Uma vaga de fundo


– Disse à pouco que o MDLP se desmembrou a partir de Novembro. Mas, até lá, que participação vossa houve no 25 de Novembro?
– Aliámos o povo do Norte, já que a rapaziada do Alentejo andava na euforia da Reforma Agrária.
– Quem é o povo do Norte?
– É toda a gente, desde a Igreja a milhares de pessoas…
– O Cónego de Melo, de Braga?
– Sim, o Cónego Melo foi uma pedra-chave em toda esta movimentação.
– Quem incendiou as sedes do PC no Norte?
– Havia já algumas movimentações no terreno. Por exemplo, havia um pirata chamado Paradela de Abreu, mas que era um pirata útil. E a ligação do seu movimento – Maria da Fonte – connosco era feita pelo engenheiro Jorge Jardim, por quem eu tinha consideração e admiração. […]
Gerou-se assim uma vaga de fundo em que uns entravam pelo rés-do-chão e outros saíam a voar pelo primeiro andar. […]
– Que aconteceu ao MDLP depois disso [25 de Novembro]?
Fomos fechando a loja devagarinho… mas continuando a falar uns com os outros.
Simplesmente havia sectores mais radicais do MDLP a murmura que «afinal ficava tudo na mesma. Que alguns deles continuavam com mandatos de captura», etc.
O resultado foi que alguns destes elementos entraram numa espécie de autogestão difícil de travar… Apareceram aí umas bombas que ninguém mandou pôr…
– Já depois do 25 de Novembro?
– Sim. Antes disso podem dizer que fui eu quem as mandou pôr, a todas, que eu não desminto.

Alpoim Calvão em entrevista a Maria João Avillez, publicada em Do Fundo da Revolução, Edições Público, Lisboa, 1994

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