“Mimosas implicações eleitoralistas”

Ruben de Carvalho, vereador na Câmara Municipal de Lisboa, aproveitou o fim da contagem dos votos nas eleições autárquicas para dizer com coragem política o que pensa sobre o tema (“improvável”, como ele diz) das bicicletas na cidade.

O seu artigo de opinião no Expresso deste Sábado é taxativo: «É um erro absoluto pensar ou sequer insinuar que a bicicleta constitui mais do que um paliativo para o problema da mobilidade em Lisboa»
Este post não serve para dizer o óbvio. Que Ruben está errado. Que a bicicleta é um meio seguro, ecológico e eficaz para percorrer pequenas e médias distâncias na cidade; que não tem “relações tortuosas” com os corredores verdes (a que ele chama “Corredor Verde de Lisboa” (??) com maiúscula e tudo); que “os comerciantes” não devem ser o supra-sumo da consultoria nas questões da mobilidade, muito menos para um comunista; etc.
O post serve sobretudo para dizer o que já tinha dito numa caixa de comentários: Se acham que é tão “improvável” o tema das bicicletas, se é uma “inconsciência lançar no transito citadino” a bicicleta como meio de transporte, se é mau para o comércio, Plano Verde e tudo o mais, então porque é que têm exactamente o contrário nos seus programas eleitorais? E afinal, que moral tem Ruben de Carvalho para acusar de “eleitoralismo” quem quer que seja, em relação ao tema das bicicletas?

17 thoughts on ““Mimosas implicações eleitoralistas”

  1. Tendo em conta que a grande maioria do transito que circula em Lisboa é de gente que entra em Lisboa para vir trabalhar, muitos inclusivé da margem sul, como é que as bicicletas são uma solução para os problemas de trânsito que afligem a cidade?
    Não lhe parece que será muito mais importante uma rede concertada de transportes públicos, controlados por uma autoridade metropolitana de transporte que obrigue a uma concertação entre as diveresas empresas?

  2. Concordo que os transportes públicos são importantíssimos e que há muitas melhorias e investimentos a fazer nessa área.
    De qualquer forma não basta dizer que os TP são maus e que enquanto não houver uma aposta mais forte, não há nada a fazer. Existem multiplas políticas que se podem e devem implementar para melhorar a mobilidade e acessibilidade dos cidadãos, para reduzir a poluição e aumentar a qualidade de vida. Muitas delas, estão mesmo na mão dos municípios (ao contrário dos TP em Lisboa :\). Uma delas é o incentivo à utilização de bicicletas nas deslocações dentro da cidade (quer para residentes, quer para pessoas que venham de fora).
    Isto está no programa da CDU. O seu vereador é que é teimoso como as casas.

  3. Uma pergunta a quem souber. Toda a gente se queixa de que Lisboa ‘perdeu população’ (e é verdade). Qual seria a população optima de Lisboa?
    Saboteur, quanto às bicicletas estou de acordo, uso de vez em quando uma e vivo em Lisboa na baixa numa casa velha. Vive la gauche.

  4. Caro saboteur.. não me parece que o Ruben ao dizer que as bicicletas sejam um mero paliativo esteja a ser teimoso mas apenas a constatar um facto.
    Não digo que não se deva investir na construção de ciclovias onde tal seja possível e se justifique, mas a fixação na bicicleta como uma solução para o problema de transito para Lisboa como parece ser comum em alguns sectores é que me parece um erro crasso.

  5. Glumbler: Sim, pode-se dizer que o artigo dele afirma afinal que a bicicleta não é a panaceia para todos os problemas de mobilidade em Lisboa. Nisso estamos todos de acordo, penso eu.
    Talvez eu esteja a fazer uma leitura muito “de pé atrás” do artigo do homem e portanto esteja a ser injusto, mas o que me parece é que ele reafirma a posição ultrapassada de que é impossivel andar de bicicleta em lisboa, de que é demasiado perigoso, que provavelmente só atrapalha o transito, etc… Se é esse o caso, é pura teimosia, uma vez que não há nenhuma razão, nenhuma experiência, nenhum estudo, ou especialista que hoje em dia acompanhe essa tese da impossibilidade de uma lisboa ciclável.
    Xica: o nº ideal é uma resposta que acho que ninguém tem. Nos anos 80 seriam mais de 800.000 habitantes. No censos de 2001, registam-se 559 mil, mas hoje em dia estimam-se que hajam muito menos residentes em Lisboa. À volta de 500 mil.
    Ao mesmo tempo, nos concelhos vizinhos, a população aumenta… É um efeito dounut.
    É fundamental uma cidade ter massa crítica residente no centro, por várias razões, nomeadamente ecológicas, como vemos nestas questões da mobilidade em que 1 dos problemas reside nas deslocações pendulares da periferia para o centro e vice-versa.

  6. Saboteur, sim, 800.000. Desses, quantos viviam em barracas e quantos superlotados em pequenas casas velhas? (sei que muitos imigrantes continuam a viver assim – mas as famílias de oito filhos tornaram-se raras).
    Aqui há 2 ou 3 anos li num jornal uma reportagem sobre uma freguesia do Porto histórico – dizia que se toda a cidade tivesse aquela densidade, viveriam lá 2,5 milhões de pessoas; mas na freguesia não havia uma única árvore (!).
    Quando pergunto pela população óptima não quero dizer de um ponto de vista económico ou político. Mas sim: se toda a baixa-centro fosse reabilitada – julgo que com maioria de casas refeitas a pensar em jovens urbanos que gostam de viver sozinhos ou a 2 quando muito – teríamos lugar para 300.000 novas pessoas?!
    Dito de outra forma: uma coisa é dizer que o Bairro precisa de triplicar o numero de bares; outra coisa é dizer que a grande Lisboa viveria melhor se houvesse vinte Bairros – dos quais 16 ou 17 fora de Lisboa-cidade.
    Falar de bicicletas como se fosse um grande problema politico sem ter isto em conta é de loucos; e não se pode ter isto em conta enquanto não houver um tratamento urbano que não pare nos limites dos concelhos, e com isto saimos da área de actuação das CM e entramos na da AR. Os tais deputados da vossa festa já estão curados da ressaca? Têm muito trabalhinho pela frente, e há uma revolução a fazer para além do mais. Força Spectrum.

  7. olá xica,
    só dois inputs:
    1. o edificado cresceu muito nos últimos 20 anos em Lisboa…ou não? (Expo, Zona oriental, Alta de Lisboa, Carnide, Telheiras, etc)
    2. Isto leva-me ao problema das casas vazias. Quantas há e quantas havia há 30 anos? Provavelmente é impossível de saber mas por, digamos assim, “experiência empírica”, talvez não seja muito ao lado dizer que houve uma explosão de casas vazias em Lisboa nos últimos 30 anos.
    E sim, à partida também tenho ideia que há aqui em Lisboa mais um problema de ordenamento do território (com as questões dosa teransportes etc associadas) que de requalificação urbana.

  8. Sim, cresceu. Mas em grande parte com habitação para os ricos (Expo, parte de Telheiras, etc). Desastres tipo Galinheiras são anteriores, acho. Quem vai para a Expo não sai de uma casa a cair de velha, sai dos bairros do séc XX (meados): Avenidas, Arroios, Penha, Estefânia, etc, onde a burguesia vai dando lugar a imigrantes mas ainda não há muitas casas vazias.
    Depois, os imigrantes internos, os estudantes que vem para a faculdade, etc, habituam-se à cidade; só se ficarem e ‘casarem’ é que procuram uma casa ‘grande’ nos arredores. E ‘moderna’, como aprecia a burguesia.
    Finalmente, nas zonas que os ricos evitam (linha de comboio de Sintra, p.ex) as casas custam metade do que custam em Lisboa, mas não se arrendam: são vendidas pelos bancos, o que dá a ilusão de que não há ‘rendas deitadas fora’ uma vez que se é proprietário.
    Tudo isto tambem é empírico. Mas: quantas pessoas entram por dia em Lisboa para trabalhar? Dessas, quantas vêm de carro e quantas de comboio/metro? O que é que nos faz pensar que a reabilitação atrairá as que usam o carro e não as que usam os TP? Se ficarem casas vazias em Massamá e Mem Martins, as pessoas que vivem em Paço de Arcos ou Oeiras perto da praia e vêm para Lisboa de carro irão viver para lá para poderem usar o comboio?
    O que fazer, sem guerra civil, para que um milhão de pessoas saia de Lisboa e se espalhe pelo país? Essa é que é a questão – e não tem solução na sociedade em que vivemos. A partir daqui, a discussão seria política hard, com colapso do capitalismo e tudo (mas ok, sem os sambas de Gaia :))

  9. O renegade tem razão quando diz que há muita casa vazia em lisboa. Por todo o lado: zonas antigas, zonas mais novas como Benfica, Telheiras e novos empreendimentos como alta de lisboa. Parece não haver falta de casas para morar, mas sim muitas casas sem gente.
    Por outro lado, o problema de uma periferia muito povoada que Xica refere é também uma realidade. Num inquérito que a EPUL fez há uns anos, uma das razões para as pessoas não abandonarem a sua casa no Cacém e procurarem uma em Benfica (por exemplo), era não só o preço da casa em Benfica, mas também o não conseguirem vender a do Cacém ao preço que a compraram, de forma a amortizar o emprestimo bancário.
    Isto convoca também a tal questão que Xica referiu: que estamos a sair da área de competências das CM e a entrar na do governo central, nomeadamente implementano um novo sistema de financiamento do poder local… de qualquer forma, era importante que se defendesse na periferia o fim imediato de qualuqer construção nova e até a demolição de prédios e bairros existentes.
    Também estou óbviamente em sintonia quando se diz que os problemas da mobilidade e acessibilidade têm tudo a ver com estas questões da desertificação do centro.
    Não posso é deixar de lamentar este artigo do Ruben de Carvalho, que é uma mistura de opinião gratuita de quem nunca estudou muito o assunto, com uma vontade de dizer mal do executivo que governou a cidade nos últimos 2 anos e que procurou apostar na bicicleta.
    Por outro lado ainda queria dizer que não é verdade que quem viva no cacém, amadora ou sacavém, esteja obrigado a trazer o carro para lisboa, para vir trabalhar. Nem tão pouco que essas pessoas estejam impossibilitadas de usar a bicicleta na cidade.
    Para já, embora haja muito melhoramento para fazer nos TP em Lisboa, estes não são de facto 3º mundistas. Depois, tal como não está escrito em lado nenhum que o carro deve ficar estacionado a menos de 100 metros do teu lugar de destino final, nem que seja em cima de um passeio, também não é obrigatório levares a tua bicicleta para casa. Podes sempre deixar a tua bicla num terminal de transportes sub-urbanos.

  10. Saboteur, claro que há imensas casas vazias por toda a Lisboa (mas percebo bem que se prefira viver em Oeiras do que na Alta). Mas há que distinguir as casas ‘stand by de mercado’ (prontas a habitar) das ruinas da Baixa. São coisas inteiramente diferentes,
    De resto, assino por baixo o que disseste do Ruben.
    è verdade:quando foi o primeiro dia sem carros, li no jornal que um director de um ministério do Terreiro do Paço faltou e entregou uma justificação em como não era possivel ir sem carro… de Benfica para a Baixa. ahahahahaha. Acho que o jornal se esqueceu, depois, de saber se a justificação foi aceite.

  11. Epa, a minha opiniao é que as bicicletas nao resolvem coisa nenhuma, ainda pra mais com o envelhecimento da população. Durante 1 mês fui todos os dias de Telheiras para a Alameda de bicleta, demorava no mínimo meia hora, sempre a abrir, e ficava porco o dia inteiro, além do mais, tinha que voltar pa casa de bicicleta depois de um dia de trabalho. Durante um tempo podemos estar cheios de pica, mas isso desaparece. Não estou a ver os trabalhadores de Lisboa a usarem muito a bicicleta. Concordo que se deva dar facilidades a quem queira usar este meio, mas duvido que sirva a mais do que uns poucos.

  12. Epa, a minha opiniao é que as bicicletas nao resolvem coisa nenhuma, ainda pra mais com o envelhecimento da população. Durante 1 mês fui todos os dias de Telheiras para a Alameda de bicleta, demorava no mínimo meia hora, sempre a abrir, e ficava porco o dia inteiro, além do mais, tinha que voltar pa casa de bicicleta depois de um dia de trabalho. Durante um tempo podemos estar cheios de pica, mas isso desaparece. Não estou a ver os trabalhadores de Lisboa a usarem muito a bicicleta. Concordo que se deva dar facilidades a quem queira usar este meio, mas duvido que sirva a mais do que uns poucos.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s