O impasse reaccionário #2


Continuando a revista de imprensa, e adoptando uma distância temporal prudente, chego a Vasco Pulido Valente. O tema são as classes sociais, abordadas em artigo de opinião no «Público» na 6ª feira passada (11 de Setembro, infelizmente não encontro versão on-line), intitulado «Existem classes?». O tema é-me caro e, embora esteja no centro de grande parte do debate político, quase nunca é abordado de forma explícita. Pulido, esteio indómito do liberalismo «bacalhau com batatas», decidiu iluminar o caminho e encarar de frente o elefante escondido na sala.

Uma coluna tão curta tem pouco espaço para disparates, mas pode dizer-se que o nosso colunista concretizou um pequeno milagre logístico. São poucas as frases onde não se diz pelo menos uma parvoíce. “Há por aí um movimento para a reabilitação de Marx para encontrar uma espécie de «teoria» de esquerda.” Já se sabia que este é um tema que acentua particularmente a miopia intelectual de Vasco, mas falar de reabilitação (e porque não desintoxicação?), como se tivesse havido uma condenação, revela uma espécie de patologia genética dos liberais portugueses – é frequente pretenderem colocar um tribunal onde faz falta uma tribuna.
Melhor seria que Pulido fizesse algum jus ao seu título de «intelectual» e se interrogasse acerca da falta de obras de Marx traduzidas em português (desde logo os Livros II e III de «O Capital»), que sem dúvida teriam o mérito de lhe permitir demonstrar-nos – irrefutavelmente, como é seu apanágio – a sua nocividade. Adiante.
Pulido Valente despreza a esquerda quase tanto como o rigor, o que confere às suas crónicas uma intrigante combinação entre reaccionarismo e esoterismo. Já tentei, mas continuo sem entender o que pode querer dizer esta frase: “A condenação do «neoliberalismo» precisa de um contraponto e ninguém sabe onde o ir buscar – embora o que impropriamente se chama «neocapitalismo» não passe de uma hipótese (muito limitada) sobre a relação entre os valores de bolsa e a economia real e Marx e os «marxismos» se pretendam uma interpretação da história.”

Percebo o uso do termo «condenação», porque do ponto de vista táctico lhe interessa encostar a crítica do capitalismo a uma posição moral semelhante à do Vaticano, uma espécie de lamento beato misturado com uma diatribe contra a ganância. Acontece que que Marx nunca «condenou» o capitalismo, assim como quem lamenta que o dinheiro esteja mal distribuído e nunca chegue para todos. Marx procurou demonstrar os mecanismos do seu funcionamento e os limites internos do seu desenvolvimento, de maneira a inscrever a luta política no seu contexto histórico e dotá-la de objectivos e horizontes que ultrapassassem a miragem do progresso.
A parte positiva da afirmação de Pulido Valente – que distingue uma «economia real» de outra fictícia – remete para o seu entendimento destas coisas, que é pobre e, na melhor das hipóteses, está ao nível de um assessor de imprensa do primeiro-ministro. Aos seus olhos, a economia é uma espécie de processo natural – no mesmo plano que a fotossíntesse, o degelo primaveril ou a rotação dos astros – que de quando em vez se vê corrompido pela artificialidade da vontade humana. Isso das relações sociais (como outras coisas demasiado complicadas para a sua cabecinha) parece-lhe um truque esquerdista, que vem inserir complexidade onde ele pretenderia existirem apenas as coisas, tal como elas são. A sua frase não faz qualquer sentido porque a interpretação da história que Marx se propôs efectuar não exclui o significado e o funcionamento dos valores bolsistas, como não exclui todas as outras coisas que pertencem ao devir histórico. Mais poeticamente e citando o próprio (que citava não sei quem), nada do que é humano lhe é estranho.

Percebe-se que ele não queira entrar por caminhos que lhe seriam difíceis – Marx – e que reproduza, sem se dar conta, os lugares comuns de um dos seus adversários políticos e intelectuais – o inenarrável Proudhon.
A questão é simples e resume-se em poucas frases. O modo de produção capitalista compõe um todo orgânico, assumindo o capital diferentes formas ao longo do seu processo de circulação, formas essas que não se contrapõem mas antes desempenham funções essenciais para a sua reprodução alargada. A história que Marx pretendeu interpretar foi a do processo de desenvolvimento e afirmação do capita enquanto relação social dominante. A relação entre os valores de bolsa e a «economia real» inscreve-se por isso num processo histórico de crescente abstracção do trabalho e de gigantesca acumulação do capital. Tudo isso é economia sem deixar de ser bastante real.
O confronto com Marx continua e pode-se dizer que o resultado é quase sempre o mesmo. Mais um exemplo: “Para começar, convém esclarecer que Marx nunca definiu o que fosse uma «classe». Nem ele nem Engels, nem Lenine, nem depois ninguém.” Nunca ninguém definiu o que fosse uma «classe». Notem bem, não lhe chegou Marx. «Ninguém». Mesmo assim, categórico e definitivo, ninguém, como dizia Marco Paulo, poderá mudar o mundo. Desconheço se Pulido Valente se refere ao tipo de definição que se encontra em dicionários e enciclopédias, esses sucedâneos apressados do saber. Se assim é as suas formulações contradizem-se de cada vez que muda de parágrafo, uma vez que a definição avançada por Marx para caracterizar as classes sociais resulta, precisamente, de uma interpretação histórica. As classes sociais existem na e através da acção histórica, escapando por isso a qualquer definição estática e intemporal para assumirem propriedades dinâmicas próprias de conjuntos de indivíduos, vivos e atuantes, dotados de intenções, desejos, valores e conhecimentos historicamente variáveis. Diz Marx: “E na mesma medida em que se desenvolve a burguesia, isto é o capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos modernos operários, os quais vivem só enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto o seu trabalho aumentar o capital. Estes operários, que têm de se vender a retalho, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio e estão, assim, igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência e a todas as flutuações do mercado.” (Manifesto do Partido Comunista, Ed. Avante, Lisboa, 1975, p.67) Pois é. Nem Marx nem ninguém. Pode-se evidentemente argumentar que muito mudou desde a data original de redacção deste texto, no já longínquo ano de 1847. A definição em todo o caso está lá e nem é assim tão difícil de compreender. De resto, mudou tudo, mas não mudou grande coisa.

Vasco Pulido Valente não esconde a sua nostalgia de um tempo em que se ouviam os martelos a bater em bigornas ou as varinas a apregoar o peixe na rua. O capitalismo tardio parece-lhe demasiado virtual, semiótico e codificado para ser real. Esta espécie de sociologia vulgar que povoa o seu artigo, resulta logicamente da confusão que lhe provocam os tempos que correm: “Se no século XIX e na primeira metade do século XX, a sociedade permitia ver a olho nu as diferenças de posição entre, por exemplo, um operário, um médico e o dono de uma grande empresa, a partir de 1980-1990 uma sociedade mais complexa criou uma graduação contínua, em que é difícil distinguir um grupo fixo ou uma hierarquia clara.” Mais um tiro no porta-aviões. Gostaria de salientar os pontos fortes da frase. A meu ver, nada clarifica a imbecilidade que o move quanto estas duas expressões – «ver a olho nu» e «é difícil distinguir». Dantes o tempo corria lento e distinguia-se a olho nu um médico a passear na rua, o que certamente tinha a inestimável vantagem de permitir diagnósticos em tempo real e uma significativa redução das listas de espera. Agora é difícil distinguir um taxista de um historiador, mesmo que se perca muito tempo a comparar o tipo de argumentação que desenvolvem nas páginas de um diário de referência. Percebo a angústia de Valente, os bárbaros estão às portas da cidade.

O que nos fica daqui? A constatação de que a sociedade é mais complexa hoje do que era há 50 anos não é propriamente o segredo mais valioso do nosso tempo, embora haja a esse propósito literatura mais informada e fiável do que a última página do «Público». O argumento forte a favor da existência de classes sociais distintas – ocupando posições diferentes no processo produtivo e na distribuição de poder e rendimentos, portadoras de vivências e comportamentos diferenciados – nunca foi a simplicidade ou o pudim que Engels comia à sobremesa.
A chave está na frase de Marx acima colocada. Como olhar para os desempregados, cujas fábricas fecham a toda a hora, senão como pessoas que têm de se vender a retalho, que são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio e estão, assim, igualmente sujeitas a todas as vicissitudes da concorrência e a todas as flutuações do mercado? A esse propósito, mudou tudo, mas não mudou grande coisa.
A exegese poderia continuar, mas o resto do artigo limita-se a tomar como conclusão o que já era o seu ponto de partida: não há classes, mas apenas contribuintes, trabalhadores e desempregados; o debate político é essencialmente técnico porque o regime não está em causa.

Aqui chegado gostaria de me deter sobre o que, esmiuçado, pretende Pulido Valente com a sua negação das classes sociais. Escondida e latente na sua prosa está a ideiade que existem no fundo apenas três camadas ou grupos sociais : os ricos, os pobres e a «classe média». Os dois primeiros são facilmente identificáveis. Ou estão em bailes de debutantes ou vivem num estado de indigência a comer batatas fritas e a ver reality shows. Dão esmola ou pedem esmola.
Já a classe média é tudo aquilo que escapa a essa moderna economia da dádiva. Todos os que obtêm rendimentos para usufruir de algo mais do que o minimamente essencial à sobrevivência. Todos os que recebem algum tipo de instrução média ou superior, acedem à propriedade ou são «alguém» na vida. No fundo todos aqueles com quem se pode razoavemente conversar, que usam talheres à mesa e comem de boca fechada. No limite, a classe média define-se pelo seu consumo e divide-se pelas categorias do Marketing.
O primeiro corolário desta sociologia é, logicamente, o de que não há qualquer antagonismo e de que nada justifica ou explica o conflito social – um espécie de excrescência anti-democrática – a não ser o activismo militante de uma minoria fanática, invejosa e arrivista. Na prática, a porta que se fecha à teoria e investigação social é uma janela que se abre à interpretação psicológica, todos os comportamentos e gestos resultam das motivações mais básicas e primitivas, todos os personagens são descritos à luz de uma condição humana que não se distingue muito do estado natural. Não estamos longe de Tatcher, que desconhecia o que fosse a sociedade porque apenas conhecia indivíduos e as suas familias.

O outro corolário é directamente político. Se integram a classe média todos aqueles que conseguem levar o seu percurso escolar para lá do elementar, acedendo a categorias do saber tradicionalmente reservadas às elites, então a possibilidade desse saber se ver disputado a partir de uma posição crítica, a formulação de um ponto de vista de classe acerca da sociedade de classes, que ambicione mudar tudo, romper com a ordem estabelecida, subverter o presente, moldar um futuro diferente, essa possibilidade, dizia, vê-se como que esconjurada pela categoria normalizadora de «classe média». São os descontentes da «classe média» que manipulam os pobres a revoltar-se, porque a «classe média» encerra em si todas as qualidades e capacidades, incluindo a da revolta. E esses pobres, por sua vez, não ambicionam senão juntar-se à «classe média». São uma espécie de massa amorfa desprovida de inteligência ou objectivos próprios, qualquer coisa que está entre o reino animal e um autómato que cumpre o que lhe é ordenado.
É reconfortante pensar assim e, num tempo de crise, Vasco Pulido Valente sabe que as pessoas «respeitáveis» (ou seja, a camada superior da «classe média» e as grandes fortunas, numa palavra, as «elites») precisam de conforto. A sua última frase destingue-se no artigo pela sua involuntária lucidez, com um tom quase premonitório. Diz ele: “Se existissem «classes», como julga Jerónimo de Sousa, ele não perderia um minuto a discutir com Ferreira Leite o investimento público ou o défice do Estado, pela razão simples de que Portugal e a Europa estariam perto de uma sublevação.”
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Profecias menos arriscadas fizeram questão de se concretizar e aqui Pulido Valente arrisca-se a ocupar um lugar de destaque, entre Maya e o Professor Zandinga. A olho nu não se consegue ver as toupeiras a escavar. O desmentido da sua tese pode assumir a forma dos seus piores pesadelos e, quando a sublevação bater à porta, Pulido Valente clamará contra o «delírio», como o fizeram reacccionários mais inteligentes antes dele. Descobrirá a «classe média» inexplicavelmente partida ao meio, como acontece sempre que as fracturas se agudizam e as classes sociais efectivamente existentes fazem questão de surgir em cena para anunciar o fim do espectáculo. Nesse momento, Jerónimo de Sousa parecer-lhe-á o mais razoável dos democratas e o mais capaz representante da «classe média».
Para uivarem à morte, os cães de guarda unem-se.

20 thoughts on “O impasse reaccionário #2

  1. Meu Deus…Tanto esforço!
    A classe para Vasco Pulido Valente é uma questão de “Style”: Ou se tem ( ele)ou não se tem (todos os outros presentes e passados.

  2. Uma pequena informação: O Manifesto do Partido Comunista é de 1848.
    Presumo que quando se refere a edições em português de O Capital queria dizer edições portuguesas.
    Edições completas de O Capital em português, publicadas no Brasil, existem há quase 40 anos (a da Civilização Brasileira, 1968-1971, vai já em duas dezenas de edições, e a da Difel, mais recente, conta também algumas edições).
    Em Portugal há apenas uma edição apresentada como completa de O Capital (Edições Delfos). E as Edições Avante apenas agora publicaram um primeiro tomo do Livro II. Não ter existido mercado para que entre nós tivesse já sido publicada uma edição completa é revelador do interesse que os chamados marxistas têm pela obra do Marx. Parecem marxistas de cartilha, que conhecem do Marx as vulgaridades dos catecismos.
    A análise das classes sociais e o seu papel na construção e na transformação social, assim como as análises sobre o funcionamento do capitalismo, não se esgotam com o Marx. A crítica da economia política do Marx é fundamentalmente errada, e o mesmo acontece com o seu esboço duma teoria da revolução social. O que não invalida o seu papel pioneiro e o mérito das suas tentativas de arranjar explicações plausíveis para estas questões.
    Mesmo quem tenha chegado às teorias do Marx, o que não parece ser o seu caso, não deve ficar-se por aí. Eventualmente, há muitos anos, o VPV leu alguma coisa do Marx. Hoje, esqueceu ou rejeitou o que então reteve. Mas a sua apologia do Marx face às críticas do VPV, contudo, é muito fraquita, baseada em lugares comuns do mesmo nível dos do VPV.
    JMC.

  3. Caro José Manuel Correia,
    desculpará o meu eurocentrismo, mas não costumo apreciar traduções brasileiras (com todo o respeito pelos comunistas brasileitos) de textos clássicos e referia-me a edições feitas em português de portugal. Não conheço a da Difel mas a da Civilização chegou-me por via familiar (foi a primeira a circular em Portugal) e não me agradou.
    Não conheço ainda a edição do II livro pelas edições avante (que são um pouco secas, mas bastante cuidadas). Infelizmente, vejo-me obrigado a ler Marx na edição inglesa, francesa e italiana (no que a «O Capital» diz respeito). E cá se vai andando.
    Quanto ao resto, obrigado pelo fraquito (“muito fraquito” aliás). Compreenderá por certo que a sua apreciação não me deixa convencido. Como dizia Kurt Cobain, it’s all apologias.
    O seu blog indicia pouca vida própria, o que é preocupante, até num anti-comunista. Não gaste tanto tempo, outros se ocuparam da tarefa que você tomou para si, com mais e melhor material, com os resultados que se conhecem.
    O que você escreve parece não fazer qualquer sentido e fico-me por um exemplo, escolhido do texto que encima o seu blog: “Essa diferença de valor, portanto, não constitui um valor a mais que as novas mercadorias contenham, mas um valor a menos recebido pelos trabalhadores que as produziram.”
    Parece-lhe realmente que este jogo de palavras desmonta a teoria de Marx acerca da mais-valia?
    Aproveite para folhear as várias edições de «O Capital» em sua posse e escolha a sua citação preferida.
    Um abraço sentido (apareça na nossa festa de aniversário, Almada está apenas a um cacilheiro de distância).

  4. Queria apenas deixar uma nota de rodapé a um post certeiro, que lança umas boas pistas para uma discussão que vai muito para lá da pobreza teórica de Vasco Pulido Valente: por um lado, sobre os não muito disfarçados mecanismos ideológicos que sustentam a exclusão de alternativas políticas (e a esse propósito a ideia de que se fecha o campo social para se poder esmiuçar normativamente as profundezas do psicológico é determinante) e, por outro, sobre a articulação entre as dimensões económica e política – para usar uma fórmula ortodoxa, como se passa de uma classe-em-si para uma classe-para-si. A classe média é desde há muito ‘a classe que não quer ser nomeada’, na fórmula de Barthes em Mitologias. A melhor maneira de não ser nomeada – enquanto classe propriamente dita, ou seja, entendida enquanto conceito relacional, antagónico – é passar-se por universal. Seja como for, Vasco Pulido Valente faz-nos um jeitinho quando escreve, pois cada uma das suas linhas é um sintoma agudo daquilo que à superfície parece negar – a existência de classes, os interesses da ‘classe média’ e o antagonismo que a sustenta (mesmo que apresentado em versão mansa, desde que ande tudo na linha). Não são precisos grandes requintes hermenêuticos nem muita escola política para se perceber o quanto é uma voz desses mesmos interesses. Dito isto, talvez a classe que se opõe à ‘classe média’ não exista o suficiente, ou seja, há um grande trabalho de tradução do económico para o político que é preciso ir fazendo. Ou melhor, que se vai fazendo, que as pessoas vão fazendo – e não são precisos tradutores profissionais que interpretem as vontades do povo e as convertam em programa. Mas o mínimo necessário é um esforço de desmontagem dos falsos universais (‘classe média’ etc), a par de uma construção continuada de identidades políticas colectivas. Não há dúvida que o processo eleitoral, que traz as suas próprias universalizações apressadas ou estratégicas (os portugueses, os eleitores) suspende em parte o esforço desta construção, pelo menos no discurso dos políticos de esquerda.
    E como suplemento cómico, o famoso sketch, com John Cleese, sobre as classes sociais:

  5. Ia deixando passar. O Manifesto do Partido comunista foi apresentado no congresso realizado pela Liga dos Comunistas (ex-liga dos justos) em Londres, no Outono de 1847. A sua publicação data de Fevereiro de 1848, mas a sua redacção é anterior.
    A esse propósito ler «A Teoria da Revolução no Jovem Marx». Petrópolis: Vozes, 2002. (Col. Zero à Esquerda), de Michael Löwy.

  6. O que ninguém diz foi que perdemos os sábios comentários deste senhor no Jornal da TVI. Toda a gente fala na Moura Guedes, mas e o comentador Pulido Valente? Nem uma vigiliazinha por ele?

  7. Rick – Um bom Post.(Excelente na medida em que decompoe uma espécie de fim da história ou mesmo a tentativa de não querer ver a permanencia dos fenómenos quando estes se disfarçam em formas aparentemente complexas)
    Mas, no fundo, uma vez mais, refugias-te no meramente recognitivo (Nesse tocante tanto poderias estar a mencionar Marx como A. Smith ou D. Ricardo) neutro, analítico e objectivamente válido.
    Apreciando o teu post (-repito, de valor-) não revemos Marxismo mas antes uma espécie de refúgio na “ciencia”, sem compromisso – sintomático “Marx procurou demonstrar os mecanismos do seu funcionamento e os limites internos do seu desenvolvimento, de maneira a inscrever a luta política no seu contexto histórico e dotá-la de objectivos e horizontes que ultrapassassem a miragem do progresso.”, A. Smith e D. Ricardo também e mais tarde muitos mais.
    Ou seja o Rick, dando em parte razão ao VPV, reabilita a neutralidade marxista mas sem Marxismo.
    O Rick também vê o Marxismo abstraindo da sua institucionalização na história do sec. XX ou seja sem a densificação Leninista ou Maoista…!!???

  8. Rick.
    Pareceu-me, assim ao de leve, que você se referiria a português de Portugal. Mas foi recorrendo às edições brasileiras que muitos marxistas portugueses conheceram O Capital. As traduções das edições brasileiras referidas são boas; você não sairia defraudado se lesse qualquer delas. Recomendo-lhe a do Reginaldo Santana; é suficientemente boa para compreender um pouco das concepções do Marx. O sucesso desta tradução faz com que já vá numa vintena de edições; e até arranjou leitores para uma reimpressão feita aqui, ainda antes do 25 de Abril.
    Desculpe-me se o qualificativo de “fraquito” o ofendeu; poderia ter qualificado o seu texto de fraco, mas, que quer? São vícios de linguagem de gente do Sul. A intenção não era ofendê-lo, nem convencê-lo. Ofender não está nos meus hábitos, e sei que é difícil convencer convencidos; crentes é mais difícil; e fiéis, que não parece ser o seu caso, é praticamente impossível. Tarefa inglória para quem tenha tal pretensão. Causa um certo desconforto ver tanta gente a invocar a obra do Marx sem conhecê-la, daí o reparo.
    Sou fraco blogger, como você bem notou. Esforço-me por lá colocar um texto ou um pequeno apontamento pelo menos uma vez por mês, mas nem essa irrisória regularidade consigo manter; umas vezes por esquecimento, outras por falta de veia. E também não me tenho em grande conta como anti-comunista nem como anti-marxista; admito ser mesmo fraquito nesse campo. Mas, olhe, foi o que se pôde arranjar. O engenho não deu para mais, e custou uma trabalheira dos diabos.
    Tenho fraco apreço pelas citações, o que não parece ser o seu caso e de muito boa gente. Deixo-lhe esse encargo de procurar em O Capital as citações que mais lhe interessarem. Se tiver o Livro I à mão não lhe faltarão; nalguns capítulos tem tantas e boas que é mesmo cada cavadela sua minhoca. E no capítulo IX do Livro III tem também material interessante sobre o assunto em causa. É claro que para ser pescador é necessário saber cavar o isco. E, para não se sair burlado, tem de se saber distinguir entre o que custou pescar o peixe e a forma desigual como ele pode ser trocado pelas batatas com que quisermos acompanhá-lo no prato. Tem de se distinguir entre o valor das coisas e a forma como as pessoas as repartem.
    A citação que faz do meu texto não é qualquer jogo de palavras, e tem sentido. Se pensar um pouco mais, lendo-a uma vez e outra, e acompanhando a sua leitura com a do texto donde foi retirada e com a de outros textos em exposição, talvez compreenda o seu sentido. Um retalho é fraco indício para compreender a peça, embora esse até seja suficientemente elucidativo. Mas, como disse, terá de se esforçar por distinguir entre o valor das coisas e a relação quantitativa com que as pessoas as trocam.
    As teorias do Marx não se desmontam com jogos de palavras. Tenho a pretensão de as ter desmontado, no essencial, é claro, e não julgo ter recorrido a qualquer jogo de palavras. Não tenho qualquer certeza de que as minhas críticas sejam plausíveis; só a sua passagem pelo crivo da crítica lhe poderão conferir qualquer credibilidade. Mas nestas coisas da realidade social, que não se podem manipular no laboratório, não há outro modo de proceder a não ser pela crítica das interpretações alheias.
    Embora se trate do fundamento da revolução social ou da economia política, basta apenas um pouco de filosofia, pensar um pouco mais demoradamente acerca das coisas, da sua essência e das suas relações para se descobrirem os erros cometidos pelo Marx. Lá por usar o sarcasmo, a relação que mantenho com a obra do Marx é de grande apreço. Ter errado não é seu demérito; errar é próprio até dos grandes homens. Já o mesmo não digo dos marxistas, que mais não fazem do que papaguear os erros do Marx.
    O que melhor “desmonta a teoria de Marx acerca da mais-valia” é a sua própria invenção para explicá-la, a sua originalidade em relação aos economistas políticos clássicos: a “força de trabalho”, aquilo que designo por mercadoria mágica, a tal que teria o “dom”, o sortilégio, de fornecer mais valor do que o seu próprio valor. Se admitir que alguma coisa possa ter poderes tão extraordinários, estaremos conversados.
    Obrigado pelo interesse que lhe despertou o meu comentário, a ponto de ter ido visitar o blog. Não era intenção. Raramente comento em blogs ou o faço remetendo para o meu, mas botar comentário no seu só foi possível deixando o endereço da página pessoal. Obrigado também pelo amável convite.
    JMC.

  9. Desculparás Justiniano, mas não me refugiei em lado nenhum a não ser numa cadeira confortável. Não há nada de neutro ou meramente analítico na ultrapassagem do progresso e não conheço a parte da obra de Smith ou de Ricardo em que estes se dedicam a semelhantes propósitos.
    Eu não vejo nenhum «marxismo», apenas textos e mais textos, acontecimentos históricos e posições políticas que são demasiado complexos e contraditórios para caberem confortavelmente debaixo de um guarda chuva como esse. E no século XX houve densificações sem institucionalização, no campo dos oprimidos e sem prestar culto a quem quer que seja. Foi a luta de classes que gerou a teoria da luta de classes e não o contrário.

  10. Apenas sobre a querela relativa às traduções.
    O Rick Dangerous vai me desculpar, mas o reparo do post, em tom de sobranceria, de que O Capital nunca foi traduzido para Português, quando a realidade é claramente outra (como sublinha JMC) não é, nem nunca poderia ser, devido a “eurocentrismo”.
    Eu chamar-lhe-ia antes “provincianismo”, senão mesmo “boçalidade”.
    Precisamente o tipo de provincianismo e boçalidade que explica a importância que se da, em Portugal, a um VPV, que nunca fez nem escreveu nada de interessante na vida e vive ainda hoje da admiração pacovia que nutrimos por quem se foi doutorar ao estrangeiro…
    Falar de Marx no café, somos todos peritos nisso. Lê-lo, ou sequer procurar lê-lo, esta quieto !
    O post de Rick Dangerous (a que subscrevo no fundo) seria mais convincente se não caisse no mesmissimo erro que aponta a VPV.

  11. Oh João…
    Repito que comecei a ler uma edição brasileira de O Capital anterior ao 25 de Abril e que encontrei na estante do meu avô. Pareceu-me que, em caso de dúvida, o tradutor optou por inventar palavras que não integram a língua portuguesa, mas para as quais esta possui sinónimos adequados. É algo que encontro com alguma frequência em edições brasileiras (a Vozes, por exemplo, é uma excepção) e de que não gosto. São opções.
    Quis sublinhar que, apesar de Pulido Valente falar muitas vezes do «provincianismo português» e da inépcia do «marxismo», nunca lhe li um lamento pela inexistência de boas edições de uma obra fundamental como é «O Capital».
    Seria provinciano se, rejeitando uma tradução brasileira, eu desistisse de ler o texto. Só que não é o caso. Possuo exemplares em inglês e francês, para além de ter trabalhado com uma versão italiana francamente excelente. Assim sendo, não estou nem estive quieto e devolvo-lhe a boçalidade. Falarei de Marx no café, no estádio e na banheira, sempre que me apetecer e certamente não me faltará o fôlego para falar de outras coisas e temas.

  12. Rick – Um bom Post.(Excelente na medida em que decompoe uma espécie de fim da história ou mesmo a tentativa de não querer ver a permanencia dos fenómenos quando estes se disfarçam em formas aparentemente complexas)
    Mas, no fundo, uma vez mais, refugias-te no meramente recognitivo (Nesse tocante tanto poderias estar a mencionar Marx como A. Smith ou D. Ricardo) neutro, analítico e objectivamente válido.
    Apreciando o teu post (-repito, de valor-) não revemos Marxismo mas antes uma espécie de refúgio na “ciencia”, sem compromisso – sintomático “Marx procurou demonstrar os mecanismos do seu funcionamento e os limites internos do seu desenvolvimento, de maneira a inscrever a luta política no seu contexto histórico e dotá-la de objectivos e horizontes que ultrapassassem a miragem do progresso.”, A. Smith e D. Ricardo também e mais tarde muitos mais.
    Ou seja o Rick, dando em parte razão ao VPV, reabilita a neutralidade marxista mas sem Marxismo.
    O Rick também vê o Marxismo abstraindo da sua institucionalização na história do sec. XX ou seja sem a densificação Leninista ou Maoista…!!???

  13. Caro Rick,
    OK (vulgo zero mortos), vamos admitir que eu é que estava de mau humor…
    So uma pergunta : em termos estritamente marxistas, faz ou não faz diferença ler (logo pensar) Marx na lingua de contacto privilegiado com a realidade social mais proxima e com os camaradas de luta ?
    Mas ja sei que vou levar com uma resposta Trotskista…

  14. Rick – Continua sem o compromisso da normatividade. Não encontro nas suas palavras qualquer enunciado Marxista que seria a consequencia do Post (O que diz ao VPV, e a todos, é: Ora o Marxismo não está morto, tanto não está que a análise de Marx aos fenómenos da economia e à história podem ser actualisticamente interpretados (correcto) – continua válido) Isto não tem propósito algum e falta-lhe o enunciado normativo (esse que o VPV e o PP têm dito ser oculto e que o Rick continua a não revelar(nem sei porquê) – sem compromisso.)
    Quanto à ultrapassagem do progresso (Não referido no Post porque sabe o Rick que a história da humanidade encontra nos nossos dias a melhor síntese de justiça na distribuição de riqueza) não se pode ficar pela parte, de A.Smith, porque no todo não trata a sua obra de outra coisa(é esse evidentemente o sentido da sua obra)(A exegese marxista pode atestar o contributo de A. Smith).
    Por fim, a preferencia pelas densificações sem institucionalizações correspondem, exactamente, como lhe disse, ao “sem compromisso” como ideia base do discurso.
    Concordo plenamente com o “acontecimentos históricos e posições políticas que são demasiado complexos e contraditórios para caberem confortavelmente debaixo de “qualquer” guarda chuva, como esse.”
    Cumps

  15. Acho que vamos ter que criar um fórum para debater.
    Caro João, fico contente por lhe ter passado o mau humor. Desconheço o que sejam «termos estritamente marxistas» («estritamente»?), mas penso que seria desejável ter boas edições portuguesas de tudo o que se escreve e publica com um mínimo de interesse – de Marx a Omar Khayyam. O que é, exactamente, uma «resposta trotskista»?
    Justiniano, a sua ansiedade relativamente a enunciados normativos intriga-me. Estará porventura a referir-se a um programa político e ao objectivo da tomada do palácio de inverno?
    Se assim é lamento informá-lo de que o bolchevismo não está vivo nos nossos corações. Há já algum tempo que penso escrever algo como uma crítica comunista do leninismo, mas a verdade é que ando ocupado com outras coisas e isso tomar-me-ia um tempo precioso. Deixe o seu contacto e, assim haja oportunidade, será um dos primeiros a recebê-la.

  16. Rick –
    Pois é! A ausencia de normatividade angustia-me, dá-me fome e já se sabe que a fome gera ansiedade, mas não se intrigue que isto passa.
    Pena! Estava com esperança que lá chegásse antes do Inverno.
    Não faço a mínima ideia, nem tenho que fazer, claro está, doque seja essa coisa da crítica comunista do leninismo, mas boa sorte e venha ela.
    Cumprimentos cordiais,

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