Nakba a cores!


Le marché de Jaffa, Gustav Bauernfeind, 1877
Há uns tempos a Câmara Municipal de Paris decidiu celebrar os 100 anos de Tel-Aviv -1909 – 2009 – apresentada como uma cidade nascida da areia e do mar, representando a modernidade de Israel e isenta da imagem de espoliações que foram feitas aos palestinianos em 1948… Ao invés, Tel-Aviv vive à sombra dos escombros e imagem do que Jaffa simbolizava outrora para os Palestinianos. Jaffa era antes de 48 o grande centro cultural palestiniano, como demonstram ainda cartazes da época da vinda da cantora Um Koultoum (a grande “diva” do mundo árabe) a esta cidade.
“Os caminhos do meu programa de visita conduziram-me a Jaffa. Outrora considerada como o grande porto da Palestina, esta cidade e Haifa foram as portas da imigração sionista em massa nos anos 40. Unida desde então à municipalidade de Tel-Aviv, Jaffa foi o alvo de um grande projecto imobiliário que transforma ainda hoje esta cidade num exemplo de como a deslocação forçada da população palestiniana (agora com cidadania israelita, mas sem com isso terem os mesmos direitos) é um acto não terminado. Se as demolições das casas palestinianas são cometidas em nome da segurança pública, a especulação imobiliária e a recusa de autorização de construir aos palestinianos não deixam sombra de dúvida no que diz respeito às politicas públicas israelitas visando exclusivamente esta população”. Estas foram a recordações que guardei de Jaffa, estas e as cores das laranjas da ainda hoje conhecida marca de laranjas de Jaffa. Uma amiga palestiniana nascida num campo de refugiados no Líbano (Chatila), emigrada em França, contara-me um dia que ao fazer compras num mercado francês quase comprou sem saber laranjas de Jaffa. Quando se apercebeu da coisa, decidiu fazer boycot pois estas laranjas, agora israelitas, pertenceram um dia ao pai (explorador de cerca de três hectares de laranjeiras). Quando telefonou ao pai, em Beirute, contando o episódio do mercado, este mesmo homem respondeu: “foste estúpida, as laranjas de Jaffa são as melhores do mundo”.
A história contada e recontada da “terra sem povo, para um povo sem terra” vingou. O trabalho de branqueamento do que foi a Palestina é ainda hoje o pão de cada dia do governo israelita. Destrói-se sem pudor as ruínas de aldeias inteiras (únicas provas de uma existência… além das oliveiras centenárias, tidas como árvores selvagens na terminologia israelita), inventa-se poeticamente a história de um país começado do zero, manipula-se a memória individual daqueles que chegaram em 1948 e cala-se a memória colectiva dos palestinianos.
Zochrot é uma das associação israelo-palestiniana que tem ido contra esta corrente. Têm desmultiplicado esforços para elucidar a verdadeira história da criação do Estado de Israel, construído mapas que mostram a situação geográfica das aldeias palestinianas destruídas em 48, criado instrumentos pedagógicos sobre a Nakba.
Toda esta “introdução” para vos introduzir um documento de arquivo que acabo de descobrir. Um pequeno vídeo a cores do início dos anos 50, feito por um tal Fred Monoson, judeu americano, que mostra as consequências da agressiva ocupação israelita da cidade de Led:
http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-3806739,00.html
Não me deixei desconcentrar pelo artigo em hebraico onde se encontra este vídeo inserido, no entanto, fiquei estremunhada pelo facto do filme ser a cores. É verdade que as inovações técnicas no cinema começaram a dar os seus frutos coloridos nos anos 20 e 30. É verdade também que nos encontramos logo a seguir à II Guerra Mundial, um dos primeiros grandes momentos mundiais a ter algumas imagens coloridas, contudo, ver a Nakba a cores é algo inédito, não só porque não convém mostrar “uma terra com povo, para um povo sem terra” como pelo facto de mostrar que este momento é bem recente (+-60 anos), tendo em conta a nossa automática associação entre imagem a cores e modernidade.

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