Maomé e a Dinamarca

Um jornal dinamarquês publica uns cartoons retirados de um livro onde Maomé é ridicularizado e chamado de terrorista. Diplomatas de países muçulmanos nesse país sentem-se ofendidos. A resposta dos governantes dinamarqueses é: aqui temos liberdade de imprensa, o poder político não tem nada a ver com o assunto. Da sua resposta podemos depreender um tom de lição ocidental sobre os valores muito (estreitos diria) incondicionais da democracia. Depreende-se ainda o discurso do Nós, repetido hoje no fórum da TSF por Luís Delgado, “nós temos de ser tolerantes e eles não?”. O discurso Nós/Eles para mim tão longe da democracia como impedir a liberdade de imprensa. Um discurdo criminoso e abusivo (de quem fala ele quando diz Nós, da sua família, do seu partido ou do seu credo?)
A resposta do governo da Dinamarca não pode ser separada do contexto que é bom lembrar: o “ocidente” tem uma pata gigante em dois países do médio oriente, bombardeia os países que entende (vide semana passada o Paquistão) estica a corda com o Irão (o eixo do mal) expatria ou deixa expatriar prisioneiros sem qualquer tipo de garantias e direitos, nem civis nem de guerra. Sobre este contexto, ou talvez em todos mas aqui com mais evidência, penso que seria de elementar educação um governo demarcar-se de qualquer atitude xenófoba ou de intolerância religiosa que se visse reflectida nos seus jornais livres. A resposta violenta que se tem verificado nalguns países árabes não pode ser arrumada na prateleira dos fundamentalistas religiosos fanáticos. O fanatismo vive submerso nas camadas sociais de todo o mundo, emerge sujeito às mais variadas molas de arranque. E queimar uma embaixada é diferente de degolar um estrangeiro. Fanatismos ou nem tanto à parte parece haver “neste” lado quem esteja apostado em aumentar o desgaste e o confronto. “Daquele” lado também. Esses não são os que cortam cabeças mas são seguramente os mais fanáticos

9 thoughts on “Maomé e a Dinamarca

  1. Cara Wolf
    Confesso que ando um pouco desligado destas mundanidades. Não sei o que diz (embora quase adivinhe) o Luís Delgado, o Huntington e outros da mesma laia nem me interessa. Quer dizer, interessa-me como discurso exterior ao meu e à minha reflexão e como um discurso passível de crítica. Mas procuro não articular o que penso em função da mediocridade que se exprime nessa gente. Parece-me que é o que fazes.
    O que não me pareceu fácil de entender no que disseste em baixo foi que achasses justificado o tal pedido de desculpas do governo dinamarquês. Perante a ameaça de assassinatos caucionados tacitamente por governos impotentes (de propósito ou não não interessa) não me espanta (embora discorde) que os ditos governos nórdicos acabem por pedir desculpas. Só que com isso estão também a entrar no jogo que os querem fazer jogar, estão a entrar numa agenda política que não controlam e com a qual não têm nada a ver. Os governos dos países nórdicos apoiaram alguma das agressões que referes? A não ser que tenhamos uma interpretação tão sistémica e tão generalista das coisas que deixamos d ver o que está em causa.
    Um pedido de desculpas entre estados vale o que vale, ainda para mais quando os factos em causa não relevam em nada da acção agressiva de qualquer poder “público”. Dizes que “Da sua resposta podemos depreender um tom de lição ocidental sobre os valores muito (estreitos diria) incondicionais da democracia”. Francamente não estou a ver a ligação. Claro q a ligação existe e parece evidente nas bocas de governos e movimentos teocráticos como os da Arábia Saudita e Irão ou de governos e movimentos nacionalistas como os da Síria e do Líbano e que me parecem estar a cavalgar a onda uns dos outros. Mas isso é lá com eles (ou devia).

  2. Eu ainda não sei bem o que pensar disto tudo.
    Mas encontrei um artigo de um jornalista com que concordo. Acho que ele põe as coisas de uma forma certa. Ele é inglês e vive há muitos anos no Médio Oriente: conhece e tem a vivência das duas culturas.
    http://www.rebelion.org/noticia.php?id=26459
    (andei à procura do original em inglês, mas não encontrei, talvez ainda não esteja em linha)

  3. Sim, não podemos inferir que seja essa a mensagem por detrás da resposta, mas ela produz esse efeito. Foi a reacção do poder político que desencadeou a violência e o sentimento de humilhação e não a publicação dos cartoons propriamente dita. Há várias formas de pedir desculpa sem entrar na dança da chantagem e sem transigir com valores. Os cartoon são incitamentos ao ódio religioso, o que, em boa parte da Europa nem sequer é permitido.
    Em relação à articulação do discurso em relação a Huntington tens razão mas este discurso propaga-se, copia-se e procura tornar-se dominante. Basta entrar num autocarro ou supermercado qualquer.

  4. A vertentes desta discussão são muitas, e assumidamente há que considerar os dois lados da questão, coisa que por mais que queiramos, temos sempre a tendência para ocidentalizar as questões, em vez de olhar para elas de uma forma pragmática e realista. Mas de uma forma realista, ainda que ocidentalizada, a questão aqui é de responsabilidade, ou melhor de irresponsabilidade, de um cartoonista e de um editor de um jornal. Nunca, e jamais se poderá imputar responsabilidade política a um país, pessoa, ou a quem quer que seja, e muito menos usar o argumento da tentativa de ocidentalização do médio oriente porque países como a dinamarca, ou a noruega, sempre se revelaram muito politicamente afastados,ao contrário de nós portugueses pela magnífica manobra do par portas/zé manel barroso. Daí tanto é injustificada a publicação desses cartoons como é injustificada a reacção explosiva e assumidamente política de algumas e repito algumas pessoas mais religiosamente susceptíveis.
    Muito mais grave do que esta questão religiosa, será a negação do holocausto nazi, por um governante, independentemente dos ódios, xenofobias, e atrocidades políticas.
    é que no meu ateísmo, ninguém me consegue convencer da existência, ou não de Alá, Deus, Xiva, Ra, ou qual quer que seja a divindade em questão, mas as marcas da história, por mais que se tente, não se apagam…
    Com isto quero dizer apenas que se somos exigentes connosco e com os nossos princípios que tão acerrimamente defendemos, e se nos autoimpomos o respeito pelas práticas religiosas/pessoais/socias/civilizacionais/culturais de outros povos e de outras culturas, também temos o dever de exigir o seu respeito pelas nossas e pela nossa história (e neste caso, por mais fundamentalistas ocidentais que haja, não me lembro de nenhumas, sequer manifestações públicas pela negação directa e pública de algo que concerteza todos nós ocidentais conscientes nos envergonhamos)

  5. Ó pessoal, a publicação dos cartoons é injustificada porquê? E a reacção dos governos nórdicos é injustificada porquÊ? Então, logicamente, o comunicado do Freitas do Amaral já é uma coisa boa? Quando é que vamos deixar de confundir o cu com as calças? Porque é que se obstinam em jogar o jogo das elites do fundamentalismo islâmico? O internacionalismo proletário não tem nada a ver com a condenação de meia dúzia de cartoonistas e do seu putativo mau gosto. E não é preciso discutir o “ocidente”, as agressões, a “humilhação”. Nada disso esteve alguma vez em causa. Passou a estar quando passamos a achar que a malta dos movimentos fundamentalistas e os huntingtons são interlocutores válidos para perceber o fundo da questão. E isso é coisa que pessoas lúcidas não deviam fazer.

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