acabar de vez com a calçada “à portuguesa”

Até que enfim que alguém começa a dizer coisas com sentido sobre a mal chamada calçada “à portuguesa“. Que de portuguesa tem tanto como o bacalhau. Come-se bacalhau em muitos mais lugares mas alguém achou por bem transformar o peixe em tema identitário. Fez-se o mesmo com a calçada “à portuguesa”. Com a agravante que, ao contrário do bacalhau, a calçada não merece um pingo de azeite para lhe dourar o sabor.

Um belo prato de bacalhau à vizcaína
A calçada lisboeta está invariavelmente semeada de buracos. Se não está semeada de buracos, está semeada de pedras soltas. Raramente se pode encontrar um passeio direito, que não se apresente em estranhas linhas sinusoidais ou em plano inclinado para o espalhanço do peão. Não conheço um lisboeta que tenha os tomates necessários para caminhar mais de 20 metros nos passeios de Lisboa sem olhar para o chão pelo menos uma vez. Sim, pode ter medo de meter o pé num pedaço de merda, é verdade. Mas toda a gente sabe que a maioria das vezes os obstáculos são de outra natureza: buracos, pedra solta, degraus dissimulados ou lombas no próprio passeio.

A resistência cultural do fenómeno é intrigante. Como explicar que um sistema arcaico de pavimentação urbana, tecnicamente obsoleto, de manutenção cara e vários zeros à esquerda e à direita da vírgula em qualquer avaliação de qualidade de serviço continue a gozar de tanta reputação? Dá ideia de estarmos perante mais um fenómeno tipo Virgem Maria: toda a gente sabe que tecnicamente a senhora não pode ser “virgem”, mas continuam a chamá-la assim. O mesmo se passará com a calçada “à portuguesa”. Porque é “nossa”, porque é portuguesa, porque a estranja quando cá vem fica maravilhada, entende-se continuar com um sistema obsoleto as mais das vezes completamente descalço.

Já agora, o mesmo se passa com os belíssimos eléctricos amarelos da Carris. Estão cheios de buracos. Em termos de qualidade de serviço ao utente do transporte público, o amarelo da Carris é um autêntico desastre. E é-o irremediavelmente, porque está desajustado das necessidades do século XXI. Procurei no site da Carris alguma coisa que permitisse sustentar esta evidência mas não encontrei (nota menos para a Carris na informação sobre quebras de serviço). O material circulante está tecnicamente obsoleto, sempre a dar o peido mor. São exasperantemente lentos, com as multidões de turistas a matarem qualquer sonho de cumprimento de horários. E são uma óptima desculpa para não se criarem alternativas que deixassem o eléctrico a quem não tem mais nada para fazer na vida do que admirar-se com o típico e o histórico. Como é possível não existirem autocarros de média dimensão (mais rápidos, mais cómodos, mais resistentes, mais baratos, é só vantagens) a fazer o mesmo circuito? Mistério.

Um prova de como os eléctricos em Lisboa têm uma longa carreira de quebras de serviço
Talvez um dia alguém se lembre que a calçada e o amarelo da carris merecem reforma. Já era altura de começarmos a viver numa cidade do século XXI e não do século XIX.

36 thoughts on “acabar de vez com a calçada “à portuguesa”

  1. Ando há anos a praguejar contra a calçada portuguesa, por tudo o que aqui foi dito e mais alguma coisa! Até que enfim!

  2. O problema dos buracos é causado pelos carros que estacionam em cima do passeio.
    No outro dia, num passeio cheio de carros estacionados em cima, o sr. policia implicou comigo por estar a prender a bicicleta a um sinal de trânsito. Com polícia desta, quem precisa de criminosos?

  3. oh renegade, quais são as necessidades do século XXI, por amor de deus?
    ..a cidade multifuncional, economicamente pujante e com uma integração elevada da economia urbana de novo tipo, a que se deverá adicionar uma não menos importante redistribuição justa dos rendimentos.
    ..uma cidade com polícia de proximidade, hiper informada em termos turísticos e com uma quota de mulheres elevada…..
    já chega de higienismo urbano, ainda bem que há buracos e que os eléctricos andam devagar e que os cantos da cidade cheiram a mijo. se não pegássemos todos às oito e hipotecássemos assim as nossas vidas, não andaríamos a discutir estes temas.

  4. ah esqueci-me de acrescentar, encontro pelo menos duas vantagens na calçada e restantes tipos de pavimentos com paralelepípedos:
    é um pavimento permeável (mais do que o alcatrão ou cimento) que tem uma função importante na redução dos picos de cheia e consequentemente na intensidade das inundações urbanas.
    é um pavimento que se solta com facilidade e que pode ser arremessado contra a polícia, montras, etc.

  5. A maria roubou-me o argumento princípal (o óbvio) mas falta outra, a calçada branca torna a cidade bastante mais luminosa, veja-se barcelona com o seu chão cinzento e como obscurece tudo.

  6. acho que nunca tinha lido um disparate tão grande no Spectrum.
    Se gostas tanto das cidades tenebrosas de escuras, mas que nunca cheiram mal e aonde podes acertar o relógio pelos transportes, olha, muda-te.
    Eu cá gosto de Lisboa. Com todos os seus defeitos.

  7. oh maria, se não tenho cabelo é porque sou careca. se não tivesse que chegar a horas aos sítios, não precisava dos transportes colectivos a andar a horas, é óbvio, pah!
    o facto é que eu pego às 8 e hipoteco assim a minha vida.
    tens alguma proposta para a minha vida como ela é ou apenas achas que ela é miserável e devo mudá-la? e não me queixei do cheiro a mijo. não falei em cidades higienizadas, falei num mau serviço prestado pelo eléctrico da carris e numa cidade cheia de buracos no pavimento por causa de uma pavimentação pouco racional.
    Há alternativas brancas ao passeio esburacado (argumento da luz) e não consta que as pedras do passeio português tenham até hoje servido os propósitos de “armas dos pobres” que lhe atribuem, pelo menos em termos de acção colectiva.
    com vocês dá-se a mão e levam logo o braço…
    obelha, eu gosto de lisboa e já aqui escrevi coisas mais estupidas. informa-te antes de abrires a boca.

  8. Pessoalmente gosto das cidades que continuam a usar a Calçada Portuguesa como pavimento para o passeio.
    É verdade que têm muitos inconvenientes como foram referidos mas não deixam de fazer parte do nosso património e um marco das nossas cidades. Algo que distingue as nossas cidades das restantes.
    Se é um falso património não sei mas tenho dúvidas que seja uma marca menor que algumas adquiridas recentemente na nossa sociedade. Algumas delas adquiridas muito recentemente e que em muito pouco tempo atingiram estatutos quase de intocáveis, como por exemplo os carros em cima dos passeios. Eu sei que o tema do estacionamento é recorrente mas parece-me mais importante de combater para alterar os comportamentos do que criticar a existência de passeios de blocos calcáricos paralelepípedicos.

  9. Estas afirmações sobre a calçada, ao contrário do bacalhau, mais parecem uma caldeirada!
    Mistura-se tudo, a começar pelo Manuel João Ramos que cada vez mais atira ao lado. Então a calçada devia ser substituída por alcatrão? E depois no verão como é que era? Acham que a calçada apareceu só porque havia pedreiras e não havia petróleo?
    Bem, convém discutir este assunto com calma e com conhecimentos diversos, senão acabamos a asfaltar a cidade inteira, pela cabeça do Manuel João Ramos! Quem diria?

  10. Para mim o principal defeito da calçada é que me farto de escorregar, mesmo com as Doc Martens :P
    Mas o argumento da luz é importante – se alguém tiver dúvidas pode ir ver os passeios em cimento do Porto.
    De resto – não acredito no século XXI ‘alternativo’. Não vejo soluções para as cidades. Mas devo ter um neurónio hippie.

  11. Ena menz, siga dar uma de déconstruction? Tipo, mandamos a boca do povo só se identificar com objectos, como é o caso da culinária e agora com os passeios, apesar de isso não fazer sentido prático nenhum. E depois ajuntamos tudo numa prosa moderna contra o típico e o antigo e num parágrafo damos o remédio santo para as coisinhas que me afligem quando fumo um cigarro melancólico! Ai seu menz! És mesmoooo!
    Ena menz, vai na volta, sabes, as coisas…estragam-se! E precisam de manutenção! E…por isso é que são…coisas! Sujeitas à chuva, às solas, aos pneus dos carros menz. Até o asfalto em temporais se deteriora e precisa de manutenção…emprego…menz! Não pensaste, foi isso? Outra vez???
    Mas calo-me e calando-me espero calar-te, ou pelo menos dar-te ao siso envergonhado. E deixo-te dois. Um, Alberto, o outro Cesário.
    Falas de civilização, e de não dever ser,
    Ou de não dever ser assim.
    Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
    Com as coisas humanas postas desta maneira,
    Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
    Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
    Escuto sem te ouvir.Para que te quereria eu ouvir?
    Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
    Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
    Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
    Ai de ti e de todos que levam a vida
    A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
    AC
    Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
    Vibra uma imensa claridade crua.
    De cócoras, em linha, os calceteiros,
    Com lentidão, terrosos e grosseiros,
    Calçam de lado a lado a longa rua.
    Como as elevações secaram do relento,
    E o descoberto sol abafa e cria!
    A frialdade exige o movimento;
    E as poças de água, como em chão vidrento,
    Reflectem a molhada casaria.
    Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
    Cuja coluna nunca se endireita,
    Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
    Pesam enormemente os grossos maços,
    Com que outros batem a calçada feita.
    CV

  12. Renegade, é a primeira vez que ouço dizer que a calçada não é só portuguesa. Já quanto ao bacalhau é comido em vários sítios — sobretudo perto da origem — só que raramente salgado e conservado da mesma forma.
    Os buracos têm a ver com os carros e com a má fixação das pedras. Se fosse bem feita aguentava muito melhor. O que a Maria diz da permeabilidade é verdade.
    Também é verdade que nunca encontrei alternativas que tenham a menor piada. Alcatrão, cimento? O granito ou o mármore polidos escorregam quando molhados e qualquer deles deve ser pelo menos tão caro como a calçada.
    Os eléctricos poluem menos que os autocarros. Bastava que os idiotas que estacionam na linha do eléctrico tivessem multas que nunca mais esquecessem. Aliás a Carris faz queixa destes condutores e os utentes do eléctrico também podem fazê-lo.
    Mais eléctricos em ruas sem circulação automóvel resolvia-te o problema do tempo da viagem — funciona como metro de superfície, muito mais barato de fazer do que o metro subterrâneo.
    Também há autocarros pequenos nos bairros históricos.
    A propósito dos eléctricos, uma boa campanha de reboque e multa pode funcionar às maravilhas. Aqui no Calvário durante muito tempo os eléctricos não passavam, por causa de carros estacionados nos carris — sempre no mesmo sítio. Durante uns meses aquele sítio foi vigiado e os carros eram rebocados num intervalo de tempo muito curto, com multas pesadas. A Carris começou a oferecer aos utentes um serviço jurídico para ajudar a que também estes fizessem queixa dos condutores. Não resolveu o problema em 10 minutos, levou talvez uns 2 anos. Mas hoje não há nunca eléctricos parados ali.

  13. Estou contigo Renegade. Excepto onde seja possível mantê-la em bom estado. Aliás, acho que só desvaloriza a calçada portuguesa o facto de ser usada em todo o lado, mesmo quando é para estacionar carros em cima, para não ser mantida, etc.
    A calçada portuguesa é bonita, mas para se manter assim precisa de uma manutenção 100 x mais frequente do que outras placas.
    E quem é que ainda não bateu uma valente espeta por escorregar em calçada portuguesa molhada?
    PP: há placas de calçada brancas também. A “luminosidade” mantem-se facilmente. Na minha terra os passeios são de umas placas brancas a imitar a calçada portuguesa, que também as há, e resulta bem (com a vantagem acrescida de se poder andar de skate por cima delas)

  14. A grande vantagem das calçadas é que são artesanais. Lá vou eu outra vez para o mesmo: no deserto não há rasto das mãos dos homens e das mulheres. Não há igualdade em nós se não houver diferença nas coisas. E isto é mais importante que o levantar de manhã, porque isto é que dá, ou suprime, o sentido ao levantar de manhã.
    Ou como dizia alguém aqui há dias, sobre os automóveis: cada pedra da calçada é uma questão de classe.

  15. Será que o Terreiro do Paço renovado tem calçada portguesa no sítio onde o papa vai dirigir a missa?
    O Isaltino de Morais anda a retirar a calçada portuguesa do concelho deixando-a só nos sítios históricos que considera emblemáticos, uma espécie de redoma em forma de pavimento para o passado. É tão triste passear nas ruas novas de Oeiras´.

  16. O terreiro do Paço (bem, Praça do Comércio, vénia ao marquês de Pombal) devia ser isso mesmo: um terreiro. Devia ser de terra batida ou de relva.
    Pelo que vi, vai ter um chão com bonecos (losangos?), que não são de calçada. Deve ser para condizer com os hotéis de ricos que lá vão fazer.
    Por falar nisso, já haverá planos para desviar dali a plebe que chega de barco? Os hóspedes devem torcer o nariz a um espectáculo tão pouco europeu.

  17. O terreiro do Paço (bem, Praça do Comércio, vénia ao marquês de Pombal) devia ser isso mesmo: um terreiro. Devia ser de terra batida ou de relva.
    Pelo que vi, vai ter um chão com bonecos (losangos?), que não são de calçada. Deve ser para condizer com os hotéis de ricos que lá vão fazer.
    Por falar nisso, já haverá planos para desviar dali a plebe que chega de barco? Os hóspedes devem torcer o nariz a um espectáculo tão pouco europeu.

  18. Ui Xica, então a calçada portuguesa é boa porque dá trabalho ?
    E cria, mantém emprego? Já estamos como o keynes a querer que a câmara empregue gente para abrir burcaos e gente para os tapar?
    Este tipo de argumento de louvor ao trabalho é coisa que não estava à espera de ler no spectrum. Que se foda o trabalho, digo eu, quanto menos, melhor

  19. Também não sabia que o spectrum se preocupava tanto com o aspecto das ruas de lisboa. Mas já que cada um dá a sua opinião, também dou a minha (as opiniões são como os rabos: quem os dá, dá-os)
    Calçada ou não calçada, lisboa é fixe porque é clarinha e contrasta com o tom de pele dos que lá vivem. Não aceitarei asfalto/betão/betumes/betonilhas ou merdas do género nos passeios de lisboa. Tudo o resto pode ser, desde que não seja polido e perfeitamente rectangular, o que inclui a calçada branca e preta. Se querem mesmo saber, também prefiro as ruas em paralelo às asfaltadas, apesar de serem mais caras e pior manutenção. Mas se a ideia fosse ser barato e prático íamos viver para a alemanha, não era?

  20. Uma noite não nos deitamos
    E seguimos o Renegade até o eléctrico
    Colocamos uma pedra de calçada
    No carril da carris
    Ele já não pode ir trabalhar
    Estará com certeza sol
    E podemos ir juntos arrancar retrovisores
    Aos carrões da burguesia
    FUCK job
    FUCK velocity
    FUCK the kapital
    We love garbage, we live in the garbage

  21. nao sei que eletrico usas. o que eu uso atrasa-se por causa dos turistas. se fosse redator de algum blog escrevia agora um post para acabar com os turistas. ou não, que assim perdia a desculpa para chegar atrasado.
    de resto sempre gostei de um país que tem um chão pronto para a revolta. certo que poucas vezes foi usado, mas pode dar jeito um dia. aliás quando era garoto acho que até lhe dava uso.

  22. malta, não é o aspecto, é o buraco. o buraco, a lomba, a pedra solta, a ausência de horizontalidade no pavimento mesmo quando o chão é plano e que se calhar isso não tem apenas a ver com a incúria da CML mas também com a natureza da coisa.
    e isto não era para ser um estudo das alternativas à calçada. era para ser um texto urbano-neurótico sobre dois temas que vivem comigo todos os dias.
    J, não tenho tanta certeza que as ruas de
    Oeiras estejam mais tristes. Já passei pela baixa de algés e não partilho o teu balanço, antes pelo contrário. o que lá está parece ser melhor que a calçada “à portuguesa” (é verdade que ainda não passou a prova do tempo mas isso também só com o tempo se pode saber). não estarás a ser um bocado patrimonialista em excesso?

  23. renegade, é o paradoxo do empregado do elevador do ritz: ele sabe que a revolução lhe vai tirar o emprego.
    um explorado revolucionário é também um empregado social democrata.

  24. Hoje passei no Terreiro do Paço e estão a alcatroar todo o centro da praça. Não se percebe ainda se fica assim ou se vão pôr mais alguma coisa por cima, mas faz lembrar os tempos em que era parque de estacionamento. Horrendo!
    O chão de pedra nas margens da praça não está nada mal.

  25. keynes?! R-Type, não. Não falo ‘desse’ trabalho. Mas estou longe do optimismo, comum no fim do séc. XIX até à época do Lenine, quanto às ‘máquinas’ libertadoras – para que os homens pudessem ‘usar o espírito’, etc.
    Quando deixamos rasto nas coisas e elas deixam rasto em nós, sabotamos a mercadoria como entidade ‘pura, neutral e objectiva’. Sei que uma mesa feita à mão pode ser feita por um homem livre ou por um escravo; mas uma mesa de plástico – ou uma ‘placa branca’ no chão das ruas – só se pode destinar a um povo de escravos.

  26. finalmente alguém a sugerir o fim da calçada à portuguesa.
    o meu avô, muito amante do património e da portugalidade andava sempre na estrada em vez do passeio da “bela” calçada. porquê? faz mal às costas e agudiza as dores várias dos velhotes porque o piso é muito irregular; e pior que tudo, podem cair, o que, a partir de certa idade é bastante dramático. acrescento que a calçada é impossível para cadeiras de rodas.
    imagino que entre os leitores deste blog não se devem encontrar muita juventude da terceira idade, por isso, se alguma vez numa festa mais doida partirem uma perninha e andarem de muletas na “bela” calçada, lembrem-se do vosso amor ao património.

  27. xica, não consigo acompanhar as tuas reflexões, no sentido em que não as percebi.
    De qualquer forma, e sem entrar aqui a discutir o facto de uma placa branca no chão se destinar a um povo de escravos (???), o que me parece ser uma recusa radical do progresso da tua parte leva-te onde? à alienação completa, ou não?
    maria: e? tomando consciência disso devo fazer/dizer o quê? deixo de querer melhorar a minha vida porque a minha condição é reflexo da exploração alheia? Mas isso é absurdo.

  28. e essa história do seculo XIX/XXI! Qual é a dúvida? No século XIX não havia telemóveis, não havia outro meio de comunicação que não fosse a carta/papel escrito, e era preciso que houvesse alguém à mão que soubesse ler. de outra forma só mesmo de viva voz se podia comunicar. Hoje podemos estar contactáveis todos os segundos da nossa vida, desde que começamos a ter consciência de interagir com outros até à sepultura. Não é evidente a mudança? E vamos fazer o quê? Achar que isso é só uma evolução dos omnipresentes mecanismos de exploração e que, por isso, deve ser combatida? É uma visão ultra-redutora.
    Se isto é evidente, por que razão não é evidente também que as necessidades dos utentes dos transportes colectivos e dos peões/utilizadores do espaço público mudaram? E que estão disponíveis soluções tecnologicamente mais avançadas para responder às necessidades?
    A ana duarte referiu o caso dos velhotes. É possível ser mais claro? É que a própria calçada “à portuguesa” já é uma revolução de progresso em relação aos terreiros de terra cujo regresso já vi aqui defender (é absurdo).

  29. “parece ser uma recusa radical do progresso da tua parte leva-te onde? à alienação completa, ou não?”
    Não! antes pelo contrário.
    Bendita sejas tu, Preguiça amada,
    Que não consentes que eu me ocupe em nada!
    Mas, queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
    Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
    Não permuto por toda a humana ciência
    Esta minha honestíssima indolência.
    Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
    Não te importes com o dia de amanhã.
    Para mim, já é um grande sacrifício
    Ter de engolir o bolo alimentício.
    Ó sábios, dai à luz um novo invento:
    Para mim, já é um grande sacrifício
    Todo trabalho humano em que se encerra?
    Em, na paz, preparar a luta, a guerra!
    Dos tratados, e leis, e ordenações,
    Zomba a jurisprudência dos canhões!
    Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
    Para atiçar o fogo das batalhas…
    Cresce teu filho? É belo? É forte? É louro?
    Mais uma rês votada ao matadouro!…
    Pois, se assim é, se os homens são chacais,
    Se preferem a guerra à doce paz,
    Que arda, depressa, a colossal fogueira
    E morra, assada, a humanidade inteira!
    Não seria melhor que toda gente,
    Em vez de trabalhar, fosse indolente?
    Não seria melhor viver à sorte,
    Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
    Queres riquezas, glórias e poder?…
    Para quê, se, amanhã, tem de morrer?
    Qual o mais feliz? – o mísero sendeiro,
    Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
    Ou seus antepassados que, selvagens,
    Viviam, livremente, nas pastagens?
    Do trabalho por serem tão amigas,
    Não sei se são felizes as formigas!
    Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
    As preguiçosas, pálidas cigarras!
    Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
    Ontem faltei, à hora da entrevista,
    E que, ingrato, volúvel e traidor,
    Troquei o teu amor – por outro amor…
    Ou que, receando a fúria marital,
    Não quis pular o muro do quintal.
    Que me não faças mais essa injustiça!…
    Se ontem, não fui te ver – foi por preguiça.
    Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
    Larga a caneta e vai dormir… sonhar…

  30. Renegade, obrigada pela resposta. Vou pensar nos teus argumentos; mas tendo a não concordar.
    Ah, não me reconheço minimamente nos versos do H80; não é dessa ‘indolência’ (?) semi-espiritualista (??) que falava. Acho é que cavalgar a tecnologia, e o urbanismo, querer domá-los ‘a favor do povo’, é no fundo querer democratizar a mercadoria (como categoria): a codificação e organização total dos mundos; e para mim a aparente perfeição das coisas feitas por máquinas, e das coisas-máquinas (do telemóvel ás calçadas tecnologicamente correctas) são aqui aspectos dos novos ópios do povo. As coisas que envelhecem devagar, as artesanais, as coisas de madeira e de pedra, são profundamente diferentes das que se tornam ‘obsoletas’ mas que enquanto ‘servem’ (não são ‘consumidas’) parecem atemporais, ‘perfeitas’, anónimas. Não gosto dos mundos que regulamentam até ao infinito, que definem ‘espaços’, ‘regras’, ‘tipologias’: é nesse caldo que prospara a ‘liberdade e racionalidade dos mercados’. Um Shopping nunca será um lugar livre, um mercado de rua pode sê-lo ou não (há-os na sociedade esclavagista). O problema da perfeição é que neutraliza a transgressão (‘espaços para graffitar’, por exemplo)
    O urbanismo capitalista e a coisa-máquina arrastam na sua aparente igualdade (neutralidade)uma formatação do mundo que nos formata também a nós.
    Não por acaso: os fascistas esteticamente estiveram com o ‘modernismo’ e o ‘futurismo’: o nosso Salazar rural é um caso peculiar.

  31. A xica tá boa?
    Xica, os versos não são do H80 mas do Juvenal Antunes, poeta do Acre.
    “Um Shopping nunca será um lugar livre, um mercado de rua pode sê-lo ou não (há-os na sociedade esclavagista).———————-> O problema da perfeição é que neutraliza a transgressão”
    ganda pulo de ———————-> raciocínio.
    Dizem que na selva
    Reina a lei do mais forte
    então aos”selvagens” vocês declaram morte.
    E em nome da vossa lei,vosso progresso(?) e ordem(?)
    postos pés em terra,matam, sacam e destroem!
    Em nome do dinheiro e leis civilizadas
    Vidas que destroem
    Florestas queimadas
    E agora vejam bem, qual é a vossa lei
    que em terra de descalços quem tem bota é rei
    dinheiro e propriedade
    é mais forte quem?
    e a nossa liberdade imposta por uma lei
    que em terra de pobre, quem tem ouro é rei
    E esta nação “civilizada”
    Estará desgraçada
    enquanto o homem não regressar á era “passada”
    onde o respeito pla Natureza
    era a “lei ” mias venerada!!!!!
    junta as tuas mãos, vamos semear
    e dar voz a todos os povos que estão longe e a lutar
    plas suas tradições ancestrais
    o respeito pla terra e aos animais,
    a tudo o que é vivo
    e aos imortais!!
    Clarisse

  32. Clarisse, não sei o que são os imortais :) Mas não importa. ´
    O raciocínio dá um pulo, sim.
    Abraço

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