Os anormais do paneleiros

“A Aurora do Lima publicou no passado dia 18/11/2009 um texto de opinião da autoria do Sr. Luís Palma intitulado “Casamento entre homossexuais”. Neste texto, o autor procura argumentar contra os projectos já anunciados na Assembleia da República para aprovar em Portugal uma lei que permita o acesso de casais de pessoas do mesmo sexo ao casamento civil. Lamentavelmente, o Sr. Luís Palma não conseguiu fazê-lo sem incorrer em afirmações cheias de preconceito, revelando um grande desconhecimento dos factos que se propôs comentar e, como não podia deixar de ser, acabou por incorrer diversas vezes em afirmações insultuosas.
Na impossibilidade de abordar nesta resposta tudo o que merecia ser dito, vou restringir-me a quatro comentários.

O Sr. Luís Palma começa logo por considerar a homossexualidade “uma anomalia”. Podíamos pensar assim – bom, há liberdade de expressão, está no seu direito. Pois é, mas não está no seu direito. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa define anomalia como: “Desvio insólito de um tipo normal, monstruosidade. (…) Excepção às regras, aberração”. Ao Sr. Luís Palma nunca passaria pela cabeça escrever num artigo de jornal que a cor negra da pele é “uma anomalia”. Porque sabe, como sabemos todos, que a afirmação pública da discriminação com base na “raça” é claramente proibida pela Constituição da República e desaconselhada pelos mais elementares respeito e civilidade. Chama-se racismo. Mas não se coibiu de considerar os homossexuais como anormais, monstruosidades e aberrações. Só o fez, e foi publicado, porque em Portugal ainda se acha “normal” insultar uma pessoa pela sua orientação sexual, apesar do mais elementar respeito e civilidade aconselharem o contrário e, veja-se bem, a própria Constituição da República o proibir no n.º 2 do artigo 13.º (princípio da igualdade)[1].
Depois entra na questão do casamento entre casais de pessoas do mesmo sexo. E agarra-se ao que está escrito no Código Civil como se este fizesse fé de alguma lei intemporal. Está enganado. O Código foi escrito por mãos humanas e regula realidades que são mais ou menos permanentes, mas nunca imutáveis. É por isso que se fazem alterações, para adequar o texto legal à evolução da sociedade. E, se é verdade que o casamento civil em Portugal é hoje um contrato entre um homem e uma mulher, também é verdade que sempre houve casais de pessoas do mesmo sexo a viver em Portugal. E por que razão não podiam essas pessoas casar-se? Porque a discriminação vivida na sociedade, o ódio e o desprezo a que os e as homossexuais sempre se viram votado/as o impediam, de tal forma que a homofobia foi naturalmente vertida em lei. O Sr. Luís Palma, lamentavelmente, acha que a discriminação deve continuar na lei. E até se permite brincar, como se estivesse à mesa do café, com a violência legal que a discriminação constitui: “Nada impede a um gay ou a uma lésbica de se casarem, só que o terão de fazer com outra pessoa de sexo diferente. A lei é igual para todos!”. Não ocorreu ao Sr. Luís Palma que é exactamente por essa razão que a lei não é igual para todos. É que a um gay ou uma lésbica nunca passaria pela cabeça casar-se com uma pessoa de outro sexo, a menos que estivessem dispostos a viver na mentira. Imagine o Sr. Luís Palma se lhe dissessem que, querendo casar, só podia fazê-lo com um homem?
Mas o que lhe faz verdadeiramente confusão é a palavra “casamento”. Até pode haver um instituto semelhante, mas quer que lhe dêem outro nome. Penso que não percebeu que, mais uma vez, está a dizer que uma união entre dois homens ou duas mulheres não pode ter a mesma dignidade que um casamento entre pessoas de sexo diferente. No fundo está, mais uma vez, a dizer a esses homens e mulheres que a relação que querem ver reconhecida é “anormal”, de segunda categoria, indigna e aberrante aos olhos da sociedade. Porque é esse o valor simbólico do casamento: conferir uma dignidade especial a uma relação junto da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, da sociedade.
Em seguida passa à questão da adopção. Infelizmente, a confusão continua e, o que é pior, continuam os insultos. O Sr. Luís Palma acha que “uma criança que já tem a infelicidade de não poder, em harmonia, viver em família com os seus progenitores, não pode ser arrastada para uma adopção que não comporte um homem e uma mulher que possam colmatar a impossibilidade de viver com o seu pai e a sua mãe biológicos, havendo tantos casais “normais” em fila de espera para adoptar essa mesma criança.”. Para já, deixemos em paz os casais ditos “normais” e a infelicidade das crianças. Concentremo-nos antes no facto de, em 2009 (e desde há muitos anos), pessoas solteiras poderem adoptar crianças e, veja-se bem, não apenas pessoas heterossexuais mas também homossexuais! O Sr. Luís Palma ignorava este facto. Como deve ignorar o facto de haver hoje em todo o mundo muitos milhões (sim milhões!) de crianças a viverem com casais de pessoas do mesmo sexo ou em famílias monoparentais. Como também deve ignorar o facto de nenhum estudo sério apontar diferenças no desenvolvimento das crianças que cresçam em famílias de progenitores do mesmo sexo em relação aos que crescem em famílias monoparentais ou nas “normais”, como diz. Temo que o que verdadeiramente preocupe o Sr. Luís Palma não seja o bem-estar das crianças mas o facto de os casais portugueses de gays e lésbicas terem o direito a decidir em pé de igualdade com qualquer casal heterossexual se, podendo, querem adoptar uma criança. E é só isso que deve ser avaliado: se o casal tem condições para adoptar, em perfeita igualdade com um casal de pessoas de sexo diferente.
Finalmente, põe no mesmo saco da “anormalidade” o casamento homossexual, a pedofilia, o incesto e os casamentos poligâmicos e poliândricos, acrescentando que não se pode permitir “que se faça tábua rasa de valores em que assentam a nossa honra, a nossa dignidade, a nossa cultura ou a nossa identidade”. Eu não sei em que valores o Sr. Luís Palma assenta a sua honra e a sua dignidade mas, pela amostra do texto publicado, não são com certeza os valores básicos da igualdade, da liberdade e do respeito. Seja como for, acredito que não me levará a mal se me despedir dizendo que, não esperando nenhum pedido de desculpas, lhe perdoo os insultos que me dirigiu a mim, a muitos outros seus concidadãos e a todas as pessoas que em Portugal lutam pelo fim das discriminações e pela igualdade com base na orientação sexual.
Termino com votos de que a aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo seja o primeiro passo de muitos para que haja um combate decidido à homofobia em Portugal, na lei e na sociedade. E por mais igualdade. É tempo de o insulto parar.
Renegade
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[1] Diz o artigo no seu n.º 1: “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.”. E acrescenta no n.º 2: “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”. ”
[NEM SE DIGNARAM RESPONDER AO E-MAIL QUE LHES ENVIEI COM ESTE TEXTO, DEPOIS DE LÁ TER IDO PESSOALMENTE]

16 thoughts on “Os anormais do paneleiros

  1. Excelentes palavras Renegade, se Deus quiser Portugal irá já evoluir este Dezembro com a aprovação dos casamentos Homossexuais, sou igualmente a favor da igualdade.

  2. Só não percebo o que é uma relação ‘com dignidade’ (percebo que quem tenha uma religião ache que o deus ou os deuses precisam de um rito, mas isso é outra conversa). De resto cada uma e cada um sabe com quem dorme, e quem quer ser respeitadinh@ compra um BMW.
    Não quero que os bolos de noiva possam ter estatuetas de duas gajas – quero que se fodam os bolos de noiva.
    Mas a minha mãe está farta de me dizer que nunca hei-de ir a lado nenhum, e não sabe da missa a metade.
    Fora isso, quem é a Aurora Lima?! :P

  3. a dignidade refere-se ao valor simbólico do contrato. claro que é subjectivo e conheço poucas pessoas que “acreditem” nisso mas não deixa de ser verdade que a maioria das pessoas reconhece essa dimensão no casamento (além das outras)

  4. Renegade,
    Tentem ler o teu texto, mas é verdade que não consegui. È UMA MERDA! posso falar do princípio, e informo que anormal é quem foge à norma. E isso é coisa que por mais que tentes nunca conseguirás fazer.

  5. eu não tento nada adriano.
    quero é ser deixado em paz pelos cretinos deste mundo. e sei que mesmo isso, às vezes, não chega para achar que esta merda vale a pena. Portanto, como vês, as coisas deste lado são muito prosaicas, não têm nada a ver com vontades de fugir à norma.

  6. ora se a natureza fez o Homem e a Mulher E so assim existe procriação Tudo o que seja fora da natureza e’ anti-natura

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