Leonor


Respondendo ao repto do mais situcionista chef de Lisboa, aqui se dá conta dessa personagem legendária do imaginário subversivo, musa inspiradora de ambiciosos projectos de contra-informação, Leonor, que alguns pretendem Gouveia enquanto outros garantem ter sido Sousa.
Começada a revolução portuguesa e como se formasse na região de Portugal um pequeno comité de agitação pró-situ (um nebuloso “Conselho para o desenvolvimento da revolucao social”), mais ou menos formalmente liderado por Afonso Monteiro (esse mesmo que se tornou responsável pela primeira versão estrangeira de “A Sociedade do Espectáculo” considerada «aceitável» pelo seu autor), Guy Debord iniciou com este uma troca de correspondência de oscilante regularidade, acerca das vicissitudes desse processo que acompanhava de longe, assinando «Glaucos» e dirigindo-se a «Ulysses».
A versão inglesa da correspondência de Debord pode ser encontrada aqui .
Falta-me o tempo para expor aqui em pormenor o tom e o conteúdo dessa correspondência, enquadrada aliás por outras cartas dirigidas por Debord a amigos seus espalhados pela Europa e onde são tecidas considerações progressivamente menos simpáticas acerca de Afonso Monteiro e respectivos camaradas. Bastaria aqui referir que pareceu cada vez mais a Debord que a sua célula portuguesa se eximia de intervir quotidianamente no processo revolucionário, se mantinha à margem dos enfrentamentos decisivos que lhe moldavam o ritmo e abstinha-se de assumir no seu seio uma posição autónoma. Monteiro e os seus amigos adoptavam mais a posição de espectadores entusiastas do que de sujeitos activos dos acontecimentos em Portugal. E, fazendo-o, tratavam os textos publicados pela Internacional Situacionista como fonte de citações literárias passíveis de ser declamadas pela rádio e transformadas em matéria morta dos debates culturais.

Até aqui nada de especial e parece que o terrível feitio de Debord em nada retira pertinência às críticas expostas nas suas cartas. Mas algo mais transita nessa correspondência. Algo como um espectro, uma memória longínqua de uma sedução passada, nebulosa mas aparentemente inesquecível. Trata-se de Leonor, figura enigmática da qual Guy-Ernest fez a sua Beatriz. As referências são sempre curtas, subtis. Aqui pergunta-se como está ela, ali refere-se o seu encanto enigmático.
Na primeira carta a Afonso Monteiro, logo a 8 de Maio de 1974, após uma longa análise estratégica da situação e das suas possibilidades, pede-lhe que assegure a «L.» que «ainda a ama» para mais tarde pedir a um amigo francês em Lisboa que lhe comunique que «ainda não esqueceu a sua voz». Tudo isto acaba em Novembro de 1975, quando Debord comunica a Afonso Monteiro o fim do seu interesse em manter aberta a comunicação postal estabelecida desde Abril de 1974. Entre várias apreciações irónicas e críticas acerca do processo revolucionário português e da inabilidade de Monteiro et allii em compreendê-lo e sustentá-lo, surge a nota dramática que ilustra o presumível fim de Leonor: “Para mim e para um número bastante reduzido de outros, pessoas há que merecem ser seguidas até locais distantes, simplesmente porque é possível reconhecer nelas uma certa qualidade de vida possível (e isto é também verdade acerca das revoluções; é necessário fazer por elas tudo aquilo que se pode realmente fazer). E por isso, para dar um exemplo que apenas se adequa às circunstâncias em Portugal, Leonor correspondia a esta definição, pelo menos no que me diz respeito. Mas alguém me informa que ela morreu em Moçambique, o que representa mais uma prova de que nem toda a gente sentiu a necessidade de viver a revolução convosco em Lisboa.”

Leonor, essa personagem quase Corto-Maltesiana (qual Louise Brookzowyc que em vez de Buenos Aires dança o tango em Maputo), terá talvez morrido em Moçambique, ou num outro qualquer palco da guerra civil mundial. Mas é também possível que tenha simulado a sua própria morte, como recomendava Maquiavel aos inimigos do Estado, e atravessado o espelho. Como quer tenha sido o seu fim, dificilmente perdoaremos a «Glaucos» a sua distância, a sua recusa em vir a Lisboa, elaborar o seu próprio mapa psico-geográfico de uma cidade tão propicia a semelhantes exercícios. Não sei se a revolução portuguesa merecia tão distinto visitante. Mas Leonor era razão mais do que suficiente para umas horas no Sud Express.

7 thoughts on “Leonor

  1. será que daqui por 40 anos haverá alguém que se lembre das raparigas por quem suspiramos agora precisamente por isso?

  2. Agora fora de merdas, como diz o D. a que é mais boa do que a loira neste último woody allen vai passar por lisboa e possivelmente comer da minha comida…
    A malta amiga será informada, o dicky e pp também! (Eu sei que no fundo eles gostam destas merdas)

  3. Olá, penso que o tal amigo francês é afinal venezuelano, o ex-situacionista Eduardo Rothe que trabalha agora num ministério do Chávez.
    ver debord-26June1974 no notbored e o artigo
    the-revolution-delayed-10-years-of-hugo-chavezs-rule no the commune.wordpress
    (penso que não posso introduzir links)
    Gostava de saber mais sobre a actividade do Eduardo Rothe em Portugal.

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