Apesar da crise, continuamos a perder o debate

A minha actividade profissional como aviador (de balcão, claro), não me deixa muito tempo para ir acompanhando a comunicação social… mas o que me parece é que a direita está a levar a melhor neste debate da crise.
Hoje é notícia em todo o lado que uma equipa de Ex-ministros vai visitar Cavaco Silva para lhe dizer que “o país deve parar as grandes obras”.

Bagão, Beleza, Campos e Cunha… algumas das cabeças que perderíamos para o estrangeiro caso não lhes pagássemos tão bem por cá…

A mensagem que fica é a mensagem da direita.
Estes senhores aparecem como uma espécie de conselho de sábios. Especialistas que vão avisar os governantes sobre o melhor caminho para o país.
Quem ouvir hoje Bagão Félix, Miguel Beleza ou Catroga a falar, pode, distraído, até pensar «que pena não termos tido estas cabeças no governo do país». Mas na verdade tivemos e tivemos até bastante tempo e em tempos em que a conjuntura económica era bastante mais fácil.
É preciso dizer que estes senhores são tão ou mais responsáveis do que Teixeira dos Santos e Sócrates pelo estado da economia portuguesa e que o seu discurso, a pretexto das “grandes obras”, é a mesma música de sempre, da contenção da despesa pública, que combina tão bem com as privatizações, a diminuição das prestações sociais, a descida de impostos e a progressiva retirada do Estado da economia.
O próprio facto de esta peregrinação de “sábios” ser feita a Cavaco (que, já agora, foi Primeiro-Ministro durante os 10 anos em que Portugal mais dinheiro a fundo perdido recebeu para o seu desenvolvimento), é uma parte fundamental desta narrativa que se está a construir, que procura dizer que a culpa da crise está num Estado que gasta mais do que o que tem e num Povo que vive a cima das suas possibilidades.
A esquerda, por seu turno, neste debate, parece paralisada. Nem sequer percebi como PCP e BE vão votar… Com medo de aparecer na fotografia a ajudar o PS, a esquerda prefere não se meter ao barulho, esquecendo-se que mais importante do que desgastar o Governo de Sócrates (que aliás já é um morto-vivo), é ganhar espaço no debate, ganhar cada vez mais consciências, colocar cada vez mais estes especialistas da treta no seu lugar.

10 thoughts on “Apesar da crise, continuamos a perder o debate

  1. O que estás a dizer é que faz falta um Al Gore da economia. Isso levava a uma discussão enorme – que ninguém quer ter.

  2. No meio do “pânico todo” (ai, ai, ai que estamos na bancarrota…), aquilo que o sr. Pinto de Sousa (vulgo Sócrates) conseguiu (terá mesmo?…) foi anestesiar o pessoal para assim poder impor um “pacto de regime” (o famigerado bom senso do “bloco central”) e ter toda a razão para apelar à unidade nacional (e os trabalhadores que paguem a crise…)

  3. curiosidade engraçada é que na maioria destes iluminados, quase todos auferem reformas pagas pelo estado, decorrentes da sua actividade, e que não são propriamente pensões de sobrevivência.

  4. permito-me fazer um comentário.
    As grandes obras públicas alimentam as empresas de quem? E as grandes obras públicas não serão todas iguais: entre um TGV e uma terceira auto-estrada Lisboa-Porto (WTF?!?), alguma coisa será prioritária e alguma coisa será gasto desnecessário, para alimentar as empresas dos amigos do costume. Isto para dizer que, se calhar, também não se pode defender o investimento do estado em toda e qualquer circunstância. Não é?

  5. É evidente a tentação da ‘anestesia’, e pior a do populismo, é fácil o ‘vai trabalhar malandro’ e sem falar daqui a uns tempos dos ‘estrangeiros’ etc.
    Mas o ‘pacto de regime’ é muito mais do que uma imposição do governo: em primeiro lugar é uma ‘imposição’ dos mercados (não por acaso, vejam as notícias de Espanha hoje). O capitalismo chegou à fase em que pode, ou tem de, prescindir da ‘politica (no sentido que ele dá a esta palavra). A minha opinião é esta: o que se vai passar na Grécia vai servir de ‘exemplo’ aos recalcitrantes. Antigamente enforcava-se meia duzia de pessoas escolhidas ao acaso quando se conquistava uma terra – para tirar ideias aos outros.
    De resto, a anestesia e a desinformação chegaram a um ponto sem quaisquer precedentes na história. E agora muito mais do que há 150 anos não se pode ser social-democrata de manhã, marxista à tarde e libertário à noite… ou pode?! Digo mais, ou DEVE, no sentido de que é a unica estratégia globalmente possível?! (falo a sério, não ironicamente ou apenas ironicamente)
    OK, sou noctivaga ;)

  6. renegade, as grandes obras publicas são todas inuteis ou prejudiciais para nós, para quem não queira o modelo da ‘modernização’ – TGV, barragens do Sabor, autoestradas, submarinos e já agora empréstimos a Angola, que excedem o que se vai fazer à Grécia. Mas as grandes empresas estão formatadas para viver disso (por isso são grandes empresas) e têm trabalhadores que no 1.º de Maio pediram estabilidade no emprego. Este é o sinistro argumento do poder, e é a ele que se tem que responder, e responder bem.
    O resto é o que eu queria dizer no ultimo comentário: queremos o fim do Estado, mas que ele ‘invista bem’ enquanto não morre?! A ideia é tão estranha que se calhar está certa – mas nunca foi suficientemente levada a sério.
    De certa forma tem sido pensada a sério noutro contexto, o da luta contra as alterações climáticas – aí, gente que quer uma sociedade diferente e não apenas uma vitória eleitoral ou coisa que o valha tem trabalhado muito na questão do caminho para lá chegar, é mais visivel que não é possivel carregar no ‘stop’ de um dia para o outro.
    Estamos muito presos ao séc. XIX, é o que acho.

  7. Renegade: Não se pode defender o investimento público em todas as circunstâncias ou de qualquer maneira… Dizer isso seria dar acertar ainda mais ao lado do que não dizer nada.
    Não se pode é, perante isto, não deixar de denunciar que estes senhores são os responsáveis pelo estado do país. Não se pode é deixar de combater o seu discurso do deficit.
    No seguimento disto, digo que não concordo com a xica, quando mete barragens, submarinos e TGV no mesmo saco (mais empréstimos a Angola?)
    Mais: desejar o fim do Estado, num futuro utópico (utópico, no bom sentido!), em que as relações de produção, e não só, entre os seres humanos, sejam radicalmente diferentes, não tem nada de contraditório com o desejar agora um Estado democrático e interventivo na Economia.

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