Na Rua do Carmo

paisano.jpg
Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o quotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

Rua do Carmo, rua do Carmo
Mulheres bonitas, subindo o Chiado
Mulheres alheias, presas ás montras,
Alguns aleijados em hora de ponta
Soprando a vida, passam estudantes
Gingando as ancas, lábios ardentes
Subindo com pressa, abrindo passagem
Chocamos de frente, seguimos viagem

Então é assim. Cerca de 200 a 300 pessoas manifestaram-se a seguir às comemorações oficiais do 25 de Abril, numa manifestação anti-autitária, anti-fascista e anti-capitalista, iniciada às 18h30 na P. da Figueira e que terminou no Lg. Camões cerca das 19h30. A manif decorreu rapidamente e embora estivesse rodeada de um considerável dispositivo policial (não foi autorizada), não houve incidentes. Ao longo do percurso foram pintadas algumas frases na parede e atiradas algumas lâmpadas com tinta a vidros de lojas e bancos. Ninguém partiu montras.
Evidentemente, comparada com a parada que desceu a Av. da Liberdade a lançar palavras de ordem de há 30 anos, esta manif assumiu um aspecto bastante mais combativo e radical, com palavras de ordem viradas para o presente e não para o passado. Nesse sentido, foi a resposta que se impunha ao crescimento da agitação e provocação fascista dos últimos tempos. Foi também a primeira vez, desde que me lembro, que uma manifestação no dia 25 de Abril teve um cunho de combate e conflito minimamente à altura dos 18 meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Desde logo, a manifestação teve a vantagem de se dirigir, não à imagem difusa, consensual, que celebra a democracia que temos, mas antes de exprimir a vontade de libertação não cumprida que caracterizou o período revolucionário. Deu ainda uma expressão prática ao apelo que Cavaco Silva, sempre brincalhão e jovial, dirigiu aos jovens: os manifestantes não se resignaram perante as dificuldades e, insubmissos q.b., procuraram à sua maneira reinventar os festejos do 25 de Abril.
Chegada ao Camões, parte da manif desmobilizou. Outra parte, cerca de 100 pessoas, sentiu que algo estava por fazer e decidiu correr o risco de efectuar o percurso no sentido inverso, atingindo a sede do PNR, situada na Rua da Prata. Nesse sentido, desceu a Rua Garrett, passando por um considerável aparato policial e acompanhada de bastante perto por alguns polícias à paisana, o chefe dos quais está na fotografia acima colocada.
A este ponto a manif era composta por um núcleo de pessoas de cara tapada e vestidas de preto, bem como várias pessoas que simplesmente queriam ver o que iria acontecer. Esta manif era bem menos compacta do que a que tinha subido o Chiado e, levadas pelo entusiasmo, as pessoas que seguiam na dianteira iam a uma velocidade bastante grande. Por altura dos Armazéns do Chiado, e após um curto impasse para decidir o melhor caminho, seguiu pela Rua do Carmo. A este ponto também, alguns dos manifestantes batiam com os suportes das bandeiras em cartazes e mais bolas com tinta foram enviadas para montras. O Chiado estava bastante mais vazio do que uma hora antes, o que aliás é habitual. Nada havia sido partido. Nenhuma agressão havia sido feita.
Foi aqui que dois ou três manifestantes pararam para escrever um grafitti: “O 25 de abril passou mas a lei do bastão continua”. O resto da manifestação continuou, exceptuando um pequeno grupo que ficou a garantir a sua segurança e em vão gritou para os da frente para que esperassem e abrandassem. Quando a frase já estava a ser terminada, um grupo de polícias à paisana, presumivelmente agentes do SIS ou da Judiciária, cercou os seus autores e procurou detê-los, sendo por sua vez cercado pelo pequeno grupo que ficara para trás. Uma rápida troca de empurrões permitiu às forças da ordem compreender que não estavam a lidar com um bando de miúdos assustados. Os agentes largaram as pessoas que tinham agarrado, sacaram de bastões extensíveis e recuaram em grupo. O fascista nojento da foto acima, a menos de 5 m de mim, falava pelo rádio chamando o corpo de intervenção. O resto da manifestação, que já tinha passado o elevador de Stª Justa, apercebendo-se do que estava a ocorrer nas suas costas, voltou a correr para o cimo da Rua do Carmo. Um very-light foi lançado para o ar. Chegaram duas carrinhas do corpo de intervenção ao cimo da rua e, simultaneamente, uma à parte de baixo, vinda do Rossio. Os respectivos passageiros saíram e carregaram. Nem todos tinham escudo e capacete.
Alguns manifestantes procuraram agrupar-se para travar a carga policial, mas a maior parte encostou-se simplesmente às paredes da Rua ou refugiou-se em lojas.
O chefe do corpo de intervenção gritou aos seus subordinados que parassem após a primeira carga, constatando que não havia uma resistência digna desse nome e que se passava agora ao simples espancamento dos manifestantes. Não teve qualquer sucesso e, constatando-o, juntou-se aos seus homens dedicando-se aquilo que sabe fazer melhor.
Os polícias vindos de cima gritavam aos manifestantes que dispersassem enquanto lhes batiam com os bastões. Os que vinham de baixo gritavam aos manifestantes que fossem para cima, enquanto lhes batiam com os bastões, naturalmente.
As pessoas que caíram no chão foram pontapeadas e levaram bastonadas. As que se encostaram à parede foram também espancadas, a maior parte sem esboçar qualquer resposta. Tod@s os/as que esboçaram alguma resistência foram especialmente atacados, mas conseguiram, na sua maioria, manter a polícia a alguma distância e fugir, pela parte de baixo da Rua, sendo perseguidos até ao Rossio, dispersando em seguida. Doze pessoas foram presas, tendo algumas delas sido agredidas quando já estavam detidas, à boa maneira policial.
A polícia poderia ter prendido toda a manifestação se quisesse. A polícia poderia ter simplesmente dispersado a manifestação se quisesse. A polícia quis, em vez disso, espancar o maior número possível de pessoas, provocar-lhes medo e assegurar que a sua autoridade não voltaria a ser desafiada.
É difícil acreditar que alguém na manifestação tivesse coktail’s molotovs e, perante tão eloquente demontração do fundamento democrático da autoridade policial, tivesse hesitado em utilizá-los. Teria tido pelo menos a vantagem de manter a polícia à distância o tempo suficiente para o grosso da manifestação fugir. Nesse aspecto, a carga policial deu toda a razão a quem levou para a manif bandeiras com cabos de metal. As mãos nuas não são propriamente as ferramentas indicadas para enfrentar a autoridade policial.
Diga-se aliás, que caso a manifestação tivesse demonstrado a intenção firme e a inteligência táctica para resistir, não lhe teria sido difícil fazer a polícia recuar. Organizado como um bando de energúmenos que gostam de bater em pessoas assustadas, sem qualquer organização ou método, o corpo de intervenção não passa de um bando de rufias fardados e equipados à nossa custa. Qualquer dia calhar-lhes-à na rifa algo mais do que claques de futebol.

Aos que lamentam os grafitis em prédios novos relembro apenas os milhares de murais e pintadas que enchiam até há poucos anos as paredes e muros da cidade, fazendo-nos pensar que esta nem sempre foi o cenário das vidas entediantes que levamos e que aqui, em tempos, foi desafiada a ordem capitalista das coisas. Esses murais e pintadas eram inequivocamente mais novos e modernos do que qualquer renovação urbana do “coração comercial da cidade”. De resto, a liberdade de transformar permanentemente o espaço urbano que se percorre diariamente é um patrimonio bem mais agradável do que as fachadas de lojas que a polícia alegadamente procurava defender. Acerca disto não existirá nenhum consenso.
Para terminar. A autoridade, o poder, o monopólio da violência, a propriedade privada, estão tão largamente inscritas nos nossos imaginários que até parece estranho que alguém desafie esses pilares da civilização ocidental. Apenas parecemos capazes de nos indignar ou lamentar a violência policial “excessiva”. Relembro a esse propósito que a violência policial em Portugal nunca foi outra coisa senão excessiva. A não ser, é claro, quando se trata de perseguir criminosos poderosos. No que toca à extrema-direita as autoridades policiais tratam-na como se não fosse mais do que uma versão um pouco mais radical e para-militar do SEF.
Uma concentração de trabalhadores à porta de uma fábrica encerrada, na Amadora, motivou à poucos meses uma carga policial. Vários jovens dos bairros pobres da periferia são continuamente espancados e perseguidos pela polícia, quando não mortos a tiro pelas costas. Uma casa ocupada foi desalojada há 2 anos pelo GOES, de arma na mão, sem aviso prévio, de madrugada, tendo as pessoas sido levadas directamente das suas camas para celas prisionais. Uma marcha contra o encerramento do serviço de urgências, em Caminha, sofreu uma carga policial.
Abunda a indignação e a condenação, escasseia a resposta que se impõe. Que sentido pode fazer falar do dia da liberdade quando se sente, de forma tão clara, em nosso redor, ao nosso lado, à nossa frente, semelhante dispositivo de violência?
De uma vez por todas, a bófia bate nas pessoas porque tem medo. E tem razão em ter medo. A violência não é boa nem má, a violência é.

63 thoughts on “Na Rua do Carmo

  1. Pois… A cobardia e a desresponsabilização saíram à rua.
    Depois de servir o regime militar com aproveitamento de 19 valores em 20 possíveis, hoje em dia penso em voltar ao treino, apenas para defesa pessoal, nunca sabendo quando é que um mono vai fazer-me frente.
    Não os reconheço como autoridade enquanto missionários da cobardia política.
    Não reconheço nos bastões nem nas armas de fogo nenhuma condição especial, ou um manuseamento
    digno.
    Em situação de guetto 5 polícias valem por 1 bandido, então as forças políciais estão na merda ou os bandidos estão muito evoluídos.
    Da forma e contexto passado pelas tele-escolas após o incidente acima descrito, todos vão pensar que até o trabalhador honesto é mau para o regime.
    Neste caso a ordem é a provocadora de desordem, em prol de denegrir uma sociedade que deseja ser melhor, para apenas nos governarem sob o receio e medo que nos batam mais…
    Talvez p/ ano levem eles…

  2. Vocês são uma vergonha para Portugal e para o mundo.
    Querem manifestar-se e apenas vocês terem direitos e os direitos dos outros quem os defende são vocês a pintarem a insultarem, “…bófia de merda, morte aos fachos, etc….”, tenha vergonha e para o ano não saiam de casa.
    Não prometam o que não conseguem fazer, sa não aleijam-se mais uma vez, suas crianças assustadas, com medo da repressão policial, seus coitados que deveriam estar a dar comida aos pombos, quando os MAUS da Policia começaram a bater, já agoras as vossas moradas para haver umas manifs, junto aos vossos carros e casas e contra quem vos dá a mesada para estudarem, tem muita garganta e pouca MORAL, ABAIXO OS ANARCAS.
    p.s. FACHO= ao um facho que se segura na mão com uma chama por cima estilo da tocha olimpica, isto é para quem não sabe, meninos do coro. Tenha juizo e seja uteis à sociedade ou seja calem-se inegrumes. O ZÉ sempre amigo.

  3. Rick Cobarde!
    Gostei da parte das pessoas assustadas, ahahahahahaahahahahahahahahahaahahahahahahahaahahahah, onde estavam essas pessoas assutadas, por acaso não eram as mesmas que gritavam e chamavam nomes a toda a gente? As que grafitaram as paredes? as que partiram diversas coisas que não lhe pertencia, se são essas as pessoas assustadas manda vir mais desses meninos assustados, que apenas são meninos assustados quando dão de frente com um niga que lhes ROUBA o telemóvel e ai gritam onde está a Polícia? e eu respondo a tratar de desordeiros na RUA DO CARMO. Bem hajam seus inegrumes, que longe estão de serem anarcas, de esquerda, de direita, de centro, de baixo ou de cima, são é uns vandalos que dão despesas ao estado, NADA MAIS DO QUE ISSO, meninos mimados que recebem uma mesada para estarem na Universidade ou algo semelhante e protestam contra tudo.
    CONTINUAÇÃO DO BELO JUSTICEIRO
    O JUSTICEIRO DOS BLOGS disse…
    «Qualquer dia calhar-lhes-à na rifa algo mais do que claques de futebol. »
    Meu caro isso é uma ameaça?
    Se sim digo-lhe que é crime!
    Se não logo vi que é só conversa!
    Pronto chora no ombro da mãe ou da ama, va-la, pronto menino, já chega vai para a cama, pronto menino bonito, está muito irritado?
    Então coloque o dedinho mais grosso que não deve chegar na boca, e chore mais um bocado, de seguida vá para a cama outra vez, vá lá caminha lindinho, estás a portar-te muito mal, como um menino com birras que deve descontar muito nos impostos para pagar as fardas aos Polícias, que ensinaram-te mal apenas existem para manter a ordem e proteger os oprimidos e vítimas que deve ser o teu caso seu malandrinho chorão gastador de dinheiro nas fardas da polícia. Sim senhora irrita-te e responde seu mauzão. Terrivel és pior que o He-Man, seu Homem aranha das cavernas, sempre escondido nas palavrinhas lindas que escreve nos seus blogs lindinhos. Adeus fofo

  4. RESPOSTA AO bunuh_16 – CHORÃO CHORÃO, VÁ PARA A CAMINHA SEU CHORÃO, COMPRE UM PÓLÍCIA SÓ PARA SI, SE SÃO TÃO MAUS, NÃO CHAMAR OUTRA VEZ SEU MENINO CHORÃO

  5. Escrevem bem, mas, há que ter também inteligência suficiente de descernimento e avaliar o sucedido de forma imparcial, houve carga policial e houve erros e dos manifestantes não houve erros e abusos.
    Dá que pensar, afinal quem esteve bem, o mais provavel, ninguém, somente quem estava a trabalhar e foi apanhado no meio de um bando de mafifestantes e uma carga policial.
    Por isso caros internautas, primeiro à que reconhecer a “mea culpa” e depois a dos outros, afinal é por este ideal de justiça e liberdade que voçês lutam, ou tal vez não passa de uma triste demonstração de tentativa de anarquia

  6. Belo blog que aqui esta, ignorancia, estupidez e muita muita estupidez merdosa, pena nao terem sido apanhados na carga policial para vos partirem o focinho comunas de merda iliterados do caralho putas lenineskas

  7. A única razão porque a polícia age assim é porque o povo hoje em dia tá sempre contra eles, a polícia faz o seu trabalho o povo diz mal ou começa a refilar, e queixam se da falta de segurança… -_- e depois á também essa xungaria toda que há para ai, jovens que se fazem de coitados e dão mau ar á polícia

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s