Incompetência e desqualificação intelectual

“Vasco Pulido Valente publicou no dia 16 um artigo intitulado Marx e a crise, no qual procura dizer toda a verdade sobre o Congresso Internacional Karl Marx e revelar ao país as verdadeiras intenções dos organizadores. O artigo possui o estilo a que o autor habituou os seus leitores e, na verdade, a única coisa que sobra do artigo é justamente esse estilo, que consiste num recurso repetitivo à ironia e ao cinismo. Com o passar dos anos, o recurso incessante ao rancor e ao sarcasmo tem levado o autor a descurar o método das suas análises: em V.P.V., trata-se hoje do método do “evidentemente”, pelo qual anuncia o que entende ser um conjunto de evidências. Assim, discorre acerca do que designa como “previsões de Marx”, afirma que o proletariado desapareceu ou ainda que Marx escreveu fundamentalmente acerca da sociedade inglesa de meados do século XIX. Sem surpresa, em relação a estas e outras questões, a animar o antimarxismo de V.P.V. acabamos por encontrar uma concepção ortodoxa do próprio marxismo. Em relação às famigeradas “previsões de Marx”, o Marx de V.P.V. em pouco se distinguirá das teses mais simplistas do socialismo científico. Não surpreende, por isso, que V.P.V. se limite a tomar um pensador como Marx (mas poderíamos dizer o mesmo de Adam Smith, Carl Schmidt ou outros) com a mesma leviandade com que julgará as previsões do meteorologista de serviço cujas previsões falham ou acertam. Quanto à extinção do proletariado, a sua afirmação só é possível na medida em que o Marx de V.P.V. partilha duas características definidoras de um marxismo ao qual se contrapuseram inúmeros marxismos: por um lado, a ideia de que só a classe operária industrial é proletariado; e, por outro lado, o provincianismo nacionalista que desde logo ignora os processos de proletarização industrial em curso em países como a China ou a Índia.
Diz ainda o autor do artigo que os organizadores do congresso se pretendem aproveitar da presente crise económica para mostrar que o marxismo não está morto. E aqui entramos no domínio dos efeitos alucinantes da preguiça: com efeito, um pequeno esforço reflexivo ter-lhe-ia permitido concluir que um congresso com cerca de 150 comunicações, e investigadores de vários países, terá necessariamente implicado um processo de trabalho demorado. Talvez porque o Marx dos organizadores do congresso não seja o mesmo Marx de V.P.V., lamentamos não possuir os dons de adivinhação que nos teriam permitido prever, logo em 2007, a crise que agora surge. Entretanto, a nossa incapacidade de adivinhação permite ainda um último reparo. Afirma V.P.V. que o colóquio finge discutir Marx, quando, na verdade, discute a extensão do poder do Estado. Ora, aqui chegados, torna-se ainda mais claro que V.P.V. não sabe do que está a falar. Com efeito, um mínimo de conhecimento acerca de alguns dos conferencistas (e bastava “googlar” o nome dos dois conferencistas da primeira sessão plenária: Alberto Toscano e Paolo Virno) permitiria perceber que vários dos autores presentes não só não desejam a extensão do poder de Estado como pretendem inclusivamente pensar a política para além do Estado; que outros comunicadores, é verdade, defendem posições mais ou menos estatocêntricas; e que outros nem sequer abordam a questão do Estado, tendo sido justamente esta diversidade de propostas e este conflito entre diferentes correntes marxistas (e não marxistas) que entusiasmaram os organizadores do congresso.
Provavelmente, nada disto impedirá que V.P.V. se reivindique, uma vez mais, como a “verdadeira consciência” do congresso. Do alto do seu antimarxismo, V.P.V. expõe-se hoje como um dos melhores intérpretes de um marxismo de pacotilha: ausente do congresso, e, “apesar” do que se discutiu no próprio congresso, V.P.V. resolveu elaborar a “síntese final” que ninguém propôs elaborar. Deste seu exercício resultou uma pequena farsa. Esta pequena farsa pode ser explicada através do seu estilo peculiar de escrita ou em razão do seu posicionamento político-ideológico: contudo, do que a nosso ver se trata é do seu desconhecimento acerca dos debates políticos e ideológicos que hoje atravessam o difuso campo marxista, de autores como Daniel Bensaid e Negri a autores como Badiou ou Meszaros. Que V.P.V. não tenha pejo em demonstrá-lo publicamente tal não é reflexo do seu estilo intempestivo e inofensivo que nos vai entretendo: é simplesmente sinal da sua actual incompetência e desqualificação intelectual. Por isso este nosso texto não é tanto um protesto como um lamento: lamento pelo facto de serem raras as vezes a que, em Portugal, no espaço mediático, os marxismos têm direito a uma oposição baseada numa crítica trabalhada e inteligente. “

Bruno Peixe e José Neves
Membros da comissão organizadora do Congresso Internacional Karl Marx
(22 de Novembro de 2008 do PÚBLICO)

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7 thoughts on “Incompetência e desqualificação intelectual

  1. Os Pulidos Valente devem de andar com medo, se calhar.
    Alguém tem o artigo do Pulido Valente? Não consegui arranjar no Público e queria ler.
    -artur palha

  2. Vá lá companheiros…
    Não há novidade nenhuma no artigo do VPV: até parece que nunca leram nenhum!
    Parece-me excessivo (para não dizer mais…)dizer que o homem sofre de “desqualificação intelectual”, o que só faz lembrar outras aplicações do marxismo.
    Na verdade, ele limita-se a usar a última página do Público como se fosse um blog ligeirinho…
    Têm lido o Expresso???

  3. Vá lá companheiros…
    Não há novidade nenhuma no artigo do VPV: até parece que nunca leram nenhum!
    Parece-me excessivo (para não dizer mais…)dizer que o homem sofre de “desqualificação intelectual”, o que só faz lembrar outras aplicações do marxismo.
    Na verdade, ele limita-se a usar a última página do Público como se fosse um blog ligeirinho…
    Têm lido o Expresso???

  4. Muito bem escrito, este texto, gostei mt.
    Em especial o primeiro parágrafo, onde surgem as críticas mais lógicas ao superficial discurso do VPV sobre ‘o que é o marxismo’.
    O resto dos dois parágrafos já é só a bater no velhinho gagá, mas eu acho muito bem ;)

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