Eu cá, já tenho o boletim de voto!

As causas da emigração em massa com destino a França nos anos 60/70, primeiras vítimas de quase meio século de miséria salazarista, constituindo um dos maiores movimentos populacionais intra-europa (758 925 portugueses residentes em França segundo o recenseamento da população –INSEE- em 1975), tem ainda hoje as suas consequências. O abstencionismo característico e maioritário desta população é revelador do quão esta população é desprezada pelas autoridades do país de origem e de instalação. Quando falo de abstencionismo não o reduzo à participação nas eleições, em primeiro lugar e principalemente, porque não estou aqui para dar lições de moralidade de participação cívica sobretudo a indivíduos que se encontram em situação migratória. Quando falo de abstencionismo quero com isto dizer uma atitude perante o trabalho, perante os patrões (o que aliás não é uma exclusividade desta população, no entanto estando numa situação de “fraqueza” social devido ao seu estatuto de estrangeiro os contornos tornam-se ainda mais dramáticos e exemplares).
Quase meio século passado da primeira grande vaga dos anos 60, aqueles que um dia responderam (video INA em cima) à pergunta de um jornalista “Et vous espérez quoi?” “On espère que ce sera mieux qu’au Portugal”, continuam os emigrantes do pós-Schengen a responder-me “prefiro ser femme de ménage e estar às ordens da minha patroa do que ir fazer as vindimas nas vinhas do meu pai” ou então “Trabalhas de que horas a que horas?”“Tenho um horário especial. Das 7 às 7. Porque eu quero”. “Quantos dias por semana?”, “6 dias. Porque eu quero. Porque ao fim do mês sempre ganho mais um bocadinho. Mas isto ninguém deve saber, só eu tenho que saber”. Esta atitude perante o trabalho é acompanhada por uma postura de servilismo, permitindo aos emigrantes portugueses em França de ganhar o troféu de “migrants-modèles pour le patronat”. E quando um dia protestava em frente da embaixada portuguesa com mais meia dúzia de gatos pingados contra o fecho dos consulados, uma senhora corajosa aproxima-se e grita em português: “não estamos aqui para gritar, estamos aqui para trabalhar”. Ora pois sim senhor, o nosso lema é ser “humildes, sérios e limpos” dizia-me ainda outra senhora noutro contexto. Os portugueses continuam assim a aceitar tarefas árduas e horários desumanos, em nome de quem? Culpa de quem?
E quando neste panorama um emigrante alentejano dá-me um poema intitulado “Um dever civico”, muito para além do seu sentido primeiro, de votar ou não votar, sinto que urge uma semente de insurreição à normatividade na qual os emigrantes foram e são ensacados como paios.
“Assim o nosso peso remonta
Mostramos a nossa força
E que a nossa Vós se ouça
Sai detraz dessa montra
Ninguém mais te aponta
Serás um outro sugeito
Serás olhado com mais respeito
Porque quem não vota não conta”
Joaquim Alexandrino
Inesperadamente, abro a minha caixa de correio e vejo um envelope timbrado com o logotipo do PS endossado em meu nome, um pouco perturbada com o acontecido sem saber muito bem de onde vinha aquilo, abro o envelope, avisto Sócrates que diz “AVANçAR PORTUGAL pelas comunidades”. Três dias depois repete-se a situação, mas desta vez o logotipo era do PSD e quem agora falava era a Ferreira Leite: “O NOSSO COMPROMISSO COM AS COMUNIDADES PORTUGUESAS, servir os portugueses da diáspora” (daí, entre outros, os elevados custos de campanha destes partidos). Na elocução fácil e estéril dos dois prospectos é incrível a capacidade que os dois partidos têm para se anularem um ao outro. No que diz respeito, por exemplo, à rede consular: prospecto do PS “O governo PS continuará a modernização das estruturas da rede consular, cujo objectivo central consiste na melhoria constante do atendimento”; PSD “O governo PS desqualificou os postos consulares que sobrevivem com enormes carências humanas e técnicas”. É engraçado que se fale em rede consular e conforto das suas infraestruturas, quando o mais importante é a proximidade destas do local de residência das pessoas. Importantes postos consulares foram fechados já sob a égide do Governo PS e Presidência PSD, nomeadamente o de Versalhes, Nogent, Orléans e Tours (obrigando os portugueses a fazerem deslocações enormes para o caso de quererem renovar o BI, mais vale assim adquirir nacionalidade francesa, dir-me-iam alguns)!
Hoje, recebi enfim o meu boletim de voto por correio, eu e mais 72527 emigrantes recenseados na Europa.

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20 thoughts on “Eu cá, já tenho o boletim de voto!

  1. em londres a resposta do consulado é: “trate disso em portugal, que aqui vai demorar meses”

  2. Nuno, nesse caso o melhor que tens a fazer é ir directamente à màfia portuguesa de Stockwell, nomeadamente ao “Funchal Bakery” no 141 stockwell Road, onde podes encontrar pessoal abastado para fazer a folha à inércia das autoridades portugueses no estrangeiro! A mudança do local de recenseamento no consulado de Paris fez-se no meu caso no mesmo dia, com o meu BI e o meu antigo cartao de eleitor! Livro de Reclamaçoes!

  3. impressionante o conhecimento do submundo londrino!
    tenho pena de nao te ter visto por lx este verao (depois escrevo-te a explicar).
    serve o comentário para te perguntar se achas realmente que o emigrante deve ter direito realmente a votar nas eleiçoes do seu país de origem. entendo que achas que sim mas acho a questao mais complicada do que parece.
    beijinhos

  4. Vivas, vivas… explicações em espera!
    Quanto ao voto, sim estou de acordo com a possibilidade de voto no país de origem, no entanto depende das quais. Como é obvio nas municipais não faz sentido uma vez que não me encontro nesse espaço geográfico e social. Já nas legislativas é diferente, no ideal seria que os emigrantes (mononacionais) tivessem à escolha o país de voto, o de origem ou o de instalação, e essa escolha parece-me que dependeria do trajecto migratório de cada um. Actualmente, pelo menos no caso da França e penso que com as políticas de homogeneização europeias passa-se o mesmo em todo o lado, os estrangeiros apenas têm direito a votar nas municipais. O que é que se faz, priva-se os emigrantes de votarem completamente nas legislativas? Qual seria a tua solução?
    De toda a maneira, votar no círculo eleitoral da Europa para as eleições de deputados em Portugal é importante na medida em que os governos podem ter um papel central no conforto do quotidiano dos emigrantes através da tutela das “comunidades” portuguesas, embora o que testumunhemos dessa intervenção seja muito reduzido exptuando no que diz respeito ao exaltamento da cultura portuguesa e dos seus embaixadores.

  5. Para responder directamente, a minha soluçao (nao sei exactamente para qual dos problemas ou se sequer para algum eheheh) seria associar o direito a voto ao local de residencia. Nao faz sentido que eu, se resido no mesmo sítio há anos, pago impostos, participo na vida social, cultural e política local, esteja obrigado a votar no sítio onde nasci e que me deu a nacionalidade.
    Acho ainda que é um debate que só nao é mais intento porque há poucas circunstâncias em que o voto das comunidades acentua ou contraria de forma impactante a tendência de voto geral. Ainda assim, há casos (como a Galiza em que o total dos votos de residentes no estrangeiro configuraría o terceiro círculo eleitoral mais numeroso, num total de cinco) que provam a pertinência da questao

  6. Estaria totalmente de acordo contigo, se tal como tu, todos os emigrantes se sentissem tao implicados na vida social da sociedade de instalaçao. Ou seja, depende da distância ou proximidade de cada um ao local onde residem e ao pais de origem. Portanto, repito, na minha opiniao o ideal seria cada emigrante poder votar no pais da sua escolha. Estamos bem a falar das legislativas?

  7. Sim, estava a falar nas legislativas mas ao limite o princípio também se aplica às autárquicas, com a única diferença de que é muito mais fácil oficializar uma mudança de residência do que de nacionalidade, que é o requisito para as legislativas.
    Percebo o teu princípio do vínculo à sociedade de instalaçao ser variável e como tal uma mudança de lei ter que ter isso em conta e ser suficientemente flexível para deixar a liberdade de escolha. Mas nesse caso, porquê restringir-nos aos emigrantes. Se a lei te dá a liberdade de escolher onde podes votar, porquê dá-la apenas ao emigrante e nao a um português que viva a 20 km’s da fronteira espanhola, trabalhe em Espanha e lhe interesse mais a política espanhola (para dar um exemplo qualquer)? Ou por exemplo, no nosso caso, poderíamos manipular a escolha de modo a poder votar tanto nas legislativas portuguesas como francesas (no teu caso) ou espanholas (no meu).
    Acho curioso que de alguma forma reivindiques o teu direito a votar em Portugal quando estás tao ou mais arreigada no teu contexto francês do que eu no meu ;-)

  8. Sobre o que dizes… jà percebi… estàs numa formula muito mais “libertina” do que eu! Ultrapassar completamente o passaporte, a nacionalidade! Eu limitei-me ao terra a terra democràtico-patriotico, a tua perspectiva é muito mais apetitosa mas tb completamente fora da normatividade através da qual as nossas sociedades sao conduzidas! Utopistes debout, je suis d’accord! A minha relaçao com o espaço europeu é bastante movel, a proximidade com a politica e os politicos continua, no meu caso, a ser bastante ligado à minha sociedade de origem… não tenho explicaçao para tal, tenho hipoteses: O facto de me ter formado politicamente em pt, o facto de nunca me ter inserido institucionalmente em Paris, nomeadamente em grupos, associacoes, partidos… e no fundo no fundo talvez porque ainda nao me tenha desligado das amarras nacionalistas como gostaria!

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