Comunismo e xenofobia


A notícia relativa à suposta xenofobia do vereador da Rifondazione Comunista de Roma, Lucio Conte, foi manifestamente exagerada.
“O contexto desta declaração é a aprovação de uma moção que propunha autocarros escolares especiais para as crianças ciganas de origem romena num bairro de Roma. A proposta partiu do vereador da Refundação Comunista (RC), Lucio Conte, que foi forçado a demitir-se, no sábado, devido à polémica que suscitou.”
Esta reportagem (?) do DN é manifestamente um pobre produto jornalístico, sobretudo se formos a Il Manifesto à procura de mais informações e ai lermos a entrevista dada pelo próprio Lucio Conte a expor a situação.
Alguns pais daquela zona manifestaram-se, numa assembleia pública (um hábito inexistente em Portugal e que era comum nas zonas de forte influência do PCI, onde eleitos e eleitores debatem os problemas locais), a favor de um autocarro escolar separado para os miúdos de origem cigana de um acampamento, com o argumento de que estes seriam «demasiado irrequietos e incontroláveis pelos auxiliares escolares». Como o transporte é assegurado por uma cooperativa exterior ao município, foi prometido a esses pais, pela maioria em funções no bairro, um inquérito acerca das condições de segurança a bordo dos autocarros, a realizar no início de Janeiro. Como esse inquérito não tenha sido feito, o vereador da Rifondazione apresentou uma moção a defender a sua realização, que obteve os votos favoráveis da direita e, apesar de supostamente a moção ter sido combinada previamente e aceite por todas as forças políticas, foi chumbada pelo centro-esquerda. Daí à coisa chegar aos jornais italianos (habitualmente muito sérios) e dar a Veltroni (presidente da câmara de Roma, o mais asqueroso dos sociais-democratas e inspirador da recente lei que permite a expulsão de estrangeiros considerados «indesejáveis» em itália) a oportunidade de jogar a cartada demagógica, afirmando que «as crianças são todas iguais», foi um curto passo. Depois, basta esperar que os correspondentes estrangeiros (jornalistas do calibre desta Patrícia Viegas) propaguem a mentira conveniente do «racismo dos meios operários e do deslizar xenófobo dos comunistas». Só quem não viveu em Itália e não conhece a arrumação de forças e a cultura política dos partidos é que acredita no racismo de um vereador da Rifondazione Comunista.

Acerca desse tema e pegando na boleia de Saboteur, importa sublinhar que a tese da passagem dos votos comunistas para Le Pen, fértil em interpretações pouco convincentes, carece de demonstração.
Parece-me evidente que o desemprego, as debilidades do movimento sindical e a perda de influência do PCF têm efeitos de despolitização no seio da classe trabalhadora. E que em França há uma longa tradição cultural chauvinista e xenófoba. A combinação das duas coisas pode levar a alguns efeitos de deslocação para a direita. Mas uma transferência de votos de um extremo para o outro? Essa tese é demasiado conveniente para o bloco central francês para que possa ser aceite com ligeireza.

O que me parece bastante mais razoável é pensar que o racismo, quando atinge uma expressão política à escala nacional e se transforma em projecto capaz de agregar os sectores mais conservadores da sociedade francesa – essa larga percentagem de agricultores tornados proprietários pela revolução francesa, mantidos de pé pela PAC e que é a retaguarda reaccionária da França, mas também os antigos colonos da Argélia, parte do patronato, ex-militares, bófias – penetra e infiltra-se um pouco por todos os sectores sociais (nomeadamente os mais castigados pela crise e pelo aumento da desigualdade, os que têm menos condições para defender os seus direitos) e daí passa facilmente para as formações políticas. Subtilmente, a esquerda desliza para posições mais defensivas e que se confundem com a manutenção do status quo (abrilhantadas com alguns lugares comuns acerca da «necessidade de integração») e a direita torna-se cada vez mais abertamente racista, assumindo a capacidade de moldar o tom do debate. E temos então uma deslocação global da cena política para a direita, com o centro-esquerda e, por vezes (como aconteceu com Chirac), até o centro-direita, a apresentarem-se como a única alternativa à extrema-direita. Basta enquadrarmos este mecanismo com o sistema eleitoral francês (maioritário) – que leva quase sempre o PCF a subordinar a sua estratégia própria à necessidade de assegurar uma maioria de esquerda – e a decomposição social em curso desde os anos 80 – que desagregou parte dos espaços de sociabilização operária e popular nos lugares de trabalho e atomizou as condições de existência – para termos Le Pen a crescer nos subúrbios onde o PCF já teve uma considerável implantação, sem que necessariamente se tenha processado uma transferência de votos de um extremo ao outro da cena política.

Em Portugal por exemplo, parece-me inegável (até porque já assisti a vários episódios que o ilustram) a existência de sentimentos racistas entre a base social de apoio do PCP e até dos seus militantes, mais ou menos na mesma medida e proporção em que o racismo se encontra difuso entre a população portuguesa. Mas parece-me também inegável que a direcção do PCP e a cultura política do partido combatem esse racismo e promovem (de maneira insuficiente na minha opinião) um discurso e uma prática anti-racista que remete os sentimentos racistas para as margens, para o silêncio ou para formas tão subtis que se tornam quase imperceptíveis. Ou seja, existe racismo, mas ele não se exprime e não assume legitimidade à luz da tradição e do projecto político do partido, antes é combatido por ela ou assumido como um corpo estranho no seu seio.
Mas a progressiva fragilização do partido e despolitização dos seus quadros, dirigentes e militantes, é evidentemente um campo fértil para um involução neste aspecto. Na medida em que a inteligência e energia no seu interior sejam incapazes de travar esse combate, a tendência será para que formas de racismo cada vez mais óbvias cresçam e se fortaleçam nas suas zonas de influência e possam assumir uma legitimidade cada vez maior na cena política. Daí à sua exploração por um discurso claramente xenófobo e chauvinista será um pequeno passo.

Face a tudo isto, penso que a única resposta consequente é encarar os e as emigrantes como protagonistas da sua própria história, sujeitos políticos capazes de intervir neste combate. E quanto menos medo e mais segurança sentirem tanto mais facilmente se constituirão em movimento e se exprimirão contra o racismo e a xenofobia. Se os subúrbios onde antigamente se votava no PCF agora escolhem Le Pen, é preciso não esquecer que outros há (ou por vez são os mesmos) onde eclodem lutas e revoltas contra o racismo institucionalizado do Estado francês, da sua polícia, da sua escola e da sua política de habitação social. E se essas lutas e revoltas – espectros que percorrem a noite sem se deixarem fotografar, deixando atrás de si apenas a imagem transparente da sua própria força e impacto – são reduzidas pelos discursos dominantes a «actos de vandalismo» e «ocorrências sem significado político porque sem reivindicações ou programa», é preciso começar a ver em cada uma delas um alcance e um significado político que estamos aindalonge de poder precisar. As luzes dos incêndios e o ruído das sirenes policiais são, actualmente, a cartografia mais evidente do conflito social. É ali que se desenrola, já, o combate principal contra a xenofobia. Ali, Le Pen nada tem a ganhar a não ser uma corrente na cabeça ou uma pedra na cara. E tem o mundo todo a perder.

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6 thoughts on “Comunismo e xenofobia

  1. A frase “parece-me inegável (até porque já assisti a vários episódios que o ilustram) a existência de sentimentos racistas entre a base social de apoio do PCP e até dos seus militantes” é totalmente descabida. É a “análise sociológica” mais fácil do mundo.
    Fiquei curioso, quais terão sido os tais “episódios” racistas, e qual será a sua relevância para uma séria caracterização, tão acutilante?
    Mais, seguindo a mesma lógica, provavelmente, dentro do PCP o número de comunistas existentes é também proporcional ao número de comunistas existentes em Portugal…
    Pensar assim demonstra uma total incompreensão das motivações e dos valores inerentes á inscrição e ao apoio a um Partido como o PCP, por parte de qualquer pessoa.

  2. Voltando um bocadinho à história da proposta do Lucio Conte e respectivas consequências. Eu tentei ler a entrevista no Il Manifesto, mas confesso, não percebi quase nada. Se o moço apenas propos uma moção a defender a realização do dito inquérito acerca das condições de segurança a bordo dos autocarros, porque é que ele foi convidado a demitir-se (ou se demitiu) da Rifondazione Comunista? Ou até esta info está errada?

  3. Claro que existem sentimentos racistas no operariado.
    Basta ver em nalgumas cidades dos arredores de Paris, bases que foram do PCF, a defenderem que os imigrantes são escumalha que lhe vieram roubar trabalho.
    Casa onde não há pão…
    Que as direcções do PCF e já agora do PCP, possam tentar , por vezes, sem muita convicção diga-se, ( veja-se alguns problemas com a etnia cigana em zonas de camaras PCP, e a sua atitude,da Camara de ALMADA por exemplo), combater esses sentimentos racista,isso não obsta, a que por oportunismo , muitas vezes essa luta fica só por palavras.
    A primeira manifestação, com laivos racistas e xenofobos que eu vi em França, foi organizada pelo PCF , nos idos 70 do seculo passado.
    As Camaras mais á direita, impediam os imigrantes de se radicarem nessas zonas, e por isso as Camaras do PCF ,tinham que arrostar com uma população altamente carenciada, que procurava aí, um sitio onde morar com alguma dignidade.
    Para fazer face a esse afluxo, essas Camaras do PCF ,com poucos fundos, tentavam de algum modo resolver esse problema , e a população francesa de origem ,sentia-se prejudicada e protestava.
    E o que fez o PCF, em lugar de confrontar a direita e as suas Camaras, com essas atitudes, denunciando a xenofobia que isso representava, mobilizou as suas bases, mas aquilo que era para ser um movimento exigindo aos mais ricos compartiçipação na integração dos imigrantes, rapidamente se transformou na pratica, num movimento anti-imigrante, com palavras de ordem ,que o Le PEN ,que na altura representava pouco mais que 0,4% , não enjeitaria.
    Dai á passagem de um lado para o outro, foi um clique.

  4. Caro Filipe.
    Em tempos uma das carrinhas de seguranças da Festa do Avante! era apelidade «a brigada de limpeza étnica». Alguns amigos meus, afro-europeus (grande conceito)foram «confundidos» com outras pessoas, que alegadamente teriam efectuado assaltos, e ficaram a noite de domingo para 2ª entre uma sala de interrogatórios e um canil. Voltaram todos marcados.
    A comissão de freguesia de Porto Salvo do PCP redigiu em 2000 um comunicado contra a construção de um bairro de alojamento dos habitantes da pedreira dos húngaros na sua freguesia, com o argumento de que tal contribuiria para o aumento da insegurança na freguesia.
    As histórias com ciganos no alentejo encheriam esta caixa de comentários.

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