Miseráveis e desprezíveis

Com a evolução da campanha, finalmente vai-se afirmando o tom certo para o debate em torno do aborto.
Clara Ferreira Alves deu o mote no «Eixo do Mal», na tarde de Sábado, na SIC. Vítor Dias parafraseou-a no seu artigo de hoje, no Público. “Os argumentos do movimento «Não, obrigada», são miseráveis e desprezíveis”. Nem mais.
Finalmente começamos a perceber que não está em causa um tema ligeiro, acerca do qual todos podem ter uma opinião e acabar tranquilamente a trocar ideias, em torno de uma mesa repleta de bebidas quentes, ao som de Lou Reed.
Este é o tema. Este não é um tema, é um combate. Uma guerra civil não declarada. Não vale a pena dizer que é apenas uma questão judicial. Ou de saúde pública. Ou de desigualdades sociais. Ou de género. Ou de progresso e modernidade.
É tudo isso ao mesmo tempo e muito mais.
Não está em causa, evidentemente, a opinião particular desta ou daquela pessoa. Mas antes o modo como essas opiniões particulares são trabalhadas por dispositivos, argumentos, narrativas, imagens e imaginários.
É possível entender as dúvidas ou mesmo as certezas de um católico praticante acerca deste tema. Elas são antes de mais nada privadas, tal como a fé é um tema privado.

Do que se trata neste combate é uma prática, tão antiga como a própria instituição igreja, que Pacheco Pereira veio recentemente, e num momento tão decisivamente delicado, glorificar como pilar da cultura «ocidental».
Transportar a fé do domínio privado – da relação pessoal de cada crente com as suas crenças, a raiz revolucionária do cristianismo – para o espaço público, integrando-a num dispositivo normativo, transformando-a num instrumento do poder terreno, é o desporto favorito da reacção.
E as pessoas decentes não trocam placidamente argumentos de tertúlia com a reacção. Com a reacção, o único argumento razoável é o da guerra civil, tal como «o século XX português» não se cansou de demonstrar.
Mentir, iludir, obscurecer, demagogizar, não são coisas novas na história política portuguesa, nem sequer um exclusivo ultra-montano. Mário Soares, a face luminosa da reacção portuguesa, passou toda uma carreira política de insigne democrata a praticar essas nobres actividades.
É toda essa tradição de casamento entre o trono e o altar que se joga nesta campanha. “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos” dizia Karl Marx, em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”

Só essa tradição pode justificar que tantos comentadores políticos acusem Louçã de demagogia e populismo e saúdem Marcelo Rebelo de Sousa como um observador imparcial da vida política portuguesa.
Qualquer observador atento, que tenha lido os clássicos do liberalismo político, pode encontrar aí as raízes modernas e iluministas do discurso e do horizonte político do Prof. Francisco Louçã.
Qualquer pessoa que conheça o pensamento conservador que mais escola fez em Portugal poderá, sem dificuldades de maior, sublinhar a vermelho nas intervenções do Prof. Marcelo a sua pesada dívida para com Oliveira Salazar.
É contra essa tradição que o combate se desenrola. Ignorá-la ou menosprezá-la é um luxo ao qual não nos podemos dar. Desprezá-la é importante, desde que o desprezo dê origem a uma irrepremível vontade de passar ao ataque. É necessário dar às palavras a importância que elas merecem. Se os argumentos são “miseráveis e desprezíveis” é difícil pensar menos das pessoas que os empregam.

Todo o respeito pelos católicos, mortificados pela dúvida acerca das questões morais implicadas neste referendo, implica respeito nenhum pelos miseráveis e desprezíveis que procuram capitalizar essa dúvida para preservar o actual estado de coisas.
Argumentar que apenas está em causa se as mulheres serão ou não presas, ou se poderão abortar num hospital em vez de o fazer num vão de escadas, é respeitável, mas não é a única maneira de encarar a questão.
Há um combate em torno da legitimidade do Estado para impor esta ou aquela concepção ética e moral a quem dela discorda. Há um combate em torno da validade universal da família (e concretamente do patriarcado) como referência fundamental da vida social. Há um combate em torno da liberdade da mulher a dispor do seu próprio corpo.

Todos estes combates são, como a própria semântica da palavra “combate” indica, combates contra. Nomeadamente contra os que despuduradamente conspiram contra a nossa liberdade.
Os apelos a que não se personalizem os debates são tão piedosos como imbecis. Desconheço o que sejam disputas meramente intelectuais. Tudo isto é extremamente pessoal. Negá-lo é tão hipócrita como a actual legislação relativa ao aborto.

8 thoughts on “Miseráveis e desprezíveis

  1. Estavamos a postar ao mesmo tempo. Desculpa lá…
    Ainda bem: ficam as duas prespectivas.
    Não me choca o que dizes, mas creio que se perdermos o referendo a tradição vai oprimir como nunca o cérebro dos vivos e o “Movimento” vai sofrer uma derrota histórica de que não se livrará tão cedo.
    Ao mesmo tempo, acho que a estratégia certa para ganhar é: a) combater a abstenção e b) demostrar que, de facto, do que estamos a falar é de prisão ou não para as mulheres, parteiras e profissionais de saúde. Será um combate pouco ambicioso mas é o que se está a fazer agora e (ainda por cima) estamos longe de o ter no papo.
    Também acho que podem coexistir várias estratégias, no fundo, para os vários combates que se travam ao mesmo tempo, mas não tenho dúvidas que a que defendo é a mais importante até o dia 11 de Fevereiro.
    Primeiro ganhar a guerra.

  2. Não tinha ponderado desse modo, mas subscrevo cada linha. Realmente não se tem falado sobre isso durante os debates. E sim, claro que sim, é o patriarcado que é posto em cheque a partir do momento em que é concedida à mulher a decisão sobre o seu próprio corpo.
    Permite-me acrescentar que a luta é também contra a coacção a que a mulher está sujeita não só pela sociedade patriarcal, mas pelo próprio conjuge (que tanto poderá coagi-la a levar a gravidez adiante, como a interrompê-la). Sendo que, no segundo caso, é a mulher que é o alvo do julgamento.

  3. Precisamente. Não te fazia mal ter mais dúvidas, caro chefe.
    Não há nenhuma estratégia que assegure a vitória e está por demonstrar que a moderação seja sempre o melhor caminho.
    E caso as mulheres não sejam presas mas continuem a não poder fazer o aborto legalmente, num hospital público? E se forem obrigadas a escolher entre o custo elevado de um aborto em Espanha ou o custo acessível de um aborto em Gondomar?
    Estamos a falar de mais do que apenas prisões. Estamos a falar de tudo.

  4. a questão fulcral – se quisermos fugir da temida palavra morte – é assumir a ingerência ou não da vida na discussão da interrupção voluntária da gravidez. mais que isso, il faut definir o conceito de vida. uma pedra é vida? um animal é vida? um feto (com não sei quantas semanas) é vida? a vida começa quando? quando respiramos ar? – realmente parece começar aí, já que a nossa idade conta desde o momento do nascimento. e numa cultura tão tempo-dependente, surpreende-me tal anacronia (porque se trata de tempo). então se só nascemos depois de paridos, quer dizer que antes estávamos no reino da morte, como depois – porque, até prova em contrário, isto é só uma intermitência levezinha – e, como tal, não vivos. em conclusão, mas não acabando: a concepção de vida que temos é pertencente à nossa cultura. discutimo-lo localmente, como se não fôssemos ocidentais modernos. a revolução médica passou-se ou não, afinal? os corpos foram ou não penetrados e bio-mecalizados como nos dissera foucault? temos poder sobre o nosso corpo? claro que temos. desde o primeiro suicídio. mas claro, tudo o que mexa com o corpo – o verdadeiro coração da questão – é profano e herege. todo o corpo humano é pecado e pecaminoso. porque somos superiores, somos donos da razão. os animaizinhos não, podem ser sacrificados aos deuses à vontade. é no que uma grande autoridade moral assenta. na riqueza e pureza de espírito e na sujidade, impureza do corpo, da carne. pois que se matem então, quem acha que uma vida espiritual é mais digna. e sejam felizes nos céus. largai-nos o corpo de amarras – não o meu, pois se acreditarmos na comunhão dos corpos e das paixões o nosso corpo é nosso e de todos, não há sujeito porque não há necessidade para haver sujeito. não há corpo, porque todas as decisões são morais, conquanto que decidemos que sejam. logo, não existe imoralidade. apenas tempo, espaço, acaso e entropia.

  5. Eu por acaso, como sabes, sou um gajo de poucas certezas… mas sinceramente, nesta questão, por mais que pondere, não tenho muitas dúvidas sobre o que deve ser o “prato forte” da campanha do SIM.
    Repara que os teus argumentos avançados galvanizam aquelas pessoas que votariam sim, fosse de que maneira fosse.
    Eu gostaria de convencer a grande maioria que não votou nas últimas eleções e não acho que não foram votar SIM, dando a vitória ao NÃO, porque acharam demasiado moderado o voto sim.
    A luta por um sistema de saúde público assessível é também uma luta que tem de ser travada. Sem dúvida. Mas no dia 11 ou é sim ou sopas em relação àquela pergunta especifica.
    Infelizmente não vamos poder escolher sobre mais nada

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