Manda quem pode


A telenovela mexicana em curso teve o inestimável mérito de trazer à boca de cena personagens habitualmente discretos e que detêm um enorme poder na formação do espaço público em Portugal.
Ficamos a saber, por exemplo, que Luciano Alvarez, editor do jornal «Público», é, para além de venal, semi-analfabeto. Alguém se poderá sentir seguro com uma pessoa que tem como ferramenta profissional a linguagem e escreve coisas como «conseguir-mos» ou «que me pediu para não a contar a ninguém por enquento, mas que eu tenho que ta contar»? E já não estou a falar dos erros de acentuação e pontuação ou das gralhas tipográficas, para não ser mesquinho. Um e-mail, mesmo que secreto, não merece semelhante desprezo pela língua de Camões e do jornal «A Bola». Adiante.
Interessou-me por outro lado o tortuoso raciocínio de Belmiro de Azevedo, que tem o inquestionável mérito de falar claro. Ordena o patrão da SONAE ao seu jornal “que não se deixe assustar por opiniões um bocado desastradas de alguns governantes que querem mandar no Público sem pôr lá dinheiro nenhum.” E depois, para o caso de não ter sido claro o suficiente: “Não me importo nada que eles mandem, mas comprem o jornal.”
Já sabíamos que não existem almoços grátis, mas que o patrão dos patrões venha assumir assim, de forma tão descomplexada, que ter um jornal às suas ordens custa dinheiro, não deixa de ser surpreendente. Afinal de contas o que move Belmiro? Não lhe conhecemos tão generosa vocação filantrópica e temos dificuldades em imaginá-lo a fazer fortuna investindo em projectos que apenas trazem prejuízos.
A não ser que, na economia política do capitalismo tardio, o espesso manto de neblina com que diariamente a comunicação social cobre o real, seja lucro suficiente para um empresário dinâmico. Com investimentos e participações que se estendem a outras tantas áreas delicadas, onde a relação entre poder económico e poder político se revela problemática e pode significar a diferença entre uma OPA bem sucedida e um lote de acções inflacionadas, possuir um editor disponível para formular as perguntas que lhe são ditadas por uma assessor é um trunfo poderoso.
Se para mais nada, todas as aventuras e desventuras em torno da TVI e do «Público», mais as trocas de acusações de interferência empresarial nas respectivas linhas editoriais, trouxe ao de cima a densa teia de relações em torno da informação. Se os donos do mundo também são donos da informação, como acreditar que a opinião publica seja outra coisa senão o que mais convém à opinião privada?

4 thoughts on “Manda quem pode

  1. Duas notas:
    Há dias, JMF entrevistou o seu patrão em programa que foi também transmitido na RTP 2 e onde houve espaço para recados ao Governo PS. A JMF a quebra deontológica não se pôs.
    Há dias, salvo erro ao “i”, Joe Berardo afirmou preto no branco que o Público até podia dar prejuízo ao Belmiro, mas que dava jeito aos negócios ter um jornal

  2. Finalmente, Rick, estamos de acordo. Espero que todos tenham percebido, nas palavras subtis de um talhante como o Belmiro, que o Público vale cada euro de prejuízo que dá. Ou seja, ele assume que só aguenta o barco à tona porque serve os seus interesses.
    Quanto ao resto estou de acordo. Nem a merda de uns conspiradores decentes conseguimos arranjar. Por favor, queremos escândalos, qualquer-coisa-gate e gargantas fundas, no mínimo, com o 9º ano!

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