Colonialismo monumental : Apelo à destruição do património!

Para quem não lê em francês passar ao segundo parágrafo.
« Mais, Seigneur, comme l’écrivait saint Jérôme dans une épître, celui qui écrit se suscite à lui-même un grand nombre de juges, car là où il y a beaucoup d’hommes, il y a également des manières différentes aussi bien d’entendre que de sentir. Il en est certains qui s’imaginent que c’est par envie ou mauvais vouloir que l’on rapport les mauvaises actions, et lorsque ce qui est dit de la noblesse et de la gloire des bonnes actions va quelque peu au-delà de ce qu’ils y découvrent eux-mêmes, ils le taxent facilement de mensonge… ». Extracto da carta que Gomes Eanes de Zurara envia a D. Afonso V (1453) aquando do envio de um recito de viagem à costa ocidental africana.. Este livro é um dos relatórios mais importantes que documenta a « chegada » dos portugueses a este lugar. O autor, Zurara, neste recito de viagem canta por um lado a glória das conquistas, e chora, por outro lado, com compaixão o destino dos autoctones. Ele continua assim: « …Et près de ce village, ils virent une troupe de Maures qui montraient qu’ils étaient disposés au combat. Et à cette vue, les Chrétiens furent remplis de joie. Ils firent donc aussitôt sonner les trompettes et ils marchèrent de très bon cœur sur les ennemis. Mais les Maures, abandonnés par leur premier courage, commencèrent à fuir et ils se jetèrent à la nage pour atteindre l’autre côté d’un bras de mer qui fait de cette terre une île et ou étaient déjà passés leurs femmes et leurs enfants avec tous leurs pauvres avoirs. Mais ils ne purent fuir si vite que les nôtres n’en tuassent huit et n’en capturassent quatre…» (A única versão a que tive acesso : « Chronique de Guinée (1453) », Editions Chandeigne, 1994:173).

Seria dificil criar ordem no interior de um sistema nacional, ou outro, sem manipular a memória e ocultar momentos da história. A orquestração engendra-se frequentemente no grupo daqueles que pertencem à esfera dominante. Consequentemente, os frutos podres que são colhidos visam essencialmente os dominados, os ditos inimigos, as minorias, os oprimidos, ou seja, o Outro! Nada de novo nesta dinâmica de ordem que acabo de anunciar, a não ser que para se fabricar a ordem é necessário que haja nuances de desordem… que haja um Outro. No entanto, a desordem pode transformar-se bastante virulenta, quando ela transforma radicalmente as estruturas basilares nas quais a sociedade encosta-se para ficar equilibrada. O ideal, neste hipotético cenário, seria que as sociedades desmultiplicassem todos os seus esforços na reconstrução de novos pilares.
Sobre este tema, evoquemos a desordem que o fim dos antigos sistemas coloniais em Africa provocaram nas estruturas basilares de países como França e Portugal. Este é o primeiro passo para sairmos frustados em relação às permissas enumeradas em cima. Isto porque… embora tenha havido uma aparente desordem pela perda do “Império” em todos os níveis societais, este acontecimento não originou uma ruptura radical nas maneiras de pensar o Outro, no modo de funcionamento doutrinal e liturgico da sociedade, como por exemplo no Cisma de 1054 dentro da Igreja catolica.

Utilizemos o exemplo dos monumentos:
Após a revolução de Abril os portugueses não tiveram nenhum pejo em mudar o nome da ponte 25 de Abril, outrora ponte Salazar. Ainda bem, uma vez que da mesma maneira que recusaria de viver numa rua chamada Rua António Oliveira de Salazar, apanharia o barco para atravessar o tejo apenas para não passar pela Ponte de Salazar. Disto isto, não tenho problemas em apanhar o metro na estação Stalinegrad em Paris! (não é sério o que aqui digo, na medida em que este nome faz referência à vitória do exército vermelho contra o exército alemão e não à personagem Staline e à sua cidade de outros tempos).
Contudo, a desordem que se deu nesse momento, nomeadamente com a independência das ex-colonias, não foi suficientemente brutal para que monumentos como o “Padrão dos Descobrimentos” fossem o alvo de um verdadeiro apagamento simbólico e físico. Refugio-me neste eufemismo de apagamento para não dizer em primeira mão, que este monumento, dado o seu simbolismo carregado de atrocidades, deveria ser o alvo de um acto de destruição. Ele não o foi no momento X, sofremos agora as suas consequências. Assumo e acuso, não estou de acordo com a preservação de património que retrata e homonageia a memória de um passado que foi antes de tudo mais de crueldade para com o Outro. Quando a preservação de um monumento apenas serve para reactivar continuamente a honra dos conquistadores e missionários cristãos portugueses que esterilizaram e massacraram culturas autóctones inteiras, sem haver um mínimo de vontade de sublinhar o lado negativo desse “passado glorioso”, aí digo… É necessário afundar a caravela no mar e pisar até à degradação total do que ainda resta do mosaico (rosa dos ventos) que foi oferecido pela Africa do Sul Apartheidista a Salazar (onde podemos também ver um mapa mundo enorme, construído com vários tipos de mármore, cujo objectivo é mostrar todos os países onde os portugueses meteram as suas patas).
A vontade dos portugueses é exactamente oposta a esta: em detrimento de uma utilização crítica do monumento para não passar em silêncio momentos trágicos à escala mundial (como as negociatas da escravatura); o Padrão dos Descobrimentos é utilizado como um lugar de propaganda sobre a Glória dos portugueses, onde sao desenvolvidos programas de actividades pedagógicas para as crianças e visitas guiadas para os turistas. É assim que o romantismo do colonialismo à la portugaise consegue arraigar-se tranquilamente, maciçamente et alegremente em todos os pilares da sociedade.
Em França, apesar de tudo, o trabalho crítico sobre o colonialismo está um pouco mais avançado, nem que seja pelo facto que eles não foram corrompidos por teses luso-tropicalistas que conseguiram embranhar e endoutrinar todo um povo sobre o enriquecimento cultural e de metissagem cumprido pelos portugueses nas suas ex-”conquistas” coloniais. Não obstante, o que faz perpetuar a endemia colonialista em França sao os guardiães da heroicidade daqueles que foram mortos pela Pátria no ultramar, mesmo se estes viveram sem razão. Isto explica a vontade, sem pretensões de exaustão interpretativa, de intransigência de uma parte da população em erigir múltiplos monumentos aos mortos franceses na Argélia, numa concepção de eternizar a ideia do Outro, neste caso os Arabes, como inimigo invariável da Nação francesa.
Tanto o exemplo francês como o português, revelam que estas “nações” ainda não têm a maturidade suficiente para passarem a um outro estádio de descolonização, continuando a alimentar, aquilo que chamo o negacionismo da barbaridade cometida a outros povos. O racismo no qual as nossas sociedades estão submersas é uma das consequências. A sua cristalização nas entranhas da sociedade é um dado herdado e adquirido voluntariamente. Eis um exemplo de uma pequena desordem que as autoridades institucionais fazem questão em perenizar para tirarem as suas vantagens nos momentos de representação da ordem nacional.
O tempo continua a passar, ele não espera por ninguém, a não ser por explosões!
Aqui fica em fotografia o exemplo de uma acção (versão soft)!
photo 1.JPG
Antes…
Photo-3.jpg
…Depois.

9 thoughts on “Colonialismo monumental : Apelo à destruição do património!

  1. fica tão bem à esquerda caviar/moela de faisão denegrir a história com base nas atrocidades cometidas pela colonização como se a história e memória de um povo se apagasse com a aniqilação de alguns símbolos para turista ver.
    a colonização consequente da expansão maritíma e dos descobrimentos, não foi a melhor mas foi a possível de acordo com a mentalidade e os costumes da época. é mais que sabido que os tugas foram os colonizadores menos maus, malgrado os incovenientes, etc e tal.
    vá lá, destruam o monumento dos descobrimentos que vos está a fazer comichão no rego.

  2. Agradeço o link da versao portuguesa. conheço muito pouco os recursos da BN portuguesa… no entanto, qd disse que foi a versao que tive acesso… era a versao papel, que aliàs tenho na minha biblioteca pessoal!
    Quanto ao texto estar mal escrito: tem toda a razao! acontece-me por vezes e sobretudo qd escrevo a primeira versao em francês para franceses! mas alegra-me, ainda assim, a coragem que teve para ler o texto até ao fim e o tempo que utilizou para deixar o seu rasto cheio de conteudo.

  3. bem, fui eu que disse que havia zurara em português na cheia biblioteca ancional digital (dá para imprimir) mas não fui quem disse que estava mal escrito

  4. O Fernando Lemos, entrevistado no Câmara Clara no outro dia, disse qualquer coisa como isto: os portugueses estão junto a África como mais nenhum país europeu está. Nós não estamos só junto a África, nós somos o preto. (isto um bocado naquela onda de Agostinho da Silva e hoje pela mão de Eduardo Lourenço que afirma a cultura atlântica-nos dois eixos Brasil África- muito mais presente e premente que a cultura continental europeia (nos seus eixos Reno Danúbio?).
    Isto se sermos o Preto creio que traz subjacente uma ideia/uma realidade que ultrapassa largamente a questão do domínio colonial (que não existe per si mas cruzada com outros domínios-de classe/ de género/etc). Também não me parece que esta ideia seja uma criação do luso-tropicalismo.
    Não me parece que a destruição do padrão dos Descobrimentos fosse mais eloquente para nós e vindouros do que iluminar os seus múltiplos significados. (a construção de um outro na direcção contrária, com outras personagens)

  5. Este é o grande problema de tocar em temas complexos através de formulas simplistas… prometo um post em breve que serà baseado em questionamentos, mas com uma argumentaçao mais consequente sobre a destruiçao de y e x… passando pelas teses luso-tropicalistas, eu branco, tu preto,eu preto, tu branco e a transversalidade de variàveis como a classe e género.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s