2 thoughts on “2. Lido num artigo sobre migrações internacionais. Sciences Po, 2007.

  1. 1. Mais importante que os três actos eleitorais seguidos a que o país assistiu até 11 de Outubro foram os quatro anos intensos de resistência activa de centenas de milhares de trabalhadores ao ataque feroz que o governo Sócrates I executou de forma contínua desde que tomou posse em 2005.
    Foram as lutas sucessivas de milhares de funcionários públicos (com um destaque particular às massivas manifestações de professores), de milhares de trabalhadores de inúmeras empresas do sector privado, que fecharam ou ameaçaram fechar, e as contestações populares ao encerramento brutal de maternidades, centros de saúde e emergências hospitalares que levaram o Bloco de Esquerda de uns incipientes poucos pontos percentuais ao extraordinário número de mais de 10% nas eleições europeias, bem como ao espectacular resultado nas eleições legislativas dobrando o seu grupo parlamentar de 8 para 16 deputados.
    Esta força extraordinária pela mudança de centenas de milhares de cidadãos projectou também de novo o PCP a uma recuperação eleitoral (ainda que ligeira) e ainda forjou um resultado impressionante em eleições presidenciais a um candidato contra corrente (na altura), Manuel Alegre, contra o candidato da direita e o candidato de Sócrates, Mário Soares.
    2. Acontece que, tal como tínhamos assinalado meses atrás nesta coluna, este três sectores que se reivindicam de uma esquerda adversária do neoliberalismo resolveram não apresentar nenhuma plataforma convergente, nenhuma proposta de governo alternativo, mas tão só retirar a maioria absoluta ao PS. Ou seja, o PS que governe, mas sem maioria absoluta, esta foi a mensagem central de uma esquerda que afirmou em 27 de Setembro “que tudo ia mudar depois dessa data” regozijando (merecidamente, aliás) com o aumento substancial de votos alcançados pelo Bloco de Esquerda comparativamente às eleições legislativas de há quatro anos.
    Efectivamente algo mudou, mas desta feita contra o BE nas eleições autárquicas, pondo a nu as enormes fragilidades do partido de que nos orgulhamos pertencer. Quando o povo, no dia de qualquer votação, só tem como alternativa de governo viável um de Manuela Ferreira Leite e outro de José Sócrates, ou então, na cidade de Lisboa, um governo de Santana Lopes ou de António Costa, naturalmente que um país socialmente à esquerda votou … PS antes que o PSD assumisse a governação.
    E ainda assim teve que encaixar que o CDS, de partido de direita moribundo, renasça das cinzas ao calor da crise económica e de um discurso demagógico pelo emprego, pretendendo fazer esquecer que quando a direita se encontrou coligada no governo “desempregou” tanto quanto Sócrates nos últimos quatro anos. A ausência de uma alternativa unificada à esquerda com um projecto económico credível também aí fez falta.
    3. O Bloco de Esquerda foi um partido vitorioso no plano eleitoral nas duas mais importantes jornadas eleitorais (europeias e legislativas), mas tal facto não pode descurar uma análise crítica das debilidades e fraquezas (estruturais) expostas com a derrota parcial (o nome aos bois) no escrutínio autárquico.
    A ala esquerda do BE que impulsionamos (dinamizada pelo Ruptura/FER e protagonizada pela moção C às duas últimas Convenções do BE) sempre assinalou que o BE era mais um fenómeno eleitoral do que um partido de militantes ou de intervenção social organizada. Sempre assinalámos os perigos de uma crescente institucionalização do BE no aparelho de Estado em detrimento de uma intervenção constante no movimento sindical na construção de alternativas à liderança conservadora do PC em quase todas as direcções sindicais.
    Sempre assinalámos o perigo para o nosso partido de uma aproximação ao PS, concretizada no passado recente com o famigerado Acordo de Lisboa; da promoção de figuras moderadas, como José Sá Fernandes, em detrimento de um discurso combativo claro; da excessiva sobre-representação parlamentar de sectores da direcção do BE próximos de estratégias de aproximação e aliança com o PS, em detrimento dos sectores à esquerda, onde nos incluímos.
    Todo este conjunto de problemas, aliado ao discurso acrítico de Francisco Louçã sobre Manuel Alegre, potenciou, ainda que involuntariamente, o retorno de milhares de votos ao PS, que até à presença de Alegre no comício de Coimbra ao lado de Sócrates tudo indicaria que caminhariam para o BE e o levariam à terceira força política, o que não veio a acontecer. Sempre assinalámos que este “namoro” com “alegristas” sem programa político de ruptura com o sistema, e na ausência de uma alternativa de convergência à esquerda ou de proposta de governo alternativo, exporia demasiado o BE ao vai e vem de sectores do eleitorado socialista.
    A alternativa de ferro para o BE mantém-se: ou um partido virado para rupturas sistémicas, alicerçadas numa construção paulatina e consciente de enraizamento social no seio dos milhares de trabalhadores que resistem à ofensiva capitalista, ou um partido que se distancia resolutamente da estratégia da revolução social e se confina (e se conforma) ao partido bem-comportado do regime parlamentar. Para o primeiro rumo, contem connosco, para o segundo, contem com a nossa resistência e combate.

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