Francisco Louça – Biografia


A recém editada biografia de Francisco Louça é de uma parcialidade aterradora. Note-se que aqui não se pretende tanto criticar o biografado mas antes o biógrafo, António Simões do Paço. Louça é apresentado sem qualquer distância crítica ou objectividade, no entanto, sendo esta uma biografia autorizada é óbvio que o dirigente bloquista não sai ileso da história.
As divergências internas, por exemplo, quer na construção, quer na consolidação do Bloco de Esquerda, simplesmente não existem para Simões do Paço que pinta toda a história de um cor de rosa plástico enganador.
Além de não adiantar absolutamente nada de novo sobre a figura, o seu percurso e os seus partidos tem pérolas como esta, oferecida aos leitores logo na página 20: “(…) Francisco Louçã estreou-se mesmo a dar serventia de pedreiro (fosse o Bloco de Esquerda um partido estalinista à moda antiga e este episódio seria certamente empolado para arranjar-lhe um passado proletário)”. Pasme-se! Onde terá o homem sido trolha? O autor elucida: foi numa jornada de trabalho voluntária com um padre e um amigo a ajudar a construir uma capela!
De uma só penada crítica o PCP, o seu secretário-geral e mostra a superioridade moral de um partido que não engana os seus fiéis. O exemplo parece-me elucidativo do tom que percorre todo o livro.

17 thoughts on “Francisco Louça – Biografia

  1. Os trotskistas têm uma vantagem sobre os estalinistas: estão mais perto dos libertários, onde não existe culto de personalidade. O PCP, e todas as ditaduras “comunistas” que não se deteve um momento a elogiar, sempre tiveram o culto da personalidade. Acho que é justa a crítica aos partidos estalinistas, independentemente de Louçã ter sido trolha ou não. A prova é que vocês se sentiram espigados com isso.

  2. a questão não está se é justa ou injusta a crítica aos estalinistas, mas antes questionar o seu cabimento tão a martelo no meio desta biografia “oficial”, que lhe retira, naturalmente, credibilidade.

  3. Sobre a «parcialidade aterradora» de que sou acusado oferece-se um exemplo: não ter feito a crónica das divergências internas na construção e na consolidação do BE. Não fiz essa crónica: ouvi os principais intérpretes dessas divergências e publiquei exactamente aquilo que me disseram. Basta lerem.
    Sobre a alegada crítica ao PCP e ao seu ex-secretário geral, Álvaro Cunhal, acerta «Paradise Café» muito longe do alvo: a única biografia publicada de Álvaro Cunhal é de J. Pacheco Pereira e não lhe arranja nenhum «passado proletário». Saia usted um pouco das nossas fronteiras e leia, por exemplo, Filho do Povo, a biografia do ex-secretário-geral do PCF Maurice Thorez – que até teve tradução portuguesa – para ver se entende a que tipo de literatura estava eu a referir-me quando lancei esse remoque.
    António Simões do Paço

  4. Sobre a «parcialidade aterradora» de que sou acusado oferece-se um exemplo: não ter feito a crónica das divergências internas na construção e na consolidação do BE. Não fiz essa crónica: ouvi os principais intérpretes dessas divergências e publiquei exactamente aquilo que me disseram. Basta lerem.
    Sobre a alegada crítica ao PCP e ao seu ex-secretário geral, Álvaro Cunhal, acerta «Paradise Café» muito longe do alvo: a única biografia publicada de Álvaro Cunhal é de J. Pacheco Pereira e não lhe arranja nenhum «passado proletário». Saia usted um pouco das nossas fronteiras e leia, por exemplo, Filho do Povo, a biografia do ex-secretário-geral do PCF Maurice Thorez – que até teve tradução portuguesa – para ver se entende a que tipo de literatura estava eu a referir-me quando lancei esse remoque.
    António Simões do Paço

  5. Caro António Simões do Paço:
    O secretário-geral “operário” do pcp, como todos sabemos, é Jerónimo de Sousa e não A. Cunhal, que sempre foi um filho da burguesia e intelectual, o tal “filho adoptivo da classe operária”. Parece-me que a passagem em questão se presta ao entendendimento de que se trata de uma crítica ao empolamento recorrente que o pcp faz do passado do seu actual secretário-geral. Mais, acho mesmo muito difícil que algum leitor ao lê-la faça antes a ligação a Maurice Thorez. No entanto, ainda que a crítica seja mais vasta, ao movimento comunista (marxista-leninista) em geral, continua a parecer-me despropositada esta sua opinião, friso, opinião, no meio deste “estudo”. Que fique claro que, independentemente desta análise sobre esta passagem do seu livro, concordo que a utilização de passados operários e mesmo a invenção dos mesmos para legitimar currículos de dirigentes comunistas, foi e é um expediente muito utilizado no seio destes partidos, basta olhar para as biografias oficiais dos actuais membros do comité central do pcp e compará-las com as reais para perceber isso.
    Quer sobre a parcialidade, que entendo estar por toda a obra, quer sobre a credibilidade do próprio género “biografia autorizada” pela mão de um cientista social (na badana do livro apresenta-se como historiador) muito mais há a dizer. Assim tenha tempo e mais texto virá.
    Os melhores cumprimentos,

  6. Não há nenhuma biografia de políticos no activo que seja imparcial. Isso é evidente. Normalmente até são encomendadas pelos próprios, o que não acredito que seja o caso…
    Francisco Louçã é um homem de inteligência excepcional, que conciliou uma vida política activa muito rica com uma impressionante actividade ciêntifica e académica na área da Economia… é natural que atraia este tipo de atenções: historiadores, jornalistas, etc, a quererem fazer-lhe uma biografia. Eu fiquei com curiosidade de ler o livro.
    Acho realmente que a forma de “biografia” é um pouco “poser”. Podiam ter feito uma coisa menos formal, ao estilo das “5 conversas com Álvaro Cunhal”, por ecemplo.

  7. O senhor em causa coordenou a excelente história do Estado Novo “Os Anos de Salazar”, na qual participei e que considero a melhor história geral do salazarismo publicada até hoje – mas não é académico, não é «cientista social». Já agora quantos cordenariam os, creio que, mais de 1oo “cientistas sociais” que escreveram para Os Anos de Salazar?
    Não sei se a biografia é boa ou má porque não li. Mas quando Fernando Rosas ou Reis Torgal escrevem ensaios, ou estão no parlamento ou na reitoria, não deixam de dizer a sua profissão, historiador. Este triste país atrasado nem sabe que aqui ao lado em Espanha há dezenas de historiadores reconhecidos que não são nem nunca foram académicos…e na França, e na Alemanha e muito mais nos EUA ou no Reino Unido.
    Presunção e água benta vinda de bolseiros que agora começam a investigar. Perdoe-se porque é a presunção e água benta de todos os países atrasados.

  8. não sou, nem nunca fui bolseiro, nem investigador, nem nada disso. quanto a países atrasados… é melhor nem comentar a que me cheira esse tipo de comentários.

  9. Para quê mentir Paradise Cafe?
    Todos os que escrevem no spectrum são, simultaneamente: bolseiros, assessores, herdeiros de fortunas, gestores, ciclistas e burgueses diletantes.
    António, pensava que tinhas saído do Bloco.

  10. Para ser uma biografia, tem de ser com papel e tinta biológicos, além do mais sendo o triste um economista é obviamente uma ecografia. Eu lembro-me desse bacano a bater coro aos putos, e a dizer que sim, que sim, que era uma questão de tempo até o bloco pegar em armas, o desplante … Não passava no polígrafo.

  11. Portugal já não é um país atrazado. Desde o 25 de Abril que este rectângulo se desenvolveu de tal maneira que hoje somos um dos países mais desenvolvidos e ricos do mundo. Que fizeram de ti meu pobre, desculpem, rico país. Antigamente era orgulhosamente sós, hoje é desavorgonhadamente com a mão estendida à caridade internacional. Contra factos não há argumentos.

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