Noddy do Chá ou Quantas pessoas eram mortas pelos espíritos


Nas traseiras de um edifício do Terreiro do Paço – assim como num dos acessos ao Cais do Sodré – existe uma frase que não passa despercebida e que é: “OS ESPÍRITOS MATAVAM + – 200 PESSOAS NOITE“.
No meu bairro, um outro “autor de parede”, igualmente profético e com uma missão salvadora, tem escrito que “O AR CONDICIONADO MATA AS PESSOAS“.
Mas há uma diferença abissal entre os dois autores dos alertas.
O primeiro mostra-se claramente preocupado com o rigor. Ele poderia ter escrito que os espíritos matavam duzentas pessoas, mas, convenhamos, talvez soubesse que havia noites em que matavam menos e noites em que matavam mais. Dependia dos casos. E, preocupado com isso, optou por uma média.
O segundo poderia ter optado por um complemento que determinasse que em certas condições – mas não em todas – os sistemas AVAC podem ser responsáveis por óbitos e poderia até quantificar o número de vítimas (sensivelmente duzentas, como os espíritos, por exemplo). Mas não o fez. Este autor não se preocupa com o rigor. Para ele não importa clarificar a mensagem porque as frases feitas têm mais impacto e porque, se optasse pelo caminho do aprofundamento da dita, ela deixaria de ser uma frase feita e ascenderia a dado estatístico. E isso seria terrível para a retórica pretendida e para a soberba do “comunicador”.
O nosso amigo Noddy do Chá – que ficou tão sensibilizado com o facto de ter sido chamado de idiota neste blogue que se viu obrigado a referir o facto no seu, no início desta semana – faz o mesmo. Numa versão mais limpinha, porque não suja paredes na minha rua, escreve obituários como este: “o legislador é, para além dos governantes em determinadas matérias, aquele bando de incompetentes que vai para o Parlamento fazer telefonemas e encher o bandulho” ou outra pérola como “Eu fico lá satisfeito com o pagamento de uns milhares de euros [no âmbito da pré-publicação de lista de devedores ao fisco], que são imediatamente consumidos pelas máquinas devoradoras que se rendem de quatro em quatro anos“.
Eu acho que, dadas as afinidades, se se entenderem quanto a um rigor ligeiramente temperado, poderiam ter uma acção concertada. Qualquer coisa como “OS ESPÍRITOS PARLAMENTARES MATAVAM + – 200 PESSOAS NOITE COM AR CONDICIONADO“.

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