Portugal nas trincheiras

Ontem à noite ia a caminho do Bairro Alto pela Rua da Escola Politécnica e encontrei de portas abertas aexposição “Portugal nas trincheiras”. Está “patente” (como diria o saudoso Raul Durão) no antigo ginásio da Faculdade de Ciências, onde ainda joguei umas futeboladas à maneira.
Eu até queria dizer bem e esta parece-me uma iniciativa cheia de potencial. Mas, mais uma vez, não se esteve à altura e fica uma impressão de falta de meios, falta de imaginação, faltas de rigor e objectividade.
Começo por notar que a ideia interessante de transformar o percurso expositivo em simulacro de trincheira, não sendo uma novidade, podia ter sido melhor explorada. Podia ter-se apostado mais no efeito de real. Por exemplo, teria custado pouco ter à entrada, ou durante o percurso, uma gravação que recriasse um momento de ataque nas trincheiras, algo que criasse uma falsa sensação de real a partir de um dispositivo sonoro. Ou, ainda a título de exemplo, obrigar os visitantes a ultrapassar obstáculos, terem que fazer o seu caminho através de uma trincheira danificada, etc…

Outra pecha está no reduzido emprego de meios audiovisuais. Com tanta coisa feita sobre a guerra, só nos é mostrado um vídeo mudo com imagens da RTP que, ao que parece, nem foram editadas. De resto, o grosso da exposição assume-se, infelizmente, como uma mera mostra de objectos. Há falta de contexto. Se isso não fosse suficiente, há falta de rigor e objectividade. De que nos vale termos os cadernos e as fotografias do corpo das enfermeiras portuguesas se não é feito um mínimo esforço para nos dizer que nessa época as mulheres não podiam, em geral, ter uma profissão paga e o envio de enfermeiras para a guerra era uma das poucas oportunidades para uma mulher ganhar um salário com o seu trabalho. Ressalta daqui outra lacuna – a ausência de referências ao esforço de guerra em Portugal. Vê-se a exposição e sai-se sem perceber o que representou a entrada de Portugal na guerra em termos económicos, políticos e sociais. Não me lembro de ver indicado o número total de mortos e estropiados.
Outra lacuna está no tratamento público/político da guerra em Portugal. Vemos os desenhos de soldados estropiados, dizemos olha que giro e tal, mas não nos é dada a chave para perceber se aquele tipo de imagens era corrente ou sequer autorizado pelo estado português. Falta uma revista de imprensa da época…e teria sido tão fácil…

E mesmo aquilo que devia ser o forte da exposição, ie, a vida das trincheiras, está cheio de fracos: vemos alguns equipamentos militares, o material médico, momentos de religiosidade e sociabilidade dos soldados, desenhos, fotografias e páginas de diários, etc. Mas esse conjunto de objectos não é colocado em nenhuma perspectiva historicamente significante: não há qualquer narrativa sobre os objectos. Ficamos sem perceber o que era a sociabilidade dos soldados, não sabemos o que era a vida “típica” de um soldado ou de um dirigente do CEP, não sabemos o que acontecia aos que resistiam de alguma forma à autoridade ou que se rebelavam contra as condições desumanas a que eram obrigados (houve casos? No resto dos exércitos aliados houve bastantes e eram fuzilados), não sabemos se havia soldados na cama uns dos outros (ou melhor, sabemos que sim, mas há notícias?), as cartas dos soldados não têm qualquer tratamento crítico, ninguém nos fala das sequelas de guerra nos mobilizados… Mais uma vez, era tão fácil olhar para o que faz a historiografia nestes campos (embora, reconheça-se, a portuguesa ande sempre 20 anos atrasada).

Mas a falha maior é mesmo a perspectiva nacional-republicana que guia a exposição. É imperdoável que se refira o Corpo Expedicionário Português como “os nossos soldados”. “Nossos”, de quem? É imperdoável que os alemães e austro-húngaros ainda sejam retratados como autores de um “ataque bárbaro”. É imperdoável que ainda me/nos queiram meter no saco dos aliados, quando já passaram quase 100 anos dos acontecimentos e houve mais que tempo para mudar de discurso.
Imagino, com terror, o que seria este tipo de perspectiva aplicado à guerra colonial de 1961-1974.
Em suma, mais um caso de boas intenções politicamente orientadas a que falta qualidade e honestidade científica.

4 thoughts on “Portugal nas trincheiras

  1. Apesar da blogosfera o permitir, não se pode admitir que sejam feitas afirmações injuriosas e gratuitas – a coberto de um pseudónimo – que colocam em causa o bom nome de instituições e pessoas. Não nos referimos a questões relacionadas com a opinião pessoal de cada visitante, mas a acusações de “falta de honestidade científica” (sic). Escusamo-nos de alimentar publicamente uma discussão com alguém a quem não conhecemos nem o perfil, nem o currículo. Deixamos, por isso, o nosso endereço de e-mail para, em sede própria, poderem ser, eventualmente, discutidas algumas acusações lançadas neste blog, desde que o emissor apareça devidamente identificado.
    museu@presidencia.pt ;
    Elsa Santos Alípio

  2. Agradeço o seu comentário.
    Não pretendi fazer acusações. Pretendi, muito rápida e descuidadamente, apontar o que considero falhas e erros de perspectiva histórica. Se se entende que isso afecta o bom nome de pessoas e instituições, lamento. A iniciativa é interessante, mesmo se nestas coisas o que acaba por passar quase sempre é uma visão celebratória e “institucionalemnte” situada/sitiada. Como imaginará, não vou pôr-me em bicos de pés a discutir com o Museu da PR o que o próprio museu considera acusações e ataques ao seu bom nome. Ficam as sugestões de melhoria, se as quiserem aproveitar.

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