A segunda vez que votei

Quem tenha estado alguma vez envolvido em qualquer sub/contracultura sabe que acaba por chegar um momento em que as suas subjectivídades culturais ou desaparecem ou são absorvidas pelo mainstream. Normalmente o segundo processo é acompanhado por um clamor critico que acusa os que tenham triunfado segundo as regras hegemónicas de se terem vendido, de terem prostituido a sua criatividade à indústria cultural, de terem sacrificado a sua integridade ao capital. Por quanto sejam pertinentes as questões, na cena hardcore de onde vêm os vicious 5 essa discussão sempre assumiu contornos ridículos e puristas, tendo sido preocupações mais rituais do que criticas, e pouco relevantes para quem tenha um minimo de bom senso.

Pessoalmente a música dos vicious 5 diz-me pouco sem que me desgoste ou incomode, parece-me, como inúmeros outros grupos, uma versão portuguesa de X, Y e Z e acho que os vicious 5 sempre encarnaram voluntariamente o seu papel de serem os primeiros a estrear em Lisboa as modas de fora, algo que é comum confundir com criatividade. Qualquer um dos projectos paralelos dos membros da banda me parece infinitamente mais interessante do que esta: CAVEIRA é das duas únicas bandas portuguesas das quais gostei realmente, a par com Pee Wee Montana, O Xinobi detrás dos pratos é brutal e mesmo The Youths ma parece fixe, mas isso porque sempre tive um certo prurido com o imaginário dos vicious 5.
Aqui há meia dúzia de anos as cerca de 150 pessoas que formavam a cena hardcore perceberam que no estrangeiro os seus congéneres já não adoptavam os mesmos códigos estéticos que eles e de um mês para o outro estas 150 pessoas mudaram radicalmente de estilo. Entre as substituições feitas foi a troca dos livros que liam: se antes os livros que recomendavam entre eles eram clássicos como os livros do Osho e o asqueroso “A profecia celestina” agora, graças à celeridade da amazon.com, todos fingiam ler “A Sociedade do Espectáculo” e o muito mais digerível “Tratado do saber viver blah blah blah” do Vaneigem. De repente toda a gente era subversiva e insurrecional, pro-situ e pantera negra honorária, claro que aparte de formar colectivos pro-situs de qualidade muito discutível e duração ainda mais curta, daqui não saiu nada de minimamente relevante. Excepto os Vicious 5.
Os Vicious 5 são gajos porreiros, alguns são amigos, outros meros conhecidos sem que isso implique qualquer hostilidade, um deles fundou comigo a primeira célula insurrecional em que estive envolvido, o já distante “caminho de ferro”. Mas quando saem entrevistas em que afirmam que os vicious 5 nasceram nas “festas subversivas das okupas de lisboa” toda a gente que alguma vez tenha estado numa festa subversiva numa okupa em lisboa ri-se porque nunca viu ninguém dos vicious 5 lá, quando dizem que o som deles é o som das ruas selvagens de lisboa ou coisas do género fica-se a pensar que ruas selvagens serão essas…evoca um tipo de vaidade voluntariamente quixotesca em que se confunde o lux com o Forte Prenestino e o burburinho do bairro alto com as barricadas do quartier latin.
No entanto eu espero sinceramente que ganhem o prémio da MTV e que isso lhes permita sobreviver sem ter que trabalhar em call-centers. É também irónico, e dai talvez não, que a primeira vez que apele ao voto na minha vida seja para as eleições da MTV.
Vota nos V5 (seguir o link, carregar no “vota”, a seguir no “best portuguese act”, os vicious 5 são os rapazes com os óculos escuros guays, podem votar as vezes que quiserem)

23 thoughts on “A segunda vez que votei

  1. ah ganda pp, se escrevesses no Y ou no Blitz até era capaz de comprar esses pasquins. Quem lhes dera escrever assim, foda-se.
    Aproveito a tua sugestão mas vou votar no Sam the kid: é que canta em portuguÊs e isso dá-lhe logo 20 km de avanço sobre os outros todos.

  2. epá esse argumento do canta em português é bastante fraco, ainda por cima não é que cante muito bem.
    quanto aos senhores do Y já sabem, se quiserem aumentar a circulação é falar comigo.

  3. Ainda procurei o Leonel Nunes e como não encontrei decidi não votar em nenhum. Dos vicious 5 o que me lembro melhor, para lá da presunção constante, é de no superbock super rock o Quim ter perguntado ao público: “Então agora o que querem ouvir?” A resposta foi um ululante : “Tool!Tool!”.

  4. é verdade que não canta bem, mas fala portuguÊs. nesse sentido é diferente e melhor que os outros pelo teu próprio critério (não copia o que vem de fora, usa os seus próprios recursos e não muda para vender mais discos, como fazem os outros). É que é muito difícil fazer coisas em português com qualidade enquanto mandar uns fuck the system ou i love you baby qualquer gajo faz.

  5. não analises tudo ao minímo detalhe, porque quando eu falho, todos pro caralho que isto não é um ensaio

  6. Dá para votar várias vezes do mesmo computador!! :P
    É ver quem é que clica mais, se a Almada Crú, ou a Buraka Crú

  7. Há uma enorme diferença entre copiar e trabalhar dentro de um género. Não disse que os v5 copiavam, mas que era a representação portuguesa deste ressurgimento de rock em linha directa dos stooges e do punk.
    Bom e se há algo mais copiado em portugal sem ponta de originalidade é precisamente o hip hop

  8. tens razão. mas continuo a perguntar-me por que é que um género musical tem que estar vinculado a uma determinada língua…por que é que os vicious five não escrevem/cantam em português, espanhol, portunhol, francês ou suaíli? no momento de tomar essa decisão está-se a pensar em quê?

  9. Nuca votei!! Para mim os politicos são todos iguais. Apenas muda a “cor”. Os politicos, são apenas os “paus mandados” das grandes empresas económico-financeiras portuguesas. F dam s tds.

  10. Não percebo muito bem a tua indignação camuflada. Como se houvesse alguma inocência perdida em tudo isto. No domínio estético onde se movem, escolheram o fato que melhor lhes ficava. Há quem acredite em tudo o que lhe dizem e ache absolutamente brutal e original, so what? Se dá para beber copos e entrar à pála nas festas fixes, isso só pode ser um dos melhores usos de sempre da Sociedade do espetáculo

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s