Profissão: Porteira!

Encontrava-me a terminar o livro « Deux heures de lucidité » (Noam Chomsky. Entrevistas feitas por Denis Robert e Weronika Zarachowicz. 2001. Les arènes), quando, a campainha tocou. “Êtes-vous la concierge?”, respondi prontamente e de maneira áspera: NON.
Depois das duas horas de lucidez, passei mais duas horas de depressão. Reflecti no porquê deste estado emocional, e dei-me logo conta que tinha ficado muito ofendida com tal evento.
Ou seja, o facto de ter um apelido português e desse apelido estar exposto no prédio onde moro fez com que um indivíduo não hesitasse em tocar à minha porta sem o mínimo de pudor. Poderão alguns dizer “menos mal se as discriminações se resumissem a este tipo de situação”. No entanto, este tipo de situações demonstram o que se passa nos bastidores de uma sociedade que se diz de “acolhimento”, mas a que eu chamaria intuitivamente de sociedade de instalação.
Um questionário distribuído pelo “Syndicat National des Gardiens d’Immeuble et Concierges » em França mostrou que mais de 2/3 das pessoas que exercem a profissão de porteiro são mulheres. Destes, 60% são portugueses, 30% são franceses e 10% são espanhóis (Ribeiro, 1997, Les familles portugaises et la société française, Edition W). Queiramos ou não, os serviços desempenhados pel@s porteir@s são associados directamente ao conceito de “servilismo” herdado da escravatura. Não podemos esquecer, por outro lado, que estas pessoas habitam nas “loges de concierge”, muitas vezes caracterizadas por serem espaços exíguos. Aliás, conta a história dos porteiros na região de Paris que esta profissão sempre foi relegada pelos autoctones às pessoas vindas do exterior. Num primeiro momento, foram as migrantes camponesas da Bretanha que ocuparam em massa este serviço, que foi paulatinamente relegado às imigrantes de Espanha e seguidamente às portuguesas.

Em resumo, fiquei revoltada pelo “Êtes-vous la concierge?” porque ouço dizer em voz alta, tanto pelas autoridades francesas como pelas autoridades portuguesas ou mesmo por certos indivíduos actores da imigração portuguesa em França, que a condição dos imigrantes portugueses é um exemplo bem sucedido da integração francesa.
É um facto, as mulheres portuguesas em França têm a mais elevada taxa de actividade profissional quando comparadas com outras mulheres imigradas em França. Mas esta profissionalização faz-se pelo intermédio de profissões consideradas na cauda da hierarquia socio-profissional e profissões muito segmentadas ao nível do género. Não afirmarei que a integração das portuguesas em França é bem sucedida ou mal sucedida, nem muito menos penso que a integração seja um conceito susceptível a avaliações desta ordem. Apenas direi para terminar que a integração das mulheres portuguesas em França está envolta em mecanismos ligados a uma tripla discriminação: de género, de classe e de origem geográfica.

13 thoughts on “Profissão: Porteira!

  1. Shift, por um lado sim, é verdade o que dizes, a discriminação de classe, de género e geográfica existe, isso não é discutível. Agora não me parece é ser necessário ir para França para constatar isso. Pronto, sentiste isso no pêlo. Mas em Portugal isso passa-se, e bastante. Basta apanhar um qualquer autocarro que venha dos subúrbios de Lisboa (o 16 por exemplo) antes das 8 da manhã. 90% das pessoas que lá estão são mulheres negras, oriundas dos PALOP. Ao invés de porteiras, porque somos um país pobre, são empregadas de limpeza. Para mim ser porteiro ou empregado de limpeza não tem mal nenhum em si, no sentido em que todas as profissões são válidas. O que é mau é serem mal pagas. As mulheres portuguesas que fazem esses 60% das estatísticas muitas delas têm níveis de escolaridade muito baixos. Por alguma razão tu não és porteira e te indignas por te confundirem com uma porteira (como é isso possível?). Não és porteira porque foste alvo de discriminação de classe em Portugal. Mas no teu caso, no sentido oposto ao das porteiras. O mal não está só em França. O mal está no sistema económico e esse é transversal, como tu sabes.

    Só reajo (talvez esteja enganado, assumo isso), porque me parece que se aje ou se constata coisas apenas quando o sentimos na pele. É tudo pessoalizado. Ou seja, quando nos tocam à porta e nos perguntam: “Êtes-vous la concierge?”

  2. É, algums portugueses acham que são mais que outros… eu vivo na mesma cidade e não me ofendo nada quando me confundem com o “zé do pipo”. Eu também confundo o francês que gosta de “Johnny Hallyday” e “Polnareff” com o que gosta de Juliette Binoche e “Les Têtes Raides”, cada um é como é, e ninguêm é mais que os outros, mesmo estando a ler « Deux heures de lucidité »… Procure mais fundo, vai ver que a vergonha de ser português deve estar mais enrraizada do que nos tenta fazer acreditar ! Boa noite !

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