A consistência é extremamente importante


Em fase acelerada de conclusão da pdt (aka «puta-da-tese»), tropeço numa pérola do pensamento académico-burocrático: as «Normas para a elaboração da dissertação» (http://www.fcsh.unl.pt/cursos/crossways/docs/normas-para-a-elaboracao-da-dissertacao) da FCSH/UNL, que parecem saídas do programa de um curso de escrita criativa para a terceira idade. Leio e releio e pergunto a mim mesmo se quem achou necessário dar à luz semelhante coisa não teria feito melhor em enviar os seus destinatários de volta para a escola primária ou, ainda melhor, para a Universidade Independente. Porque se isto é útil para alguém que está a redigir uma tese, que utilidade é que pode ter essa tese?
“Para cumprir os seus objectivos, o trabalho académico deve apresentar os seus argumentos de modo claro e convincente. Este é um aspecto crucial que nunca deve ser esquecido. Uma vez estabelecido o estilo que vai usar, mantenha-o até ao final. A consistência é extremamente importante. As convenções que irá utilizar deverão ser especificadas no início da sua dissertação.
Enquanto num trabalho o texto deve ser cursivo, a dissertação deve ser dividida em capítulos e poderá ser útil, em determinadas circunstâncias, recorrer a subtítulos. […]
Opte sempre pela clareza e a concisão na sua escrita. Deve evitar-se o uso da primeira pessoa: se não é a sua opinião, não deveria expressá-la. Este poderá ser importante na introdução, quando descrever o seu método de trabalho, mas noutras circunstâncias é desaconselhável.
Variar a extensão das frases e dos parágrafos poderá ajudar a tornar mais agradável a leitura do seu texto. Um único assunto será tratado em cada parágrafo e deve abrir outro quando mudar de assunto. É importante entender o momento em que se deve abrir parágrafo. Por último, não esqueça que o uso correcto da gramática não é um preciosismo e simplesmente corresponde a uma escrita precisa e sem ambiguidade.
Estabeleça o plano do seu trabalho e desenvolva-o de modo lógico, construindo a sua argumentação à medida que vai avançando.”

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15 thoughts on “A consistência é extremamente importante

  1. Não percebo o que de tão chocante se encontram nestes conselhos?
    São correctos e bastantes claros…
    Talvez para pessoas menos convencidas do que você, até possam ser de utilidade… não? :-)
    P.S.
    Apesar de não ter frequentado a Universidade Independente, sei por testemunhos vários que lá a qualidade do ensino não era assim tão má quanto isso… o problema daquela universidade privada foi, como certamente viu nos jornais, a parca ética dos seus dirigentes que fizeram uma série de falcatruas financeiras e colocaram em risco a viabilidade económica do estabelecimento de ensino, não havendo dinheiro para pagar a professores e funcionários e pondo em causa aulas, exames e pautas e, por conseguinte, paralisando a escola perto do final do ano lectivo. Tendo naturalmente os seus alunos pedido transferência para outras escolas e esvaziando a própria universidade.. enfim, dramas à portuguesa de um Ministério da Educação que não tem mão no ensino privado deste país!

  2. Acho curioso que ao fim de 12 anos de escolaridade, mais 3-4 anos de licenciatura, mais seminários de preparação de tese, uma pessoa necessite de um documento destes para conceber o que vai escrever. Não é preciso ser convencido, basta já ter lido meia dúzia de teses e uns quantos livros, para dispensar conselhos destes. Mas é verdade que é perfeitamente possível fazer uma licenciatura só à pala de apontamentos e sebentas, sem alguma vez ter lido um livro. Pergunto-me se, nesse caso, «normas» destas resolvem o problema?
    Em todo o caso, esta parte seguramente não corresponde a qualquer entendimento possível do que sejam «normas», que só podem ser confundidas com estas «sugestões» por quem já se habituou a levar as palavras muito pouco a sério.

  3. Não são os ‘conselhos’ que são chocantes, mas a realidade por detrás deles…
    Podia ser pior. Mas ‘levar as palavras muito pouco a sério’ é o diagnóstico exacto. O perigo na barbárie que chega é a sua sofisticação.

  4. barbárie?
    cara xica, é apenas um texto a dar umas dicas para se escrever uma tese!
    tenha dó!

  5. Na verdade as normas para uma tese não deveriam passar do tipo de letra e número mínimo e máximo de páginas. Tudo o resto deveria ser da exclusiva responsabilidade do autor. A mim até me devolveram a tese por não ter uma folha branca no anterosto, entrecosto, ou lá o que caralho chamaram àquilo.

  6. Suspeito fortemente que as pessoas preocupadas em definir «normas» deste género não fazem ideia do que escrever quando se sentam à frente do computador. Habituaram-se a ouvir, ler e reproduzir, quando se vêm forçados a correr o risco de avançar uma ideia própria tremem de pavor.

  7. Só por curiosidade, Rick. Quando terminares a tua tese, que tão anti-academicamente, e bem, qualificas como «puta-de-tese», vais passar a assinar os teus posts aqui no Spectrum como Dr.Rick Dangerous?

  8. Só por curiosidade, Rick. Quando terminares a tua tese, que tão anti-academicamente, e bem, qualificas como «puta-de-tese», vais passar a assinar os teus posts aqui no Spectrum como Dr.Rick Dangerous?

  9. Claro que sim. E usarei sempre do plural majestático. Aliás, usaremos.

  10. Pois eu cá acho que se não houvesse regras isto era tudo uma bandalheira!!! E como era se isto fosse tudo uma bandalheira??? Estávamos aqui todos a esfregar caquinha na cara uns dos outros, não era? Ah, pois era. Então vamos lá ver se damos o devido valor a este textinho de “normas”.
    Já escrevi para aí teses que eu sei lá, e se não tivesse lido estas regras que o Perigoso pôs à nossa disposição, ia continuar a escrevê-las de forma pouco clara, com ideias pouco concisas e argumentos nada convincentes. Daí que ache de extrema importância estas normas.
    Quer dizer, ainda se durante a minha vida alguma vez tivesse tido algum tipo de aulas ou coisa do género onde me ensinassem cenas tipo gramática e sintaxe, e onde tivesse que ler e escrever cenas… Ou se, sei lá, se pudesse trabalhar durante, sei lá, três ou quatro anos a investigar, a ler bué, a escrever bué, a pensar bué, e a construir hipóteses e argumentos em torno de um tema antes de escrever a tese… Bem, aí acho que estas “normas” não só seriam uma redundância do tamanho de uma vida, como ainda por cima seriam de muito limitada utilidade, seriam algo prepotentes, seriam bastante pretenciosas, e seriam acima de tudo pouco adaptadas às míriades de diferentes realidades que, no seu essencialismo genérico, pretendem tocar. Para além de tudo isso seriam também… hummm… estúpidas.
    Mas… foda-se! Isto é mesmo muito bom! Também nunca me tinha lembrado que “poderá ser útil, em determinadas circunstâncias, recorrer a subtítulos”!

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