um conjunto de destacados dirigentes do PCP, coisa que, na altura, nem a PIDE, apesar dos meios de que dispunha, se atreveu a fazer.
Felizmente que, pelo facto de vivermos em liberdade, as elucubrações históricas de Pacheco Pereira não poderão ser mais do que isso, embora não sejam pouco.
8. A verdade histórica é que sobre o PCP se abateu a mais feroz repressão pela sua perseverante e coerente luta pela liberdade do povo português. O PCP nessa luta pagou um pesado tributo com milhares dos seus militantes perseguidos, presos, torturados, caluniados e assassinados. A defesa da liberdade e da democracia exigem não o branqueamento do fascismo e dos seus crimes, mas a sua denúnci

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