O outro movimento operário


Há um debate em curso, acerca da «democracia», que terá começado pela Venezuela, e está a redundar numa apologia do Estado. Tem como intervenientes o Renato Carmo, o Zé Neves e, mais recentemente, a propósito da distinção entre «público» e «comum», o João Rodrigues.
Neste debate o Zé encarou de frente o senso comum de esquerda – segundo o qual a emancipação se faz no terreno da soberania do Estado moderno, legitimada pelo sufrágio e reforçada por uma mais ampla «participação», introduzindo gradualmente grãos de «socialismo» na engrenagem do capitalismo, até que a grande linha de montagem se torna cada vez mais eficiente e a divisão de riqueza menos desigual. A tese é habitual: «Mais e melhor Democracia» combinada com um capitalismo mais racionalizado de onde, progressivamente, se erradicam os capitalistas. Isto é evidentemente uma caricatura, mas serve apenas para assinalar que os argumentos apresentados como «inquestionáveis porque sérios e concretos» merecem ser mexidos com pinças.

Os outros argumentos não são mais imaginativos: a esquerda não se pode conformar com “a saída de cena apregoando aos quatro ventos a ineficácia do sistema e apresentar a revolução como a única saída possível”(Renato Carmo); “as posições libertárias do Zé Neves a favor da abolição do Estado só são sustentáveis a um nível tal de abstracção que dificulta a discussão sobre os «assuntos correntes da vida».” (João Rodrigues).
Este debate só me interessa na medida em que entra por este blog a dentro. Para que se esclareça, parte dos que aqui escrevem subscrevem, com as nuances imagináveis, as certezas do Renato e do João, ao passo que outra parte, com nuances inimagináveis, partilha o cepticismo do Zé face ao senso comum da« esquerda». Agora que já arrumei em gavetinhas esquemáticas os meus co-locatários (já consigo ouvir a sua indignação), passo ao que importa.

Ninguém está em posição, neste início de século, de tirar conclusões apressadas acerca do que quer que seja. Quem arruma este tipo de debates com expressões como «objectivamente», «assuntos correntes da vida» ou, como o Hugo Mendes, passando atestados de menoridade política ao «povo», faz batota. Nenhuma das posições em disputa tem bases mais sólidas do que as outras e nenhum argumento será definitivo. Se é do futuro que estamos a falar, qualquer conhecimento histórico mais aprofundado apenas nos indicará que o futuro tem a virtualidade de surpreender quase todas as previsões e cenarizações. O curso da história foi frequentemente alterado por acontecimentos que ninguém previa apenas um ano antes. Os exemplos são muitos e significativos – a revolução russa e a entrada dos EUA na I Guerra Mundial, a subida de Hitler ao poder, o lançamento da bomba atómica, a queda do muro de Berlim e o colapso da URSS, o atentado contra as Torres Gémeas a 11 de Setembro de 2001.
Igualmente, ninguém pode imaginar o que irá acontecer na China nos próximos anos, ou avaliar o possível impacto de uma guerra entre o Pakistão e a Índia.
Cada um dos acontecimentos interfere com a tendência de evolução histórica a um nível e com um impacto impossível de avaliar antecipadamente e difícil de compreender completamente a curto prazo.
É por isso que se torna impossível substituir reflexões políticas de mais amplo fôlego acerca dos mecanismos de poder que atravessam as nossas vidas por ideias apontadas ao curto prazo. E quem contrapõe essas reflexões aos «assuntos correntes da vida» ignora que os intelectuais que as produzem também enfrentam os assuntos correntes da vida e por isso mesmo sentem a necessidade de os abordar de um ponto de vista crítico.


E é aqui que tudo começa. Crítico. Evidentemente que se pode considerar, por exemplo, a divisão social do trabalho, como um elemento natural, algo que até se torna pueril discutir, de tal modo está presente nos nossos quotidianos e familiarizado pela rotina. Algo incontornável como um oceano e insuperável como uma montanha. Evidentemente os esforços mais voluntaristas/autoritários de «engenharia social» ocorridos no passado deixaram atrás de si muito terreno queimado (e gente queimada também, literalmente) e preenchem frequentemente o debate. Mas não é menos certo que a divisão social do trabalho não é um elemento a-histórico e que nos acompanhe desde os princípios dos tempos. Tem a sua história, a sua evolução e transformações constantes, está inserida no caldo interminavelmente em movimento das relações sociais e, por isso mesmo, equacionar o seu fim não é um exercício vazio.
Do meu ponto de vista, basta que haja um conjunto significativo de pessoas a desejar e defender o fim da divisão social do trabalho, da propriedade e do Estado, para que seja necessário encarar essa possibilidade. O mesmo é válido para tudo o resto que diz respeito à comunidade humana, à forma como se vive em conjunto e se encaram as relações sociais. O que as pessoas fazem, as pessoas podem desfazer.
E isto conduz-nos a outro elemento, que me parece ser o decisivo neste debate – o que respeita ao carácter «objectivo» das relações sociais. Uma tradição positivista muito forte no seio do movimento operário europeu e, por arrastamento, da «esquerda», pretendeu dar às análises da sociedade, da política, da economia, um carácter «científico» e «objectivo», para fundamentar a sua crítica ao capitalismo. Fazendo-o, não apenas considerou a sociedade um laboratório onde se fazem experiências e a teoria o resultado dessas experiências, como consagrou alguns dos seus «objectos de estudo» como invariáveis e outros como variáveis.
Teríamos assim que o trabalho assalariado tal como o conhecemos seria irracional porque conduziria a uma repartição injusta de riqueza, mas o trabalho assalariado numa sociedade «socialista» continuaria a existir, sendo a mais-valia produzida administrada racionalmente, a bem da comunidade, por um conjunto de «representantes» dos trabalhadores. E para um tempo indefinidamente distante (talvez depois de iniciada a colonização espacial) ficaria o «comunismo», com a sua utópica e milenarista aspiração ao fim do trabalho e da propriedade e da representação.
Contra esta tradição positivista, que entra pela janela sempre que a fazemos sair pela porta, que segue uma «objectividade» por si postulada e a situa no centro do debate político, ergueu-se inúmeras vezes o clamor da insubordinação social, de insurreições sem conta, de revoluções derrotadas, vitoriosas ou desfiguradas, mas em todo o caso reais e efectivas. Quando lemos o debate entre Kautsky e Lenine em 1918, verificamos, por exemplo que, muito mais que a democracia, é a história que está ali em debate, tal como acontecera já no debate entre Kaustky e Rosa Luxemburgo acerca das greves selvagens na Bélgica em 1904. O mesmo poderá ser dito do debate político em Itália, entre a ala esquerda do PCI e dos Sindicatos e a Autonomia Operária, ou dos insultos trocados entre a burocracia sindical francesa e os grupos de agitação de operários e estudantes durante a greve geral de Maio de 68, para não chegar ao confronto entre Intersindical e greves selvagens nos primeiros meses da revolução portuguesa.
Contra esta tradição positivista e «objectivista» que desde cedo marcou o movimento operário «oficial» e acompanhou sempre a sua integração nas estruturas económicas do capitalismo, ergueu-se uma outra tradição crítica e «subjectivista» que caracterizou aquilo a que alguns autores chamaram «o outro movimento operário».
Nessa tradição, os elementos que caracterizam a vida nas sociedades capitalistas são considerados historicamente , como algo potencialmente transitório, subordinado às múltiplas dinâmicas sociais, culturais e políticas que percorrem essas mesmas sociedades. E, na medida em que identifica nalguns desses elementos pontos de tensão, essa tradição recusa-se a acompanhar a criminalização que se generaliza relativamente aos que nessa tensão habitam e agem. Daí à desconfiança relativamente a todas as criminalizações e à própria ideia de crime, vai um pequeno passo, que só alguns se atrevem a dar.

É o confronto entre essas duas tradições que preenche os discursos em debate.
Uma das tradições é bem conhecida e assumiu já um carácter «respeitável» que a leva a um convívio relativamente pacífico com as instituições vigentes, a uma posição de respeito pelas suas regras e à ambição de as alterar gradual e pragmaticamente.
A outra tradição é frequentemente remetida para um certo «exotismo», como se se tratasse de um assomo de loucura difícil de compreender (o debate entra frequentemente no terreno da psiquiatria, o que só desmente o carácter presumivelmente «neutral» e «objectivo» desse campo de saber), um capricho intelectual ou um delírio anarco-populista. Só isso explica que se fale, por exemplo, dos «dias louco do PREC» ou da «sociedade portuguesa em transe» a propósito do período revolucionário. Só assim se pode evitar que certos acontecimentos desmintam uma certa imagem da história. Esta tradição é esconjurada porque analisá-la seriamente poderia pôr em causa o carácter «natural» da sociedade em que vivemos e a inevitabilidade do que aí vem.
A tradição «oficial» é aquela que tende a confundir-se com a «esquerda».
É por tudo isto que assistimos a frequentes debates, na blogosfera (ou lá o que é), entre liberais/conservadores de um lado e pessoas de «esquerda» por outro, ao passo que esse debate raramente tem como protagonistas os liberais/conservadores de um lado e pessoas da tradição «crítica» do outro. Parece que falamos línguas diferentes. Ao passo que pessoas de «esquerda» podem perfeitamente debater com um liberal o grau de intervenção do Estado na economia, ou o carácter democrático ou não do Estado Venezuelano, os interlocutores tendem a rarear quando se assume como objectivo fundamental eliminar o Estado e se escolhem estratégias e posicionamentos com base nesse objectivo. Quem se organiza para controlar o Estado tende a assumir a forma do Estado como referência organizativa, mas quem se organiza para eliminar o Estado tem necessariamente de eleger outros métodos, critérios e preocupações do ponto de vista organizativo. De um lado fala-se da dimensão lúdica, da importância dos contributos de todos, do respeito por opiniões diferentes, da recusa de lideranças formais ou informais; do outro lado fala-se de eficácia, do caminho mais curto, da técnica mais adequada, da estratégia que produz resultados.
Enquanto estas diferenças não forem afrontadas de forma directa e frontal, nenhum debate entre as duas tradições, entre os dois movimentos operários, poderá ter lugar, e a distinção entre «público» e «comum» permanecerá para sempre um diálogo entre surdos.

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29 thoughts on “O outro movimento operário

  1. Caro ricki dangerous,
    Podes discutir o que quiseres, quando quiseres e onde quiseres. Podes dizer que é tudo imprevisível, que está tudo em aberto e que tudo é possível. Podes adjectivar as outras posições. Podes imaginar as cozinhas todas do futuro. Agora convinha que apresentasses argumentos que defendam e sustentem a tua posição. E que fossem passíveis de debate racional com quem pensa de forma diferente (incluindo com os «liberais») Dizer que tudo é histórico e resulta de uma evolução não vale. É muito curto e não convence ninguém.
    Até porque o objectivo de eliminar o estado é partilhado com os libertários de direita. Mas esses têm um programa, argumentos, hipóteses de trabalho (uma provocação irresistível que pretendo desenvolver porque acho que tem elementos de verdade: sabem o que é um anarcocapitalista? um libertário de esquerda depois de ter estudado economia na Nova).
    Aqui a única coisa que vejo é catalogação e descrições históricas superficiais com adjectivos.
    um abraço.

  2. caro joão rodrigues,
    sabes bem, bem demais para o esqueceres mesmo que te seja conveniente por um momento, que há uma diferença radical entre um libertário de esquerda (anarquista, comunista ou outros palavrões que não te agradem) e um anarcoliberal: é que o segundo ignora ou faz por ignorar a existência de relações de poder nas sociedades de hoje e o primeiro não. Mais ainda: o primeiro leva tão a sério a importância das relações de poder que não lhe basta colocar os oprimidos de ontem no lugar dos opressores de ontem; interessa-lhe sim que os oprimidos mudem a própria natureza das relações de poder.

  3. Está enganado Zé Neves. Os libertários de direita (os que levam a coisa a sério) reconhecem as relações de poder das sociedades de hoje: acham é que elas se fundam na existência de um aparelho de coerção (o estado) que tem de ser abolido (não concordas?). E propõem mecanismos de coordenação para o substituir (padrões de interacção horizontal através do mercado ou de outras formas de acção humana «voluntária»). O que é que tu propões? Continuo sem perceber.

  4. joão, admitamos até que a diferença entre a crítica anarcoliberal ao Estado e a crítica comunista-libertária ao Estado não seja muito grande. isso não significa de forma alguma que um anarcoliberal e um comunista libertário sejam parecidos. Esqueces – aliás esqueces desde logo na medida em que não vês que a crítica comunista libertária ao Estado tem que ver com isto – a relação antagónica que uns e outros têm com coisas como luta de classes, anti-capitalismo, etc. As relações de poder, desde um ponto de vista comunista libertário, não têm origem no Estado ou não têm origem só no Estado.
    Que existirão coincidências entre a crítica libertária de direita e a de esquerda, por certo que sim. Por isso aliás partilham o conceito. Nota porém que também existem coincidências entre o teu estatocentrismo e as várias aspirações históricas a um “Estado Novo”. Isso não faz de ti, no entanto, um “estado-novista”.

  5. “Quem arruma este tipo de debates com expressões como «objectivamente», «assuntos correntes da vida» ou, como o Hugo Mendes, passando atestados de menoridade política ao «povo», faz batota.”
    Desculpe, eu não passei atestados de menoridade política a ninguém. Falei de desajuste objectivo e incontornável de agendas e preocupações, tão radical que por vezes é cómico, senão trágico. Não vale a pena começar com as reivindicações do costume – enquanto “X pensa que o povo é parvo, etc. eu acho que, pelo contrário…”, porque isso é como levar para casa uma medalha de latão e não avança em nada o debate.
    Parte do problema prende-se com expressões deste tipo:
    “basta que haja um conjunto significativo de pessoas a desejar e defender o fim da divisão social do trabalho, da propriedade e do Estado, para que seja necessário encarar essa possibilidade.”
    O que é um “conjunto significativo de pessoas”? Os “3, 4, 5%” que indignou alguns? É que se este conjunto significativo não for maioritário a nível da população, então qual é a representatividade de um movimento deste tipo?
    Não precisamos de conhecer a história futura para entrever a razoável improbabilidade da população de um país do primeiro mundo (é destes que falo) vir a querer tal coisa. Basta saber o que preenche o mundo da vida das pessoas que vivem numa sociedade como a nossa: o que eu chamei banalmente “os assuntos correntes da vida”. Entre estes, o “fim da divisão social do trabalho, da propriedade e do Estado” parece-me razoavelmente a leste da maioria das pessoas que quer saber coisas tão ‘irrelevantes’ como vai ser a sua vida para o ano: como vão estar as coisas a nível de emprego, se o seu salario vai aumentar, como vai resolver o problema da escola dos filhos, ou os cuidados dos seus pais idosos, ou a saúde do cônjuge, ou pagar o empréstimo da casa, etc. etc..
    Se parte da esquerda passa a vida a preocupar-se “fim da divisão social do trabalho, da propriedade e do Estado” e esquece os “assuntos correntes da vida”, eu pergunto-me se a maioria das pessoas vai ouvir, ler ou – questão, convém lembrar, importante se vivemos em democracia – votar nesta esquerda. Não vai.

  6. Até percebo o que dizes (e concordo em parte)Hugo, mas acho que a coisa é bem pior do que isso: é que não se faz a mais pequena ideia do que possa significar o «fim da divisão social do trabalho». O fim da especialização? O fim do mercado? A ideia de que toda a gente pode saber tudo sobre tudo e portanto que já não temos de coordenar as várias formas de conhecimento que cada um possui? A ideia de desligar os rendimentos obtidos do tipo de trabalho que se realiza? A ideia que cada um pode fazer o que lhe apetece? A ideia que devem ser dadas condições para cada um poder florescer e ter uma vida digna? Como se garantem os recursos para assegurar isso numa sociedade como a nossa? Isto só para dar um exemplo. Poderia prosseguir. Acho que o pensamento libertário é assim mais uma forma de estar na vida, uma atitude e um estilo “irreverentes”, sem grandes ideias sobre as alternativas.
    É que eu sei o que me separa de “estado-novista”: os sistemas de regras, os direitos e garantias, os mecanismos formais de participação, as concepções de justiça social, as formas de provisão dos bens, a articulação e delimitação do público, do privado e do comum, etc. Partilharmos o estado, definido de forma vaga, não tem nenhuma importância. Agora sinceramente não sei o que separa um libertário de esquerda de um de direita porque nunca vi o primeiro fazer propostas sobre os arranjos institucionais que nos permitem viver juntos. Que concepção de ordem social? Que mecanismos de coordenação? Não sei. Por exemplo quando leio o Chomsky, que muito aprecio, o seu libertarianismo traduz-se numa defesa intransigente dos direitos e liberdades dos cidadãos à escala nacional e internacional (garantidos por regras de justiça), na defesa de mecanismos públicos de provisão de bens essenciais, etc. Será isso? Então nada de relevante nos divide. Agora eu sei que não é isso.
    Por outro lado, a agenda libertária de direita é conhecida e sabe-se o que é que se pode criticar. Aqui é só ideias vagas. Sejam mais concretos por favor. Assim, o debate não avança.
    E depois confesso a minha perturbação (desculpem o paternalismo, mas tenho de o dizer por honestidade e pelos laços de camaradagem e de amizade): ver gente brilhante e com tanta experiência política enfiar-se em becos ideológicos sem saída nenhuma. Embora eu saiba que podemos estar juntos no que importa hoje (mesmo que vocês se digam contra o estado e contra as «lutas reformistas» que ainda asseguram as mesas onde estudamos, esta última é do E. P. Thompson), sinto que isto também foi uma das grandes desgraças das peripécias políticas por que passámos.

  7. Agradeço ao João Rodrigues – alguém suficientemente à esquerda, se posso assim dizer, para não ser imediatamente catalogado de “pragmatista social-democrata” ou algo do género – por ter formulado umas série de questões absolutamente centrais que qualquer alternativa política séria deve considerar importantes, mesmo antes de começar o pesado problema da sua resolução.
    Talvez o facto de ter sido ele a colocá-las em cima da mesa contribua para mostrar o irrealismo – e, desculpem-me também o paternalismo, a irrelevância – de algumas destas discussões, formuladas nesta linguagem e com este tipo de preocupações. E para mostrar também o problema dos “becos ideológicos sem saída nenhuma”.

  8. Amigo e camarada saboteur,
    Não recebi nenhum e-mail teu para além da simpática referência a um post meu.
    Um abraço
    PS. Hugo, olha que eu sou considerado, em certos meios, um vulgar social democrata…

  9. João
    Acho que me colocas questões cujas respostas não estão todas escritas. Isso não quer dizer que não existam.Algumas pistas foram dadas, o resto está em grande medida por imaginar.
    Parece-me fútil elaborar programas detalhados. A situação histórica que vivemos exige uma atenção minuciosa e não tanto programas para uma sociedade melhor. A crítica da divisão do trabalho não é uma ideia generosa, mas uma sucessão de actos de sabotagem quotidianos de milhões de pessoas. Todas as tensões sociais são territórios a habitar.E aí, importa falar a sua linguagem, e não a do Estado.
    E não menosprezes a nossa atitude irreverente. Somos os mais bonitos. Pode não ser tudo mas já é uma parte importante.

  10. “uma provocação irresistível que pretendo desenvolver porque acho que tem elementos de verdade: sabem o que é um anarcocapitalista? um libertário de esquerda depois de ter estudado economia na Nova”
    A minha impressão é que um anarco-capitalista é um liberal de direita depois de ver o exército dos EUA perder alguma guerra.

  11. “Todas as tensões sociais são territórios a habitar.E aí, importa falar a sua linguagem, e não a do Estado. E não menosprezes a nossa atitude irreverente. Somos os mais bonitos. Pode não ser tudo mas já é uma parte importante”.
    Caro Rick Dangerous, com o devido respeito, e porque já percebi que aqui não há qualquer discussão política a ter, uma resposta deste tipo diz tudo sobre o acontece quanto a pior indulgência pós-moderna e preguiça do pensamento se junta a uma certa “pulsão política”. Ser “irreverente”, “bonito”, “habitar os territórios” das tensões sociais e outras ideias não significa nada. Absolutamente nada. É a eterna fuga para a frente das questões difíceis – a que o João muito bem colocou e são o ponto de partida para qualquer discussão política séria e adulta. Dizer que é “fútil elaborar programas detalhados” é uma resposta convenientemente preguiçosa. Vá dizer isso ao movimento operário com que diz preocupar-se. Ela vai adorar a vossa “beleza” e “irreverência”.
    Cumprimentos
    Hugo

  12. Também pode ser Miguel Madeira. Os anarco-capitalistas norte-americanos sempre foram contra as intervenções militares dos EUA. O Ron Paul deve estar a ganhar alguns votos aí. Mas que linguagem é que tu tens Ricki? Que principios? Que pistas? Vá lá um pouco de generosidade. Eu até sou pouco exigente. Só quero umas ideias e alguns argumentos que não se resumam à defesa do vandalismo sob a capa da “sabotagem” (já agora quais são os argumentos para este tipo de acção? O que é que se sabota? Imagino que tudo o que dê na real gana a meia dúzia de gajos vestidos de preto). Enfim, acho que a discussão cessa aqui porque de facto não há nada para discutir. Sabota à vontade. Outros cá andarão a ver se mantêm as mesas onde eu e tu podemos estudar e investigar (força que tens uma tese importante para fazer!) e a limpar as paredes que os teus amigos andam a sujar ou os vidros das montras que partem e outras cenas que tais destinadas a passar quando se começa a chegar aos trinta e a fazer pela vidinha. Isto não é política e por isso passa com a idade. O que eu não percebo, e repito, é o que leva alguém como tu (um quadro tão promissor!) a simpatizar com este tipo de acção e de “pensamento”.

  13. Acerca dos libertários de esquerda terem ou não “projectos de sociedade”, eu escrevi um comentário com uns links, que ainda deve estar preso no filtro anti-spam ou coisa assim.

  14. joao, acho que te passaste mas deixo isso de lado. quanto à questão da divisão social do trabalho, há muito mais para dizer do que o rick disse – mas ele nunca pretendeu dizer tudo ou sequer metade sobre isso -, acho que é um debate complicado, acho que é ineludível, de um ponto de vista de esquerda, que há um problema quando uns tipos passam a vida a estudar o que gostam e outros passam a vida a limpar as paredes onde estão escritas coisas que os primeiros não gostam.
    um abraço e não me respondas com argumentos tipo “o comunismo – doença infantil da social-democracia”.
    teu, zé
    ps – ò Hugo, às outras interpretações sobre o movimento operário, acabas de acrescentar mais uma: os operários e as operárias não se preocupam com a irreverência ou a beleza (e aqui é óbvio que o rick estava a brincar e que tu levaste a coisa a sério de uma forma bem politizada). Para ti os operários e as operárias têm mais com que se preocupar do que com beleza e irreverência, querem é pãozinho na mesa. Gostam é de homens feios e de mulheres feias; de jogadores de futebol como o luís filipe e o rui jorge (eu por acaso gosto do rui jorge mas deve ser de viver numa bolha) e de dirigentes partidários como o António Guterres e o Carlos Carvalhas (sem qualquer ofensa, diga-se: é o meu secretário-geral preferido na história do Partido).
    Ó Hugo, e também já reparaste que, entre outras coisas, muitas outras coisas, a beleza e a irreverência – sejam elas o que forem – são atributos que provavelmente levam muita gente – operários e operárias também – a votar no teu primeiro-ministro?

  15. Zé,
    O Rick não deu uma resposta séria? Vou esperar por ela então….
    “Para ti os operários e as operárias têm mais com que se preocupar do que com beleza e irreverência, querem é pãozinho na mesa. Gostam é de homens feios e de mulheres feias; de jogadores de futebol como o luís filipe e o rui jorge ”
    Não Zé, o problema é que eu sou um bocadinho mais materialista do que tu. Nao me parece que as pessoas que vão para a rua, por exemplo para uma greve geral, estão lá porque estão prioritariamente preocupados com a “beleza” e a “irreverência” do que quer que seja. Aparentemente, eu levo o descontentamento dessas pessoas mais a sério.
    “Ó Hugo, e também já reparaste que, entre outras coisas, muitas outras coisas, a beleza e a irreverência – sejam elas o que forem – são atributos que provavelmente levam muita gente – operários e operárias também – a votar no teu primeiro-ministro?”
    Mas isso está completamente fora da discussão. É que enquanto esse primeiro-ministro tem um programa para o pais (gostes ou não, concordes ou nao, critiques fundamentamente ou nao) eu perguntei ao Rick – ou a qualquer outro que queira responder – qual é o programa político que decorre da atitude (estetizante?) da política que ressalta da sua resposta. Continuo sem resposta, porque aparentemente a “beleza” e a “irreverencia” era a brincar. Por um lado, ainda bem! A minha inquietude e que isto da política seja, para muita gente, assim mesmo, uma diversão, uma brincadeira com as palavras enquanto se “habitam” os conflitos sociais. Como é obvio, ninguem se deu ao trabalho de esboçar uma resposta às perguntas que o João Rodrigues fez lá atrás. Quando chega ao momento das questões difíceis, toca a inventar um novo “número” para distrair e passar a bola ao outro.

  16. Na mensagem que escrevi (que foi repetida, peço desculpa, a segunda está ligeiramente diferente, so o gestor deste blog puder apagar a primeira, agradeço), onde se lê:
    «O João não deu uma resposta séria? Vou esperar por ela então….»
    Devia ler-se:
    «O Rick não deu uma resposta séria? Vou esperar por ela então….»

  17. hugo, eu não disse que o Rick não deu uma resposta séria. Disse sim que estava a brincar quando escreveu que era mais bonito que o João. Vá lá, desta vez sou eu a pedir menos preguiça e mais rigor.
    quanto a levar a política a sério ou a brincar, creio que isso só compreendo esse teu argumento porque está muito irritado. ninguém aqui está a levar o que quer que seja a brincar.
    o movimento operário quando vai para a rua em dia de greve geral não está preocupado com a beleza? não era essa a questão. a questão era tu, uma vez mais, mesmo a partir de uma brincadeira, dissociares questões que julgas sérias de questões que não julgas sérias e achares que o movimento operário só se interessa (mas isso é o mesmo que não tem sensibilidade para mais) pelas questões que tu julgas sérias, aquilo a que chamas “materialismo” (eu, lamento, mas chamo outra coisa ao materialismo, algo bem menos economicista do que aquilo para que a tua visão tem apontado).
    Quanto à irreverência, até tens razão. O movimento operário quando está na rua em dia de greve geral não está a pensar na irreverência. está a “fazer” irreverência.
    quanto às questões difíceis do João. É verdade que muitas o são. E que para elas não tenho resposta. E que isso não me impede de colocá-las. Era só o que faltava, sendo ademais que é precisamente isso – que perguntas – aquilo que nos está a dividir.
    Mas olha, por falar em perguntas sem resposta, repito o que disse no comentário em cima: quanto à questão da divisão social do trabalho, há muito mais para dizer do que o rick disse – mas ele nunca pretendeu dizer tudo ou sequer metade sobre isso -, acho que é um debate complicado, acho que é ineludível, de um ponto de vista de esquerda, que há um problema quando uns tipos passam a vida a estudar o que gostam e outros passam a vida a limpar as paredes onde estão escritas coisas que os primeiros não gostam.

  18. Zé,
    Ainda bem que a irritação, desde o célebre post dos assessores, nao está só desse lado.
    Quanto à “irreverência”, eu acho que te devias preocupar mais com a “inconsequência” de certas manifestações. Mas se este plano for dificil de enfrentar, sempre podes atribuir uma desmedida (e despropositada, digo eu) importancia à irreverência, sem dúvida. Para mim isso da irreverência (sem consequência) ainda é excessivamente pós-moderno, tenho que actualizar os meus paradigmas. A verdade é que nunca fui adepto do “expressivismo” (ou qualquer outra palavra que queiras usar para descrever a mesma coisa), mas pronto, é uma forma engraçada de ver/viver/fazer a política.
    No que toca a isto:
    “quanto às questões difíceis do João. É verdade que muitas o são. E que para elas não tenho resposta. E que isso não me impede de colocá-las.”
    O João colocou-as precisamente porque neste debate ninguém o faria (nunca as colocadas por ti, e não acho que seja por acaso); elas obrigam a pensar em decisões para alguns são “ideologicamente incorrectas” e a descer um bocadinho à terra, deixando a discussão “metapolítica” – a mesma que não faz grande coisa por pensar, quanto mais ajudar a resolver esse problema dos “tipos passam a vida a estudar o que gostam e outros passam a vida a limpar as paredes onde estão escritas coisas que os primeiros não gostam”.
    Esse, e outros, como, por exemplo, se para resolver esse problema não levantávamos outros (como é óbvio que levantávamos); e se quereríamos pagar esse preço (muitos não quereriam); etc. Enfim, o género de “trade-offs” de que eu vejo muitos fugirem em vez de olharem de frente.
    Eu, pelo menos, gosto de equacionar os problemas todos (pelo menos os que me lembro, e são normalemnte vários) de uma só vez, em vez de os ignorar, primeiro, para os ir descobrindo a cada esquina, depois (quando se procura avançar o suficiente na tentativa de sua resolução, claro).

  19. Olha eu so estudante e queria saber um pouco mais sobre movimento operario. se alguem poder me dar um texto ou um site sobre movimento operario ia ficar muito agradecido.

  20. Olha eu so estudante e queria saber um pouco mais sobre movimento operario. se alguem poder me dar um texto ou um site sobre movimento operario ia ficar muito agradecido.

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