O impasse reaccionário


Pacheco Pereira escreveu no passado dia 5 de Setembro, no «Público» um artigo dedicado ao “impasse da esquerda revolucionária”, tema que o vem obcecando e para o qual chama, sempre que possível, a atenção dos seus leitores. O estilo é o habitual: a actual cultura mediática só produz ruído e esconde o fundamental por trás do acessório, mas há alguém que resiste, agora e sempre, sem hesitar em desvendar o que parecia indecifrável e dessa forma desmascarar a vasta conspiração esquerdista em curso. Esse alguém é Pacheco. Afirma Pacheco que o Bloco e o PCP têm objectivos inconfessáveis, uma grande estratégia que não podem enunciar, esqueletos no armário, macacos no nariz, etc., etc. Um pouco da sua prosa: “ambos são marxistas e mais ou menos leninistas (mais o PCP do que o BE); mas têm que esconder os retratos dos pais e dos avós; ambos se pretendem «revolucionários» e nenhum pode falar da revolução.”
Há muito mais, claro está. Embora nenhum destes partidos fale disso, Pacheco «sabe» que eles querem «destruir a economia de mercado» e são «hostis à propriedade privada». É inútil argumentar, responder, replicar, precisar, porque Pacheco sabe e nada tem lugar neste mundo sem que Pacheco o saiba. E porque escondem eles esta agenda oculta, essa matriz original que os persegue e face à qual são impotentes? Pacheco tem a resposta, como outros têm a cura para a queda do cabelo, a pedra nos rins e a unha encravada: “Fazem-no porque ficaram perdidos no meio de uma história que os condenou ao «movimento», como dizia Rosa Luxemburgo, e lhe retirou os «objectivos», os «fins», que não só não sabem como não podem enunciar.”

Note-se bem o preciosismo. Não apenas a história os «condenou», num interessante exercício literário através do qual esta se vê não apenas subjectivada, mas investida das funções da magistratura, como ainda lhes retirou objectivos e fins que eles não sabem enunciar. Não «sabem», precisamente, o que Pacheco tão bem «sabe». Nada disto seria grave, se não se desse o caso de Pacheco Pereira, que é um «Historiador do Comunismo» e tem um site intitulado «Estudos sobre o Comunismo», não viesse revelar, a par deste seu estilo verbal incontinentemente estalinista, uma gritante ignorância. É que Rosa Luxemburgo (acerca de quem já escreveu mais do que uma vez e sempre para dizer disparates) nunca falou de uma oposição entre movimento e objectivos finais. Nem de outra coisa qualquer que pudesse suportar esta referência que serve aqui, como acontece frequentemente nesta escrita que pretende passar por culta e erudita, para caucionar disparates.
A frase canónica que Rosa Luxemburgo escreveu em polémica com Lenine e com a qual Pacheco Pereira jamais esteve de acordo (na sua juventude como na sua senilidade), num texto em que defendia a necessidade e o direito que o proletariado russo tinha de cometer os seus próprios erros e aprender à sua custa a dialética da história, é esta: “E finalmente, digamo-lo claramente entre nós: os passos em falso dados por um movimento operário realmente revolucionário são, historicamente falando, incomensuravelmente mais fecundos e mais preciosos do que a infiabilidade do melhor comité central.” O caso da citação é menor e secundário sem dúvida mas permite lêr, a outra luz, o «comunismo» do qual Pacheco Pereira se pretende historiador e que não é mais do que o regime soviético, que no tempo da guerra fria deu de comer a muita gente, de marxistas-leninistas como Pacheco Pereira a liberais como Pacheco Pereira, sem que alguma vez se tenha percebido ao certo o que tudo aquilo tinha que ver com o comunismo.

Adiante. Pacheco Pereira não se fica por aqui. Isto é apenas o ponto de partida através do qual procura situar a sua coluna de opinião num plano que não é estritamente o da opinião, cavalgando a historiografia sem lhe dar o que quer que seja em troca.
Esqueçamos os termos em que se refere a Louçã. É possível assumir, face a Louçã, uma perspectiva antagónica. Eu próprio o considero um adversário no campo político, ainda que o respeite e o considere um intelectual incomparável às luminárias que o bloco central desencanta a cada passo. Mas o que escreve Pacheco Pereira, os termos que emprega e as acusações que avança chegam a raiar o doentio: “Ele sabe muito o que quer e não o diz.” Parece que afinal Pacheco Pereira sabe que Louçã sabe. Mas não o diz.

O ponto que me interessa aqui, porém, nesta prosa que já vai longa, é a parte em que finalmente se discute política. Aí, Pacheco Pereira demonstra toda a fragilidade do seu pensamento, feito de lugares comuns e descrições apocalípticas. Depois de ter saltado por cima das propostas do Bloco para as suas intenções veladas, eis a conclusão derradeira: “Ou seja, o Bloco não tem outro programa que não seja pura e simplesmente confiscar o que está na mão dos «ricos» (que se veria depois que é quase toda a classe média) e distribuí-lo. Claro que com um programa destes não adianta falar da realidade, do que isto significaria em termos de destruição de empresas, de fuga de capitais, de desemprego imediato (ficaria o Estado a pagar os salários ou vende-se a casa dos patrões?), de pobreza socializada. E depois, numa sociedade destas, a repressão em nome da «justiça», dos «pobres», da «igualdade», da «revolução», é inevitável para se manter o «movimento». Perguntem a Chávez.”
Pessoas informadas reconhecerão algo de familiar neste discurso, que não é, ao contrário das palavras atribuídas a Rosa Luxemburgo, da autoria de Pacheco Pereira. Ele é plagiado do que a direita evangélica norte-americana dizia de Obama antes das eleições e diz agora acerca do seu plano de saúde. O processo histórico que eles descrevem é tão simples que dispensa historiadores – começa-se por acabar com o sigilo bancário e acaba-se no gulag. Não é muito convincente mas parece apropriado para quem gosta de emoções fortes. Em tempos Pacheco Pereira escreveu que George W. Bush não é tão estúpido como se acreditava na Europa. São opiniões. Era escusado, em todo o caso, presumir-nos tão estúpidos como os eleitores do Texas. A referência a Chávez vale o que vale. Nos estudos sobre o comunismo de Pacheco Pereira ainda parecerá lícito afirmar que ele fez um golpe de Estado contra si próprio.

Acaba com uma pérola. Pacheco Pereira propõe que se considere o PREC, “em que algumas destas propostas foram levadas à prática conduzindo à mais completa destruição da riqueza nacional dos tempos mais recentes e aos milhões e milhões e milhões que nos custaram as «desprivatizações » da altura? E não teriam aí que colocar Louçã também no cartaz, mesmo que fugazmente, em 1975?”
Entrámos no domínio do delírio. Desde logo porque Louçã nunca participou em qualquer governo, em 1975 ou noutro ano qualquer e porque Pacheco Pereira fez, até Abril de 1975, parte de uma seita vagamente marxista-leninista, que permaneceu na clandestinidade a seguir ao 25 de Abril e se destacava pelos seus ataques a todos os partidos do governo provisório e ao MFA. Percebe-se então o plano freudiano para o qual se deslizou ao longo deste artigo – um divã em papel – no qual Pacheco prossegue o seu trabalho de luto pela sua juventude asceticamente ortodoxa. Nada de grave. É apenas curioso notar que uma terapia assume assim, tão regularmente, a forma de comentário político.

O resto? O resto é mais do mesmo, o eterno choradinho da revolução que interrompeu um ciclo de prosperidade, de um delírio que veio abalar a plácida lucidez em vigor, de uma democracia que custou caro demais. Mais do mesmo, sempre o mesmo e sempre o mesmo disparate. Os «milhões que nos custaram» as nacionalizações foram pagos já no governo de Cavaco Silva e serviram para os indemnizados – ou seja, aqueles empresários que prosperaram graças aos bons serviços do Estado Novo e da sua polícia – voltarem a adquirir as suas empresas ou outras do mesmo ramo. De resto, muitos milhões foram gastos durante o PREC a emprestar dinheiro a bancos sem liquidez (quase todos) que o utilizavam para comprar acções de empresas que pertenciam aos respectivos grupos económicos (ilegalmente, uma vez que a compra e venda de títulos foi proibida logo a seguir ao 25 de Abril) ou a financiar partidos de direita e de extrema-direita. A história mal contada das nacionalizações vai dando para todas as vertigens (Paulo Portas também já resolveu dar a sua pincelada perguntando quem paga as nacionalizações) e vai sendo tempo de contrapôr à retórica reaccionária de um PREC esbanjador uma fotografia mais nítida da revolução. Estranho seria, aliás, que Pacheco Pereira «soubesse» o que passou despercebido à equipa de economistas do MIT que se deslocaram a Portugal a pedido do Banco Mundial, e que em Dezembro de 1975 constatavam, algo admirados, a boa performance relativa da economia portuguesa numa conjuntura mundial difícil. O tema é susceptível de debate e nele são admissíveis as mais variadas posições, bem entendido. O que deixa cansada qualquer pessoa razoável é esta insistência, quase religiosa e para lá de todos os limites, de que a economia portuguesa colapsou porque o socialismo é uma utopia ruínosa. Até pode ser. Mas nada há na revolução portuguesa que o tenha provado. Repeti-lo até à exaustão não o tornará verdade. Apesar da facilidade com que entra em cena, preenche ecrâns (todos os ecrâns) e escreve editoriais (todos os editoriais) a direita vai ter que trabalhar mais. Bem sei que não estão habituados. Mas há que começar por algum lado.

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22 thoughts on “O impasse reaccionário

  1. Não tenho a certeza de que Pacheco Pereira mereça uma réplica tão brilhante… De todo o modo, aqui ficam os meus parabéns!

  2. Caro Rick –
    Apenas o seguinte;”o que passou despercebido à equipa de economistas do MIT que se deslocaram a Portugal a pedido do Banco Mundial, e que em Dezembro de 1975″…leu!?
    Ocorre que apesar de…consumiu-se (como se diz). É uma óde aos que pouparam, antes, (os excedentes) para mais de três invernos (veja lá quem é o responsável por isto- sabendo isto: A entrada de divisas era menor e inexpessiva e as importações aumentaram – Produziu-se menos, vendeu-se menos mas consumiu-se mais.
    “economia portuguesa colapsou porque o socialismo é uma utopia ruínosa” a conlusão é sua, mas, e bastando o mesmo documento que aqui invoca “…déficits da balança comercial de 6%, quebra das exportações… quebra do rendimento….quebra do investimento…”
    Há para aí, neste seu post, mais umas pérolas,mas…e como o vêm assim a medo é deixá-las lá sossegadas que ainda rendem juro.
    Quanto ao “sem que alguma vez se tenha percebido ao certo o que tudo aquilo tinha que ver com o comunismo.” verdadeiramente é o quÊ!??!
    Cumps.

  3. Boa e interessante resposta ao texto do Pacheco Pereira. Eu próprio já tinha começado a alinhavar umas linhas no meublog, simplesmente deu-me a moleza e ainda não publiquei a segunda parte. Quanto à referência a Rosa Luxemburgo penso que Pacheco Pereira se refere ao livro da Rosa “Reforma e Revolução e à ideia, que ela critica, de Eduard Bernstein de que o movimento é tudo e a finalidade nada.

  4. Justiniano,
    as coisas são simples de compreender. Havia uma crise mundial e evidentemente a economia portuguesa sentiu o impacto da mesma. Cito-lhe Fernando Ulrich, nas páginas do Expresso, em Agosto de 1974, antes das nacionalizações (à época até o Banco de Portugal era uma instituição formalmente privada):”Afirmar que «o patronato joga com dificuldades económicas inexistentes» é passar por ignorante. E não era preciso, bastava atribuir a esse mesmo patronato grande parte da responsabilidade pela situação a que se chegou, que é realmente grave, e não tem nada a ver com o 25 de Abril.
    Quer dizer, se não tivesse surgido o 25 de Abril, a crise surgiria na mesma, mais mês menos mês. O 25 de Abril, se contribuiu para alguma coisa, foi para a criação de oportunidades para resolver alguns problemas.”
    Penso que é fácil de vêr que a revolução não provocou uma crise, mas antes teve de se confrontar com uma crise. O que se salienta na entrevista é que, em termos comparativos com outros países, a economia portuguesa não se saiu assim tão mal. Percebo o seu ponto de vista. Se não se consumisse nada, as importações não cresciam e a balança comercial ficava equilibrada. A longo prazo estaríamos todos mortos, mas a economia teria uma performance invejável. São pontos de vista. Evidentemente que eu acho que Silva Lopes, João Cravinho, Mário Murteira, Jacinto Nunes e outras pessoas viram a coisa melhor. Convido-o a ler o relatório do C. de Administração do Banco de Portugal relativo ao ano de 1975.
    O seu raciocínio tem ainda outras fragilidades. Nos anos seguintes a performance da economia portuguesa continuou a oscilar ao sabor das conjunturas mundiais, mesmo sem revolução, até hoje. E a balança comercial era já largamente deficitária antes do 25 de abril, sendo o seu desequilíbrio compensado pelo que se chamavam os «invisíveis correntes», ou seja, as remessas dos emigrantes, as receitas do turismo e algumas receitas relacionadas com os transportes em Angola e Moçambique. No fundo o que equilibrava uma balança comercial típica de um país subdesenvolvido eram alguns dos seus principais factores de subdesenvolvimento. E desse círculo vicioso não se saía.
    Você dá a entender que alguém(presumivelmente o presidente do conselho) fez de formiguinha e poupou para as cigarras fazerem a festa. Portugal como um gigantesco formigueiro às ordens da rainha mãe. Eis uma imagem loquaz. Felizmente a formiga no carreiro vinha em sentido diferente.

  5. Olhem no que acaba uma discusão politica, são telemoveis e touradas em Salvaterra.
    Mas o que querem , é disto que os jornais e os politicos do centrão PS-PSD , com o apoio do Paulo Portas, gostam.
    Debates a sério não querem, discusão sobre o que fizeram no governo, fogem a sete pés.
    Já agora o Programa do Bloco é publico, está na net há muito tempo ,e editado em livro há mais de 3 semanas.
    Sobre telemoveis, não fala em taxar os telemoveis individuais, fala sim em controlar o regabofe de empresas que pagam rendas de casa, leasing de carros telemoveis á fartazana, para administradores, e levam isso tudo a custos das empresas, uma forma hábil de fugir ao fisco.
    Em Salvaterra haverá corridas de touros por muitos e bons anos , assim o espero, e as empresas organizadoras de touradas na terra, tenham meios para as organizar,agora a Camara de Salvaterra não subsidia nem apoia com dinheiros publicos os espectaculos, é só isso.
    Quem proibiu touradas , foi a Camara de Viana do Castelo de maioria socialista.

  6. de qualquer forma se a autarquia desse apoio não era incoerente: no programa do bloco não se defende o fim das touradas, apenas as de morte e de vara. só mais um passo atrás…

  7. Caro Jorge,
    tarefas de fim de semana e uma entorse não me permitiram reler imediatamente «Reforma ou revolução»(Editorial Estampa, Lisboa, 1970), cuja edição em minha posse, aliás, está a cair aos bocados.
    Feita a releitura, permanece a estupidez ululante de Pacheco Pereira. A oposição entre movimento e objectivo final é, como se sabe, estabelecida por Bernstein em «Requisitos do Socialismo e tarefas da Social-democracia». Ora Rosa Luxemburgo, muito claramente, critica não apenas as conclusões de Bernstein como as suas premissas, nomeadamente a separação anti-dialética entre movimento e objectivo. Não era sequer preciso ler o livro todo. Já no prefácio Rosa afirma que a oposição do título «Reforma ou revolução» é falsa: “Entre a reforma social e a revolução, a social-democracia vê um elo indissolúvel: a luta pela reforma social é o meio, a revolução social o fim.”
    Mais à frente (p.119) di-lo com a clareza suficiente para que um «historiador do comunismo» não se possa dar ao luxo de a ignorar: “Reunir a grande massa popular polarizada por objectivos situados para lá da ordem estabelecida, aliar a luta quotidiana com o projecto glorioso de uma reforma do mundo, é o problema que se põe ao movimento socialista e que deve nortear a sua evolução e progressão, é o cuidado em evitar dois escolhos: não deve sacrificar nem o carácter do movimento de massa, nem o objectivo final; deve evitar simultaneamente fechar-se numa seita e transformar-se num movimento reformista burguês; tem que se defender, ao mesmo tempo, do anarquismo e do oportunismo.”
    Penso que o sentido é claro e não autoriza uma citação que sustente a oposição entre «movimento» e «objectivo».
    O problema de anti-comunistas como Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes e outros arrependidos, é que beberam de tal maneira de uma concepção estalinista do comunismo (feito de hierarquias rigorosas e policiamentos mentais constantes) que não admitem outras e chegam quase a denunciá-las como «desvios». Percebe-se que lidem mal com a liberdade, que outros se atribuem, de recolocar a questão comunista noutros termos e num sentido radicalmente diferente. É uma liberdade que eles nunca ousaram reivindicar para si e daí o tom amargo com que escrevem sobre estas coisas.

  8. Rick –
    No caso seria mais “A curto prazo estaríamos todos mortos portanto é preferível que a longo prazo outros morram por nós”—
    De todo, não irei fazer a defesa da velha senhora(porque não quero, não posso e nem devo por outras razões que não as suas.)
    O meu comentário serviu apenas de ressalva ao delírio não fosse o Rick apregoar o milagre económico do PREC (Afinal foi a crise mas mesmo com a crise…- isto parece Socretismo retroactivo)-
    Quanto aos dados macro dos anos 72 a 77 deverá reve-los com apoio de literatura do BP (especialmente a parte das reservas do tesouro, reservas cambiais do sistema e a reserva ouro)
    O problema não está nos deficits da balança comercial (que não, não era deficitária no outro regime…facto insofismável) que se admitem, e que podem ser saudavelmente deficitários desde que dentro de certos pressupostos.

  9. Justiniano,
    ninguém falou de um milagre económico do PREC nem esteve perto disso. Limitei-me a escrever que o mito de um processo revolucionário que arruinou a economia e de nacionalizações com impacto desastroso é apenas isso, um mito. Pensei que Fernando Ulrich chegaria para lhe fazer ver que havia uma crise económica antes do 25 de abril. Mas percebo que se agarre aos seus preconceitos como um náufrago a um pedaço de madeira. É tudo aquilo que lhe resta.
    As reservas foram empregues para manter a economia à tona de água. Mas não todas, porque uma parte serviria mais tarde de garantia para um empréstimo do FMI e para outras dívidas que o governo de Mário Soares contraiu, usando a banca nacionalizada.
    Por certo não ignora que o que se fez com o sector público da economia não era inevitável e havia outros rumos a dar-lhe. Bons investimentos das reservas – em tecnologia e formação científica, por exemplo – teriam assumido um impacto mais positivo no PIB do que ajustamentos pelos salários através da desvalorização do escudo. Um plano económico que desse coerência ao sector também nunca chegou a ser concretizado.
    Estranhamente, tanto o PS como a AD preferiram gerir empresas públicas como se fossem privadas, limitando-se a distribuir cargos nas respectivas administrações. Ainda assim, dou-lhe um prémio se me souber dizer em quantas empresas estava retalhado o sector da eletricidade (produção e distribuição)antes da sua nacionalização e quanto é que isso custava aos consumidores. A quantidade de aldeias que passou a ter luz graças à EDP diz bem o quão racional foi a nacionalização do sector. O mesmo para os combustíveis, por exemplo.
    Quanto à balança comercial, também penso ter sido claro: o valor das importações era mais alto do que o das exportações, antes do 25 de Abril como depois do 25 de Abril. A diferença era compensada por remessas de emigrantes, receitas de turismo e fretes de transporte em África, que evidentemente sofreram uma quebra com a crise mundial e a descolonização. Devolvo portanto a remissão para a literatura do Banco de Portugal.
    Ficamos sem saber o que teria feito o sr. numa conjuntura semelhante.

  10. Caro amigo
    Não exigia tanto de ti. Não valia a pena ires ler o livro, só pretendia chamar a atenção de que aquilo a que Pacheco Pereira se referia era a este livro e à distinção feita por Bernstein, que, como tu demonstras, a Rosa critica, entre “movimento” e “fim”. Posteriormente, já publiquei a II parte do artigo que tinha escrito no meu blog. Como nestes comentários vocês interditaram a possibilidade de linkagem, não pude referir o sítio a onde o escrevi. É no Trix-Nitrix.
    Quanto aos exemplos, que Pacheco Pereira dá dessa intervenção da Rosa Luxemburgo são todos um disparate pegado. Eu próprio digo no meu artigo que se levássemos Pacheco Pereira a sério ainda poderíamos discutir as suas referências históricas. Mas para mim o texto dele não merece tanta cera e só pode ser encarado no campo da ofensiva anti comunista contra o Bloco e o PCP.

  11. Estando de acordo, no geral, com as considerações de Rick,acho que não se deve equiparar uma economia socialista com uma economia capitalista. É certo que em Portugal nunca houve uma economia socialista, pela simples razão de que os trabalhadores não chegaram a derrubar a burguesia e se apoderaram do poder. Mas mesmo o sistema de nacionalizações que o movimento social impôs não pode ser analisado pelo prisma: mais rentável ou menos rentável, comparado com o sistema de propriedade privada pura e dura. Na fase do processo revolucionário em que o sistema burguês esteve paralisado os resultados económicos eram secundários. A sua paralização para posterior destruição ( que não se chegou a verificar) iria originar resultados negativos, quando lidos à luz da rentabilidade capitalista.
    O que era importante não era o resultado económico e financeiro. O essencial era caminhar para a destruição da lógica da economia de mercado e que os trabalhadores começassem a construir uma economia colectiva.
    Manuel Monteiro

  12. Rick – Está a querer fazer uma colagem do meu comentário.(já lhe disse que não me vai obrigar a defender a velha senhora e nada me diz Ulrich que a si tanto diz)(Onde está a dúvida acerca da crise económica internacional à época!!?? Há manuais sobre isso)
    Também não disse que o Rick disse, mas apenas que em crescendo o não fosse dizer(o contexto, do post, para isso o empurrava.)
    Algo simples. A política de investimento público em infraestruturas que vinha já dos anos 60 não tem oposição. O problema reside na tentativa abstrusa de criar rendimento sem produção (Esse foi o problema económico do PREC e ao mesmo tempo programa político)enriquecer abstraindo da produção de riqueza, o que usualmente tem a consequencia inversa de empobrecer. (porque sim, já e tem de ser.)
    Rick, assim de repente, lembro-me da CPPE e da HICA (havia muitas mais, sei) mas esta parece ser a sua “que se agarre aos seus preconceitos como um náufrago a um pedaço de madeira”, nunca fui contra a nacionalização do sector energia, financeiro, comunicações e petroquímica(quanto à siderurgia tenho algumas dúvidas, quanto às restantes não tenho dúvidas nenhumas).

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