Grécia, «anarquistas» e outras coisas


Para quem não percebeu, há dois dias de solidariedade internacional com as lutas sociais na Grécia. Um é no sábado, dia 20 de Dezembro e foi convocado pela assembleia de ocupação da Faculdade de Economia/Politécnico de Atenas. O outro é hoje e foi convocado pelo Synaspismos (bloco de esquerda grego) e pelo Partido da Esquerda Europeia. Deixo à vasta comunidade de leitores do Spectrum o juízo sobre esta iniciativa, de desdobrar em dois dias a solidariedade internacional, e o interesse do Partido da Esquerda Europeia em que tal aconteça.
Para que se entenda melhor do que se trata, interessa talvez ter em conta a declaração do secretário-geral da nova esquerda grega, disponível no Esquerda.net: “Saudamos os estudantes, rapazes e raparigas, todos os jovens que não escondem a cara. […] O nosso alvo é o sistema, e as suas injustiças para com a juventude. O nosso alvo não são as montras, os carros, as residências, os edifícios públicos. Estamos inequivocamente contra a violência cega. […] Na nossa opinião, a saída para o Estado é pedir desculpa, na prática. E isso significa que o governo deve promover, imediatamente, uma série de medidas; empregos para os jovens; educação de qualidade, com fundos suficientes e livre acesso às universidades; espaços públicos para os jovens se reunirem, se divertirem, namorarem; reforma democrática da força policial. […] Chamamos a juventude a envolver-se numa luta para expulsar este governo de uma forma militante, radical e pacífica, e avançar para uma grande mudança que dê fundos, emprego e educação de qualidade às próximas gerações.”
Não sei se é claro – de um lado estão os de cara tapada e a sua lamentável violência cega, do outro está a «juventude» ou seja, o rebanho de figurantes radicais e pacíficos com os quais provocar a queda do governo de direita e concretizar uma política de esquerda, com espaços públicos para os jovens se divertirem e namorarem enquanto o Estado pede desculpa. Falta aqui perceber porque razão se exige numa frase que o governo tome uma série de medidas e noutra frase se apela a uma luta para expulsar esse mesmo governo cujas medidas se desejam. Ainda que a Lógica tenha sido inventada naquela parte do mundo, a esquerda «radical» grega parece ter ficado fora da lista de distribuição.

Mais perto e mais significativo é o texto de Rui Tavares no Público. Não vou comentar as recomendações dadas aos líderes mundiais sobre a necessidade um novo contrato social. Cada um tem o seu programa e o Rui tem o mérito inestimável de deixar o seu bem claro. Espero até que os líderes mundiais lhe dêm ouvidos, embora não conte muito com isso. O que realmente me apetece comentar é o último parágrafo: “Em Espanha, 1936, até os anarquistas aceitaram entrar no governo, e logo com a primeira mulher ministra no país — Federica Montseny. É algo que talvez os “anarquistas” gregos de hoje desconheçam. Mas sei que assustou muito mais os fascistas do que qualquer montra partida.”
Note-se que o Rui coloca sobre aspas os «anarquistas» gregos que enfrentam a polícia mas não segue a mesma opção no que toca à direcção da CNT durante a Guerra civil espanhola. Já em Abril de 2007 fiquei surpreendido quando o Daniel Oliveira se referiu à “já habitual excitação de pessoas que, na minha opinião, confundem a tradição anarquista e libertária com uma moda tribal adolescente e que se comportam como qualquer hooligan de uma claque de futebol.”
Não pretende definir aqui a ontologia da acracia, mas estranho este contraponto entre um anarquismo sem aspas, empenhado não sei bem em quê, que participa em governos mas renuncia a qualquer forma de violência no confronto com o Estado, e um outro «anarquismo» que seria apenas a cobertura ideológica a que algumas pessoas (não se sabe bem porquê) teriam necessidade de recorrer para destruir coisas e enfrentar a polícia. Do ponto de vista historiográfico não encontro grande justificação para estas aspas. Um historiador como o Rui deveria saber (pelo menos se deseja falar sobre o assunto) que a entrada de dirigentes anarco-sindicalistas para o Governo republicano foi tudo menos pacífica e consensual no interior da CNT-FAI.

Para levar a coisa um pouco mais longe, seria ainda necessário ter em conta o facto histórico fundamental que aqui se pretende iludir – o levantamento franquista de 19 de Julho de 1936, em Barcelona, foi esmagado em dois dias pelos mesmos anarco-sindicalistas que nos anos anteriores se haviam caracterizado por actos insurrecionais e bombistas, trocas de tiros com as forças da ordem, prisões e deportações frequentes, exproprios, sabotagens e perturbações da ordem pública. Eram descritos pela imprensa espanhola exactamente nos mesmos termos em que a imprensa se refere actualmente aos «vândalos», «extremistas» e «violentos». A imagem heróica que se pretende agora recuperar de um anarco-sindicalismo espanhol generoso e pacífico, seriamente empenhado na defesa da República, resiste mal à leitura da bibliografia de referência sobre a guerra civil espanhola, a começar pela de Pierre Broué, um dos mais eminentes especialistas no tema. Não apenas os conflitos foram frequentes entre o governo republicano e a organização confederal, como esta última foi várias vezes ultrapassada pela acção directa espontânea da sua base, empenhada em não separar a revolução social da guerra em curso. O trágico epílogo de tudo isto torna o exercício da última frase do Rui particularmente infeliz. É que em Maio de 1937 algumas brigadas do exército dominadas pelo PCE tentaram ocupar a central telefónica auto-gerida de Barcelona e foram rapidamente dissuadidas por um levantamento popular. A resposta do governo republicano foi transportar tropas da frente (o que certamente agradou a Franco) para fazer face aos insurrectos, a resposta da direcção da CNT-FAI foi apelar à calma e a resposta do Komintern foi fazer desaparecer alguns elementos incómodos nas suas prisoes. Os meses que se seguiram foram assinalados pela repressão levada a cabo contra os anarquistas por parte do Governo Republicano, o que certamente assustou menos os fascistas do que a destruição de montras.

Na senda pela unidade da Esquerda de que ultimamente se fez paladino, o Rui Tavares ensaia algumas simplificações históricas tacticamente úteis, mas politicamente funestas. É que os «anarquistas» gregos conhecem, porventura bem demais, a experiência da guerra civil espanhola (tal como a sua própria guerra civil) para escutar tão piedosos conselhos. E talvez o próprio Rui fizesse bem em conhecer melhor as razões históricas pelas quais a «esquerda» portuguesa esteve dividida nos últimos 30 anos. No ensaio de guerra civil que aqui teve lugar em 1975, a linha de demarcação passava bem no meio do que agora se pretende ver unido. Seria de perguntar, ao Major Tomé e a Manuel Alegre, juntos agora na Aula Magna, onde estavam no 25 de Novembro de 1975. E talvez a resposta fosse mais elucidativa para ilustrar o debate em curso à esquerda do que uma referência superficial a Federica Montseny.

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20 thoughts on “Grécia, «anarquistas» e outras coisas

  1. A opinião do Rui Tavares diz muito sobre ele, sobre a sua concepção de anarquismo e, diria até, sobre os seus propósitos – ele que já vi afirmar ser anarquista. A do Daniel Oliveira faz-me lembrar aquele pessoal do PS que precisa de estar constantemente a dizer que é de esquerda, e precisa de citar Marx de vez em quando, para se sentir como tal e tentar comprová-lo. De qualquer forma, em ambos os casos, nessas referências, há um facto que sobressai: o crescimento do anarquismo nos últimos anos ou, pelo menos, de algumas das suas ideias. Isso pelo menos tem qualquer coisa de positivo.
    Sobre os ministros anarquistas, o erro maior ainda é o Rui Tavares fazer a comparação olvidando o que é que os levou a tais cargos, como se só por si essa situação exemplificasse alguma coisa (que não a incoerência dos próprios, claro, e que assim descontextualizada na referência do RT fica elevada ao quadrado)

  2. “para quem não percebeu” acaba por ser uma bela ironia sobre a incapacidade de parte da esquerda em perceber e se posicionar sobre o que está a passar. ou – dando a volta – sobre a impossibilidade de continuar a falar com dignidade de socialismo, vida e capitalismo, sem pôr em causa a adesão persistente ao capital dos seus próprios dispositivos institucionais e de pensamento.
    é sem dúvida crucial explicar os equívocos políticos e históricos, mais ou menos reaccionários, do posicionamento da esquerda europeia, do ainda estalinismo russo, ou dessas borboletas afinal não tão bem-pensantes, mas levante-se o véu mais ainda sobre a produção de equívocos, numa crítica talvez quotidiana no sentido de lefebvre. dos rui tavares dos jornais às ana dragos do parlamento, não há nada a esperar, talvez a temer: decidiram reprojectar a sua vida para a unidimensionalidade do público e dos mass media, e foram bem pagos para tal. apesar de todo o pensamento crítico aparente, de uma certa individualidade, eles são o estado e a nação consubstanciada nas formas responsabilidade e futuro (ou mais emprego, se quiserem). reparem como num instante o sarkozy deu-nos ontem uma grande luz sobre isto ao defender-se das diatribes do cohn-bendit no parlamento europeu: “vous êtes une personne courtoise, tolérante, sympathique lorsqu’on vous invite à dîner, lorsqu’on vous invite à déjeuner, mais dès qu’il y a une caméra de télévision sous votre nez, on a l’impression que vous devenez comme fou”. como disse o francisco louçã a meia boca no congresso internacional karl Marx – não podemos contar com esta gente. é isso, reapareceu a luta de classes e a linha de demarcação de que fala o ricky.
    e depois há toda a esquerda militante que esteve ou está no pc, no bloco de esquerda e os seus precários, e a remessa enorme de gente que nunca militou em partidos mas que também se organiza, age e sonha fora do monopólio partidário. e esta gente interessa muito para a história e para esta história da produção do equívoco, por aqui, pelo menos o equívoco não é bem pago. não sei se me consigo expressar suficientemente bem, mas parece-me que uma grande maioria desta gente criada na derrota permanente, no grande refluxo dos últimos 30 anos, fica com muito medo da revolução social, este palavrão dos livros. começa a fazer contas à vida, a tudo o que conquistou a pulso, à carreira que ainda agora começou a despontar, ao primeiro subsidio de natal da vida, e conclui que afinal já tem algo a perder. e sei lá, apesar de tudo tá-se bem, tenho as minhas amigas, farramos como ninguém, que quero mais? eis o equívoco. é muito meu também e muito periférico, diga-se português. é o medo instalado do dia a seguir à insurreição generalizada, é a grande vitória da civilização actual, minar e reduzir a autonomia dos indivíduos a um ponto sem retorno, ao ponto papá-mamã, partido-estado. e o spectrum espelha esta divisão de que se fala. onde está o entusiasmo com o papá-obama?

  3. O que eu não percebo é a razão de darem resposta aqui a esse puto Tavares. Vão ter com o Tavares original, respondam-lhe a ele se conseguirem.
    Na linha da maria vai com as outras, isto agora no SPETRUM é só Anarquistas… Si senhor!

  4. Pois, sobre definições teóricas do anarquismo não sei.
    Sobre o esta sociedade minar e reduzir a autonomia dos individuos a um ponto sem retorno como diz a maria, também não sei (pelos menos em termos históricos relativos isto parece-me alguma projecção do hoje no ontem, se quisermos dizer que hoje os indivíduos são mais ou menos autónomos).
    Sobre o entusiasmo com a “insurreição” grega, também não sei (olha as aspas aqui!).
    Gostava é de dizer sobre a FAI-CNT em Espanha que as coisas que se dizem de um lado e outro parecem-me ainda ecoar os tempos da guerra. É um debate já visto mas, ao que julgo, ultrapassado nos dois pontos referidos:
    a contraposição do Rui Tavares e do Daniel Oliveira entre os anarquistas a sério e os novos “anarquistas” faz parte da deslegitimação retórica da coisa. É evidentemente uma imbecilidade para quem tenha dois dedos de testa. É o mesmo que falar de comunistas a sério em 1936 e “comunistas” em 2008. É a-histórico.
    Mas a parte seguinte do comentário do Dangerous também me parece pouco procedente. A vitimização da CNT-FAI e dos anarquistas catalães de 37 tem servido para arrumar os governos da república e os comunistas espanhóis na prateleira do Komintern e da anti-revolução. Ora, tenho ideia que isto é um bocado maniqueísta. Tal como é maniqueista a visão do outro lado (q hoje já ninguém verdadeiramente sustenta) acusando os anarquistas de terem ajudado a matar a república com a sua pseudo-revolução. Enfim, parecem-me coisas muito marcadas pelo espírito da época e prolongadas pelo espírito da luta comunistas trotskistas-comunistas sovietizantes (luta em que o Pierre Broué referido foi parte activa). E já me parece assim há uns anos.
    Por acaso estou a ler a breve história da guerra civil de espanha publicada pela Tinta da China e o livro parece-me ter uma leitura bastante mais complexa destas questões. E que até as supera, porque são questões algo ociosas nos dias que correm. mas ainda não acabei. De qq forma fica a sugestão de leitura.

  5. bem, tanta confusão por nada. por que uso aspas na frase sobre “anarquistas” gregos?
    1. entre alguns dos manifestantes gregos haverá anarquistas e não anarquistas. os media chamam “anarquistas” a todos os que partem montras, e eu cito a designação que lhes dão. não fui lá perguntar a cada um se é anarquista ou não. não é uma questão de ontologia, é uma questão de método. dizem-me que eles são anarquistas, e não sabendo eu se são (todos ou apenas alguns, etc.), cito o que me dizem.
    2. claro que a entrada de anarquistas no governo republicano espanhol foi controversa, como são sempre as entradas em governos e como são sempre as coisas que metem anarquistas. parto do princípio de que essa controvérsia é insanável, mas a controvérsia não faz de federica montseny menos anarquista por ter estado num governo, tal como não faz de proudhon menos anarquista por ter sido deputado.
    3. anarquista é diferente de anárquico. pressupõe a palavra “anarquista” (aqui estão as aspas, também por uma questão de método) que haja pelo indivíduo em causa um certo desenvolvimento do conjunto de questões, doutrinas e teorias libertárias. desenvolvimento que não tem de ser pelo escrito ou pelo discurso, mas convem que seja um pouco menos do que episódico. desse ponto de vista, hão-de desculpar-me, há excelentes razões para considerar que federica montseny, que desenvolveu o seu anarquismo até aos 89 anos, sabia o que fazia. o anarquismo episódico, de quem usa símbolos anarquistas ou parte uma montra aos dezassete anos e aos dezoito já se esqueceu disso tudo, interessa-me muito menos. prefiro perder tempo com um anarquista “controverso” (aspas) como montseny, ou com qualquer não-anarquista interessante, do que com anarquistas episódicos.
    4. eu achar que um não-anarquista inteligente é mais interessante do que um anarquista estúpido (para dar um exemplo) também não faz de mim menos anarquista. pelo contrário. desde que me considero anarquista, e já lá vão 23 anos, esta regra tem-me ajudado. já vi chegar e partir milhares de anarquistas episódicos (os entusiastas da violência são os mais episódicos de todos) e se fosse a tomá-los como padrão perderia muito do mais interessante que o pensamento libertário tem para dar.
    5. outra das coisas que me tem ajudado a continuar anarquista é uma indiferença aos inquisidores das opiniões alheias. posso estar errado sobre as questões de política nacional e internacional sobre as quais escrevo. mas sei que estou de boa fé, que não páro de pensar sobre o que escrevo (e o anarquismo é uma influência maior sobre o que escrevo) e admito o mesmo sobre as pessoas que têm opinião contrária. é uma das razões porque discuto aqui e em todo o lugar de cara descoberta e com o meu nome bem visível. embora vocês não façam o mesmo, sei que alguns dos autores do spectrum me conhecem e poderão confirmar que é assim. o tom agressivo e de desprezo deste post e de alguns dos comentários é perfeitamente dispensável e deveria embaraçar os autores.

  6. por mim, face ao que diz o rui tavares, revejo o que escrevi (embora não me considere anarquista). Como é evidente ninguém perguntou aos tipos todos se são ou não anarquistas. Se eles se apresentam como anarquistas, eu aceito que o sejam, não preciso de ir fazer questionários individuais para tirar as minhas conclusões. Pela mesma questão de método que cita também não poderíamos chamar socialistas a quem se afirma socialista, comunista a quem se afirma comunista, etc, antes de uma análise aturada de discursos, programas, organizações de toda essa gente. Eu acho que o PS não é um partido socialista, mas não designo os que dele se reclamam por “socialistas”, a não ser quando quero deslegitimar a forma como se apresentam, o nome que se dão (e não me choca nada fazê-lo, é um recurso retórico)
    ou
    quando não me quero comprometer com o que estou a dizer e atribuo isso a outrem (daí as aspas). Se o Rui Tavares diz que foi isto que quis fazer, eu aceito. Mas há-de reconhecer que não é essa a intenção na maior parte das aspas que se usam em contexto de opinião publicada sem referência a fontes (no seu caso, ao que diz, a imprensa), ainda para mais quando se trata de um qualificativo isolado…

  7. Com a explicação do Rui Tavares tenho que rever o que disse. Realmente se usou as aspas pela razão que afirmou subscrevo totalmente, embora tal como disse o renegade as aspas sejam usadas recorrentemente e não por essa razão.
    A questão é que também há por lá anarquistas a partir montras e, mesmo que enquanto anarquistas não concordemos, não quer dizer que sejam menos anarquistas por isso – tal como eu sou um admirador da Montseny, apesar de não me rever na decisão dela de integrar um governo, e, claro, não a considere menos anarquista por isso (também, quem sou eu para o fazer?).
    Sobre os anarquistas episódicos, acho que é compreensível que se ponham as coisas nesses termos mas também pode ser redutor. Pela mesma razão que a Montseny não é menos anarquista por ter integrado o governo – embora também não seja essa sua atitude que faça dela anarquista, certamente. De resto, como já disse, subscrevo o que o Rui disse e não queria ser arrogante, de forma alguma, com o que escrevi anteriormente. Manifestei apenas uma opinião, que mantenho, embora seja muito subjectiva e pouco sólida, que formei ao ler ao que escreve, que por vezes aprecio, embora se desvie várias vezes de discussões e propósitos que possam identificar um anarquista (e não sou nenhum doutrinário, claro) – e digo-o porque aparenta ter uma noção tão sólida e clara do que isso é. Não percebo porque é que os anarquistas da praça pública preferem perder-se nas discussões do costume a deixar vincada a sua visão às vezes mais original e em deixar um contributo que poderia ser bem mais proveitoso, precisamente pela diferença da sua posição. Bom, se calhar percebo…

  8. rui tavares, registo como essencial da tua resposta dizeres: “sei que estou de boa fé, que não páro de pensar sobre o que escrevo (e o anarquismo é uma influência maior sobre o que escrevo) e admito o mesmo sobre as pessoas que têm opinião contrária.” e neste sentido respondo, mas sem qualquer vontade de me tornar visível, pelo contrário. quando falo dos rui tavares dos jornais às ana dragos do parlamento, não estou a elaborar uma ofensa, antes uma crítica, à qual não respondeste. para mim, que não te conheço para além da contracapa do público, não és uma pessoa a quem me dirija de igual, mas alguém que pertence ao poder e que aparece agora do outro lado do espelho numa caixa de comentários. és dos que foram autorizados a falar. é talvez abusivo comparar a pertença a um corpo policial ou a um governo com a tua participação no público, mas não deixa de ser da mesma ordem: um poder separado na manutenção da barbárie. podes talvez invocar o chomsky em tua defesa, mas pouco mais. seguindo:
    1. o importante do que se está passar na Grécia, não passa pelas aspas dos anarquistas. na verdade o anarquismo grego interessa apenas na medida do movimento que iniciou e que o ultrapassa em grande medida. do mesmo modo, interessa pouco a ontologia do teu anarquismo de 23 anos, mas interessa mais o que episodicamente fazes com ele, o que gera esse corpo maior, que posições te faz tomar em momentos chave de solidariedade internacional.
    2. este movimento, profundamente internacional, mas que não tem qualquer estrutura dita internacional, que não precisa de manifestos unânimes, que não reúne, que não definiu nenhuma estratégia, que não tem um corpo teórico coerente, constitui-se sobretudo em torno de um entendimento de classe. como no banlieue, comunica através de uma nova sensibilidade e ansiedade.
    3. acima de tudo, sabemos pouco sobre o que se está a passar na Grécia. há manifestos insurreccionais de imigrantes albaneses, sindicalistas de base que ocupam a sede nacional da UGT lá do sitio e expulsam os “burocratas”, 400 detidos e 70 feridos só hoje, mais balas perdidas nos últimos dias (está outro miúdo no hospital)
    4. é arriscado falar de um corte epistemológico, mas são várias as pistas que por ai andam. penso que conheces o l’insurrection qui vient. é assinado pelo comité invisible e conta já com um enorme currículo. foi livro da semana na fnac de paris durante as manifestaçoes anti-CPE, constitui pseudo-prova na acusação de 9 jovens supostamente envolvidos na sabotagem de uma linha de TGV e neste momento com a Grécia em pano de fundo, transformou-se numa espécie de livro de bolso de manifestantes e polícias – a insurreicção que vem??? esta semana em frança, numa manifestação de estudantes do secundário num quadro reivindicativo pouco ambicioso uma faixa dizia c’est ça qui vient (e rebentam petardos e carros são incendiados); na embaixada grega em paris alguém escreveu l’insurrection a arrivé. hoje em nova york, a New School University foi ocupada por estudantes, e o manifesto termina assim “with solidarity and love from New York to Greece, to Italy, France and Spain, to the coming insurrection”. não são anarquistas, são mauistas.
    5. podemos debater a estratégia do estado grego para aniquilamento da revolta, se vai ser à la de gaulle, com um milhão de “bons gregos” a marchar sobre atenas ou à lá italiana com estações de comboio a explodir pela mão dos serviços secretos, mas devemos sobretudo discutir de que forma este movimento pode superar estes percalços e espalhar-se como uma neblina espectral sobre a europa.
    6. por fim, não sei se percebo essa oposição moral entre episódicos e persistentes. mais uma vez, acho mais valioso, por exemplo, o episódico maio de 68, do que as personalidades que vindas de lá chegaram até hoje com n anos de coerência.

  9. Maria: A tua visão da coisa não será mística e romântica?
    E quem manteve estes anos todos o anarquismo com ideia? Não terá sido bem mais prático?

  10. Maria, Queres vir sair à noite comigo? podemos beber uns copos e falar do que virá depois. hehe.
    Ainda que uma andorinha não faça o verão acho o teu milenarismo sexy. Bem mais sexy que o “anarquismo” do Rui Tavares, que já têm 23 anos!!!

  11. maria:
    se não sou uma pessoa a quem te dirijes por igual, isso é uma pena, embora problema teu. a minha interpretação é exactamente a oposta: dirigir-me a todos por igual. o imigrante clandestino não é menos do que eu. o presidente da república ou o monarca não é mais do que eu.
    serei eu uma parte do poder interessado na manutenção da barbárie? penso que intuis uma possível resposta quando dizer que eu poderia “talvez invocar o chomsky em tua defesa, mas pouco mais”. cara maria, poderia invocar muito mais do que o chomsky. desde o godwin ao proudhon e ao tolstoi, do kropotkine ao orwell e à emma goldman, do pierre clastres ao george woodcock e ao murray bookchin, praticamente não houve um pensador libertário que não escrevesse na imprensa de todos os géneros, da mais caseira à de maior circulação. e faziam-no em nome próprio e de cara descoberta, o que dá uma certa responsabilidade e exigência à argumentação.
    mas, na verdade, não invoco ninguém em minha defesa. embora estas pessoas não sejam autoridades morais, — mas exemplos de pensadores libertários interessantes, corajosos, enriquecedores — “invocar em minha defesa” tem um certo ar inquisitorial ou de auto-crítica maoista. eu não estou num tribunal para aferir a pureza das minhas ideias, simplesmente porque eu não reconheço nenhum tal tribunal.
    a questão que colocas é interessante e deve ser respondida francamente. estarei eu do lado do poder interessado na manutenção da barbárie quando escrevo num jornal? estará a ana drago do mesmo lado quando é membro de um parlamento? estará alguém desse mesmo lado quando dá aulas numa universidade estatal, ou privada, ou paga pelo exército americano (como o Chomsky no MIT) ou por uma religião organizada (como o Edson Passetti na Pontifícia Universidade Católica do Brasil)? eu diria que não. à partida, quem fala, escreve ou pensa em público está do lado de uma liberdade contra a barbárie: precisamente a liberdade de expôr ideias, pelo menos essa.
    mas a questão é ainda mais ampla. estaremos do lado da “barbárie” (para usar a tua palavra, que não sei se será adequada) quando pagamos impostos, quando votamos, quando conduzimos um carro, quando fazemos queixa à polícia porque nos roubaram o ipod, etc.? francamente, por vezes sim. ninguém disse que isto era simples. se não fizéssemos nada disso, estaríamos contra a barbárie? curiosamente, nem por isso. é melhor que seja complicado do que simples e burro…
    quanto ao resto. ficou explicado por que uso aspas ao falar dos “anarquistas” gregos que nos traz a imprensa. alguns são, outros não são, alguns são e não partem montras, outros não são e partem montras. de facto, não sabemos muito sobre o que se passa na grécia. o que se passa na grécia, sendo plural, não pode ser condenado genericamente nem louvado genericamente. como tal, se não conhecemos, não concordo com a tua ideia de que devemos sobretudo discutir como pode “espalhar-se [isto] como uma neblina espectral sobre a europa”.
    não condenar nem louvar genericamente não me impedirá de louvar e condenar especificamente aspectos do que se passa na grécia. entre eles a utilização da violência. a violência, a possibilidade da violência, e o medo que ela infunde são as primeiras ferramentas humanas de opressão. talvez ninguém consiga argumentar satisfatoriamente a favor de um pacifismo total e absoluto em todas as ocasiões. mas sem dúvida que há excelentes razões de princípio — algumas delas, para mim, inultrapassáveis — contra a violência política. e excelentes razões estratégicas e tácticas também — a maior parte delas inultrapassáveis na maioria das ocasiões para a maior parte das pessoas minimamente consequentes. não vou perder tempo com elas, porque simplesmente acho que não estou para repetir esta discussão a cada vez. simplesmente, tenho por adquirido o argumentário contra a violência política. sempre que a achar condenável, condena-la-ei, e é-me indiferente se o sujeito do acto violento se diz anarquista, é pobre ou oprimido, jovem ou o raio que o parta. se admite a violência política, é bem provável que tenha a alma de um opressor.
    sobre o maoismo, nem se fala. é uma doutrina autoritária, liberticida, que abomina o indivíduo. estará muito bem no caixote de lixo da história e quem a quiser recuperar há-de ter vergonha disso para o resto da vida.
    para terminar. a “neblina espectral” não é o que mais me preocupa. o que mais deve preocupar-nos, como sempre, é a liberdade. sobretudo, a maior liberdade possível para o máximo de gente possível, ou seja, uma liberdade igual e justa. no mundo de hoje, na europa de hoje até, as pessoas estão longe de viver imunes à arbitrariedade, à opressão, à violência, a uma série de imposições e regras que lhes matam a criatividade, a livre expressão, a realização pessoal. e não tem que ser assim. há muitas maneiras de tentar mudar isso, e acho bem que cada uma escolha as suas. já agora, tentando pelo menos não piorar as coisas.

  12. Caro Rui
    1. Não descortino no post um tom de agressividade ou de desprezo. De uma maneira geral não escrevo acerca de opiniões que desprezo. Já a agressividade parece-me própria da natureza da polémica, mas não me parece aqui particularmente evidente. Nenhum embaraço, portanto. «Inquisidores das opiniões alheias»?
    2. A discussão acerca do anonimato vai-se tornando cansativa, pelo que a podemos arrumar em poucas linhas. Quando escrevo aqui alguma coisa é apenas essa coisa que eu quero ver publicada, lida e sujeita a debate. Não tudo o resto, tipo a cor dos meus olhos ou o que fiz em 1999. Não escrevo aqui para construir uma identidade de «autor» ou de «cronista» respeitável e por isso mesmo escolhi o mais ridículo dos pseudónimos disponíveis.
    De uma maneira geral, os pseudónimos que escolhemos para este blog são uma plataforma para um tipo específico de discurso que pretendemos desenvolver, distinto do que desenvolvemos noutros contextos. Há muitas coisas que aqui escrevo que não escreveria se as assinasse com o meu nome. E não é, evidentemente, porque seja incapaz de defender as minhas ideias, mas porque há ideias cuja defesa custaria um preço mais caro do que eu estou disposto a pagar. Seria preferível que essas ideias ficassem silenciadas e que eu, pensando-as, não as expusesse? De resto, usando pseudónimos, não somos propriamente clandestinos e eu já te disse pessoalmente que escrevia neste blog com este pseudónimo.
    3. Eu não sou e nunca afirmei ser anarquista. E longe de mim questionar o real «anarquismo» deste ou daquele. Parece-me no entanto que é isso que tu fazes, ao estabelecer essa hierarquia entre os anarquistas que escrevem e teorizam de um lado, e os que se deixam levar por um impulso destrutivo ou simplesmente adolescente, pelo outro. Parece-me aliás que essa hierarquia, exposta no parágrafo 3 do teu primeiro comentário, sustenta o significado que eu atribuí às tuas aspas. Mas se tu me dizes que elas apenas exprimiam um cepticismo relativamente ao discurso mediático, prefiro acreditar nisso.
    4. Em todo o caso também não me parece que essa hierarquia resista muito tempo, uma vez que esse outro anarquismo que se pretende insurrecional é debatido e teorizado em milhares de publicações e sites, com argumentos que me parecem mais razoáveis e interessantes do que os de Federica Montseny (aos 89 como aos 19 anos). Penso que a oposição que estabeleces no teu artigo, entre a opção razoável de entrar no governo e a inconsequência de partir montras, me parece seguir a pista do anarquismo bom e do anarquismo mau, do anarquismo enquanto autoridade contraposto ao anarquismo enquanto pretexto.
    Repara que eu não pretendo sequer penetrar nesse debate acerca de qual dos dois é «o verdadeiro anarquismo», ou sequer o melhor. Constato apenas que, para tornar viável essa opção por uma via entre muitas outras, tiveste a necessidade de reduzir a uma caricatura os acontecimentos de Atenas e de simplificar grosseiramente um acontecimento histórico como a Guerra Civil Espanhola. Já agora, os combatentes do lado republicano durante a guerra certamente encararam como política a violência a que se dedicavam quotidianamente. Também eles teriam «a alma de um opressor»?
    5. A questão da violência não é do domínio de uma opção entre muitas outras para mudar o mundo, como se pela manhã nos dedicássemos a pensar se seria preferível colocar uma bomba ou afixar um cartaz. Há violência em vários momentos do nosso quotidiano, desde logo a existência de um conjunto de indivíduos especializados na violência e que exercem o seu monopólio em nome do «bem comum» e da «segurança» e, em última análise, da «liberdade». Há uma frase dos anos 70 (ITália) que me parece ilustrar dialecticamente o problema: «Enquanto a violência do Estado se chamar justiça, a justiça do proletariado chamar-se-á violência».
    6. Essa liberdade de exprimir as próprias ideias, que contrapões à barbárie do anonimato, tem vários limites, desde logo o de ser colocado numa lista de possíveis «ameaças», vigiado e controlado – como aconteceu aos 9 autónomos franceses presos em Novembro, acusados de «terrorismo» por afirmarem que está em curso uma guerra civil à escala mundial. E é aí, quando se cria um terreno de luta bastante real pela definição do que é a liberdade de expressão e de manifestação, que se torna necessário falar dela. Condenar quem luta contra o Estado é a liberdade mais garantida de todas. Não foi para isso que se fez o 25 de Abril.

  13. Rick:
    Umas notas rápidas. Podes chamar-lhe hierarquia, se quiseres. Eu digo simplesmente que há libertários que prezo mais e outros que prezo menos, uns que acho tipos brilhantes e outros que acho ingénuos ou patetas. Há problema? Nenhum. Também distingo entre cagar um pé todo e tomar banhos de mar. Não ter usado as aspas por “hierarquia” mas sim por “método” não me obriga a achar que todos os anarquistas sejam iguais e que o facto de usarem o nome faça deles todos igualmente uns génios políticos, pelo contrário.
    Eu sabia que conhecia pessoal do spectrum, mas não me lembrava dos pseudónimos. Se dizes que defender as tuas ideias leva um preço mais caro do que estás disposto a pagar, tu é que sabes e não me cabe a mim julgar as tuas condições. Mas posso julgar as tuas ideias. E assim vou dizer-te com frontalidade — à Baptista Bastos — que se o preço é demasiado alto é porque são ideias baratas. O dar-se a cara e o nome eleva o preço e a responsabilidade das ideias, pois claro. A intenção é essa e os argumentos ficam melhores, não piores. Seja como for, talvez tenhas outras razões. Também eu tenho outras razões para escrever em meu nome que pouco têm a ver com “construir uma identidade de «autor» ou de «cronista» respeitável”, pelo que se dispensam as bocas sobre o assunto. Ou terei de pedir desculpas por escrever crónicas e ser pago e conhecido por isso?
    Se releres o que eu escrevi, verás rapidamente que excluí o pacifismo total e absoluto como posição permanente. Como é evidente, acho que aqueles que usaram da violência contra o franquismo tinham boas justificações, no caso superiores a ter ficado quieto. Tentaram salvar a liberdade — como Federica Montseny o tentou fazer entrando para o governo. Não me parece que tenham alma de opressor.
    Fui rigoroso no que escrevi. Há bons argumentos de princípio, muitos inultrapassáveis, contra a violência política. O facto de, aqui e acolá (em auto-defesa, em situações de guerra, etc.) ela poder ser justificada (ou menos injustificada) quer dizer apenas isso: que há excepções. Mas essas excepções não invalidam que na maior parte das vezes a violência política, como qualquer violência, é estúpida, autoritária, e imoral.
    A frase dialéctica italiana que citas é simplesmente engraçada, mas errada. Podemos ver exemplo a exemplo tudo o que ela tem de errado. Quem é o proletariado? Quem fala em nome dele? A justiça do proletariado é diferente da justiça em geral? No fim de tudo isso, ficaríamos no início: a justiça é a justiça e a violência é a violência. Não há nenhum caso em que uma seja a outra.
    Quem te diz que eu condeno quem luta contra o estado, in genere? Quem te diz que aquele que parte uma montra está lutando contra o estado, em particular? Se assim fosse, o estado nunca usaria provocadores para fazer exactamente o mesmo, não é verdade? E no entanto usa-os — e alguém que citou o caso italiano sabe que isso tem sido comprovado. Já que estamos nisto, poderíamos aprofundar. O 25 de Abril — e qualquer movimento emancipatório ou, por extenso, libertário — faz-se mais para acabar com o estado ou acabar com a opressão? é que os dois podem ser parcialmente sobreponíveis mas não são idênticos (há quem esteja mais oprimido numa empresa do que no estado, numa religião do que no estado, numa família do que no estado. há até quem use o estado para se libertar dessas opressões — a começar pelos anarquistas quando lutaram por que o estado — O ESTADO — impusesse a lei — a LEI — das oito horas).

  14. Duas notas.
    1)Os acontecimentos de Maio de 1937, para além da questão da central telefónica tomada pelos Guardas de Assalto (e não por tropas da frente), desenharam-se no contexto alargado de repressão de todas os grupos revolucionários que estavam à margem do governo da república e da generalitat da Catalunha. Não só os anarco-sindicalistas não intervencionistas (“Amigos de Durruti”) mas também P.O.U.M.istas e o pequeno partido trotskista que então existia.
    2)O próprio governo viria a ser acossado pela direita no período posterior aos acontecimentos de maio de 37. No final do mês, o PCE e os socialistas moderados (talvez devesse usar aspas em socialistas) forçaram a queda de Largo Caballero (o lenin español) e a ascenção do moderadissimo Negrin.
    As pouquissimas hipóteses da República morreram no momento em que as facções moderadas tomaram conta da “situação” e do Estado. Mas isto é outra discussão.

  15. Rui, não há qualquer boca. Espero vir a ganhar mais do que tu a escrever artigos (embora não o ache muito provável) e não tenho qualquer problema com isso. Acho que adivinhas no que escrevo uma crispação que não existe. Simplificando, quero que o debate se cinja ao que escrevemos neste debate e nada mais. Nada fora do texto.
    Penso que a frase se insere num contexto de elevada conflituosidade social em que se respondia violentamente à repressão e se punham em prática formas de ilegalidade massificada (exproprio em supermercados, uso gratuito dos transportes, ocupação de casas). Nesse sentido, a «justiça» enquanto ordem penal e enquadramento legal, tinha uma face real na «violência» com que era aplicada. Responder a essa violência implicava estrategicamente desmontar o conceito de «justiça» que a legitimava.O «proletariado» é um conceito tão vago como a «sociedade», em nome de quem o governo grego, por exemplo, fala. Ou o «povo». Para quem não atribui ao sufrágio universal a mágica propriedade de representar a «vontade popular» e considera metafísico o próprio conceito de representação política, não existe tal coisa como uma justiça legítima e uma violência ilegítima. Apenas o combate entre a soberania e os sujeitos que a recusam.
    «Violência», «justiça», «legitimidade» e outros conceitos, são usados de forma estratégica no combate político. «Danos colaterais» para referir vítimas civis, lembras-te?
    Para nos entendermos, eu acho de uma violência incrível aprisionar indivíduos dentro de celas e espaços carcerários durante anos, mas não chamo violência à destruição de um objecto inanimado, por mais espectacular que ela seja.
    Tu achas que existe «a justiça» e «a violência», assim, como essências em estado puro com significados precisos e um carácter quase transcendente. Ora eu acho precisamente que aquilo a que se chama justiça e violência é historicamente muito variável e portanto está aberto à disputa política. A justiça da frase italiana é precisamente esse conceito ambivalente, que é um objecto de luta e não a sua fundamentação.
    Acho discutível que as 8 horas tenham sido «impostas» pelo Estado. Acho que é um debate longo e que não quero iniciar aqui, mas existe um discurso do progresso que reduz a história à história das transformações jurídicas e institucionais, economizando bastante na compreensão dos processos concretos em que as coisas se inserem.
    E deixo-te uma questão. O que fazer quando a violência do Estado se afasta de modo tão flagrante da justiça do Estado? Quando um polícia abate um jovem desarmado (vai sendo mais habitual do que gostaríamos) ou simplesmente provoca danos irreversíveis pelo uso (negligente ou deliberado) do seu poder? Esperamos que se faça «a justiça» nos tribunais? E se ela não nos satisfizer e procurarmos outros meios, tornamo-nos «injustos»?

  16. Só para terminar, quero sublinhar que em todo este debate está em causa, fundamentalmente, a avaliação histórica do momento em que vivemos. Se a violência contra o fascismo foi «legítima» e «justificada», e se há momentos históricos em que ela é até necessária, admitamos que divergimos sobretudo na interpretação histórica do que está acontecer. Simplificando: tu achas que pode vir aí uma época de prosperidade e fraternidade universal (Obama e o novo new deal), eu vejo a guerra civil a insinuar-se (repressão, guerra, desemprego, precariedade).

  17. não sou produtor de teoria nem comentador político, como os que abundam neste blog – sou um bêbado. mas ainda assim gostava de comentar algumas afirmações insultuosas de ridículas, que têm sido produzidas a propósito deste tema.
    o sr. Rui Tavares – que eu conheço apenas na sua forma bidimensional e que por isso não tem nada que ver com essa outra pessoa chamada rui tavares com quem alguns membros deste blog bebem copos no agito – num esforço comovente de organização e catalogação terminológica define deste modo (no ponto 3 do 1º post) a palavra “anarquista”:
    “anarquista é diferente de anárquico. pressupõe a palavra “anarquista” (…) que haja pelo indivíduo em causa um certo desenvolvimento do conjunto de questões, doutrinas e teorias libertárias.”
    devo dizer-lhe sr. Rui Tavares que eu, Pancho – que costumava gostar pouco da palavra “anarquista” para definir aquilo que eu sou em termos de pensamento e de prática de relacionamento com o mundo – começo a sentir que há nessa palavra nebulosa onde se projectam todos os que se opõem ao Poder e à Ordem, uma dimensão espectral, que ao pairar assim sobre a Europa, nos permite desejar coisas que já tínhamos relegado para o campo da miragem.
    mas a propósito da sua definição, queria lembrar-lhe que em 14 dias de reorganização radical do quotidiano, de reconquista dos espaços de poder ocupados pela Ordem e de confronto com as forças de ocupação, não é fácil assentar e registar as “questões, doutrinas e teorias” que emanam dessa prática (lembra-se não é? da dialéctica entre teoria e prática e desta como única fonte válida daquela?). Ainda assim, se procurar alguma informação fora dos circuitos por onde se tem movido, verá que os poucos textos escritos pelas assembleias das Universidades Ocupadas são de uma lucidez, de uma pertinência e de uma “perigosidade” que só é permitida a quem vive um desses momentos excepcionais em que a força das circunstâncias instalam diante da vista um xadrez tridimensional de possibilidades.
    admito que lhe seja difícil, dado o avançado da sua idade, acompanhar algumas das pistas que permitem fazer um mapeamento mais ou menos impreciso do conjunto de ideias daqueles que se implicaram nos motins em atenas. mas eu Pancho, na minha generosidade etílica, gostava de ajudá-lo a juntar algumas pontas soltas.
    se alguma coisa se aprendeu ao longo das última décadas com as experiências do passado foi o valor da invisibilidade.
    desde janeiro de 94, quando um levantamento armado no méxico adoptou como estratégia aparecer ao mundo de forma invisível, que tapar a cara e omitir o nome deixaram de ser uma forma de uma pessoa se esconder para passar a ser uma forma de se mostrar.
    essa prática tem sido utilizada por todos os momentos de interrupção radical da Ordem – esses de que a esquerda gosta de se reclamar, procurando anular aquilo que lhes esteve na origem: Seattle, Praga, Génova, etc. – sob o nome de black block (que ao contrário do que os jornalistas costumam pensar, não é um grupo de pessoas nem uma qualquer tendência, é uma táctica de acção que se resume a tapar a cara e vestir de preto para se tornar invisível na destruição de objectos e equipamentos da Ordem).
    É que sr. Rui Tavares, a Ordem não é só o monopólio da violência é também o monopólio da aparência.
    o senhor saberá melhor que muitos, que os circuitos pelos quais uma pessoa se pode projectar para se mostrar ao mundo são circuitos bidimensionais. e como tal reduzem corpos que ingerem cerveja para expelir mijo e cabeças capazes de fazer coabitar o desejo da liberdade com o medo da desordem a essa simplificação absurda e caricatural que é uma fotografia na contra-capa de um jornal. a Ordem só sabe incluir nas suas narrativas personagens bidimensionais e sai vitoriosa sempre que consegue reduzir pessoas às duas dimensões de uma página de jornal, de uma capa de um livro, ou de um ecrã de televisão.
    sempre que uma pessoa abdica da sua desordem íntima e da sua multidimensionalidade para se tornar um comentador político, um extremista que parte montras, um teórico de ciência social, um historiador, um cineasta, um trabalhador precário, um estudante em luta por direitos, um anticapitalista, isso é a Ordem. É aí que termina a humanidade e que começa a Ordem.
    Há pouco tempo li num artigo de um jornal francês que os acontecimentos na Grécia não se podiam comparar ao Maio de 68 em Paris porque não sobressaiam nele grandes personalidades e vultos intelectuais de destaque com uma produção teórica sustentada sobre os acontecimentos, como o Daniel Con Bendit ou Guy Debord. tive vontade de rir. a geração dos que estão implicados nos motins da grécia, pôde observar que foi precisamente o surgimento dessas figuras que permitiu anular e acabar com o que o Maio de 68 teve de revolucionário, cristalizando-o numa série de personalidades, de episódios e de narrativas passíveis de ser organizadas, arrumadas na História, incluídas na Ordem.
    É por isso sr. Rui Tavares que os movimentos revolucionários da última década agem ao abrigo de máscaras: usam amíude essa primeira máscara que é oferecida aos jornalistas para ser ajavardada, para se excitarem, espumarem e bradarem aos céus de fúria, que é a palavra “anarquista”; escrevem textos e blogs sem um nome; aparecem nos ecrãs de televisão a destruir objectos e materiais que são símbolos da Ordem de cara tapada e irreconhecíveis; ou ainda editam livros que são considerados manuais de subversão e prova judicial de actividades terroristas pelo estado francês sob o nome de comité invisível.
    o nosso nome serve para ser sussurado ao ouvido a nossa cara para ser reconhecida no meio da multidão pelos nosso próximos. são parte da nossa reserva de humanidade e se os oferecermos assim ao desbarato essa reserva esgota-se.
    se tem vontade de procurar conhecer a produção teórica de que se alimentam os revolucionários de atenas, faça uma busca na internet ou nos escaparates das livrarias sob o que tem surgido ao abrigo da invisibilidade. garanto-lhe que as pessoas que partem montras em atenas estão empenhadas em enviar sinais a quem anda desorientado à procura de um discurso, como você, de que é aí que se deve procurar.
    um abraço.
    pancho

  18. Mas que pena,
    Estava a gostar tanto de ver o meninos a escreverem tanto tanto tanto para o puto rui.
    Aqui o pancho acabou com isto. Piu.
    HHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
    HHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
    HHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
    Ai …. Ai ….
    HHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
    HHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

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