Jornalismo (Im)Provável


Neste poço onde encontramos o jornalismo cada vez mais fundo (tão fundo, tão fundo que é quase impossível vê-lo) alguém se lembrou de reeditar 21 minutos de telejornal para falar de amor, rissóis e casas caiadas de branco. No Teatro Maria Matos há um espectáculo que é um esboço, um homem (Tiago Rodrigues) que, na penumbra, sincroniza a sua voz com a do pivot e dá notícias diferentes da catarse da catástrofe e das curiosidades sociais com o dito “valor-notícia” que as imagens nos sugerem. Diz que é teatro. Teatro sobre jornalismo sobre teatro.
E eu, que nos últimos tempos assisti aos dois melhores espectáculos teatrais dos últimos anos – «Manuela Moura Guedes versus Marinho Pinto», na TVI, e «Romeo and Juliet» dos Nature Theater of Oklahoma, no Teatro Maria Matos, fico impressionada.

Afinal, é-me cada vez mais difícil perceber as fronteiras entre política, jornalismo e teatro. Todos concorrem para uma «(…) eficácia expressiva: a organização do espaço, o programa concebido à maneira de um cenário, o protocolo e a ordem de entradas, os códigos verbais, musicais e as formas de retórica, as convenções dirigindo o aspecto dos actores principais. A importância concebida à imagem e ao som, a capacidade de transmitir o acontecimento cerimonial em múltiplos lugares fazem intervir uma ‘retórica da retransmissão’; impõe a sua própria lógica na dramatização, na escolha do que é dado ver, jogando sobre os planos de cena e sobre a apresentação dos personagens centrais; ele faz intervir os elementos acessórios, espectaculares, propícios a uma adesão emocional» [George Balandier]. A diferença está que o teatro é o único que o faz honestamente. Viva o Teatro!

8 thoughts on “Jornalismo (Im)Provável

  1. Chamar espectáculo teatral à justa indignação do Marinho Pinto, após uma peça de jornalismo do enxovalho, é um bocado injusto.

  2. Jornalismo de enxovalho é espectáculo teatral. A reacção faz parte. É o grande clímax. Nada do que está dito é sobre justiça ou injustiça das personagens ou deixas. É sobre espectáculo.

  3. O que mais me faz impressão no jornalismo que se vai fazendo actualmente, e que está associado a esse aspecto teatral e espectacular que referes, é a efemeridade do que hoje se considera notícia. O acidente de viação com dois portugueses e um espanhol na A43, o incêndio no n.º 4 da Rua do Meio, em Amarante, as declarações do presidente do benfica a propósito do jogo contra o Leixões, etc… Tudo coisas irrelevantes que uma semana depois já ninguém se lembra. Não mudam o mundo, não mudam as nossas vidas, enfim… são nadas elevados à categoria de notícias.

  4. Citação de BALANDIER, Georges, “O Poder em Cena”, Colecção Comunicação, Minerva, Coimbra, 1999.

  5. Pois e9, eu procurei algmaus e ne3o achei, talvez vocea soubesse de alguma, eu queria assinar a exame pelo tablet, ne3o apenas o aplicativo para ler as notedcias do site Sere1 que as editoras ve3o apostar na plataforma ou apenas no iOS?

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