Mandela, Soares, Savimbi e Cândida

Estava há pouco a almoçar e em imagem e som de fundo corria um programa da multi-premiada jornalista Cândida Pinto sobre Nelson Mandela. Ao que pude perceber, focando-se em Mandela, Cândida Pinto quis ouvir portugueses que com ele tivessem tido algum tipo de contacto, pelas funções que exerceram ou por terem conhecido pessoalmente a figura.

E quem foram os figurões? Nada menos que Durão Barroso, Ramalho Eanes, Cavaco Silva, Mário Soares e, calcule-se, Carlos Queirós! Também lá andava o Jorge Sampaio, já não sei porquê. Tudo gente com reconhecida militância variada a favor da causa anti-apartheid, denunciantes intrépidos do regime, apontados a dedo nos fóruns internacionais pela sua verve anti-racista e pelas campanhas de solidariedade que patrocinaram para os pretos sul-africanos e os povos da áfrica austral a quem o regime dos brancos sul-africanos apertava o garrote com a ajuda dos americanos.
Percebe-se a dificuldade de Cândida Pinto em arranjar portugueses que, antes e depois da entrega do poder na África do Sul, tivessem feito alguma coisa e pudessem testemunhar sobre a libertação de Mandela e o fim do regime. É um problema nosso, somos assim muito virados para o umbigo, um povo que não liga a esse tipo de preocupações.
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A coisa atingiu as raias do insulto quando ouvimos Mário Soares a dizer qualquer coisa sobre o carácter criminoso do apartheid e sobre a coragem de Nelson Mandela, a propósito de uma viagem realizada à A-S para “visitar o filho João Soares em convalescença na Cidade do Cabo após um acidente em Angola”. Fui só eu a lembrar-me de um certo avião caído/abatido na Jamba?…
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Fantástico Mário Soares, um dos homens da Unita em Portugal, um dos responsáveis pelo prolongamento da guerra em Angola para além do prazo de validade, um dos apoiantes de sempre de Jonas Savimbi, esse grande ponta de lança dos sul-africanos em Angola, mercenário a soldo do apartheid e do pentágono. Calcula-se que Cândida Pinto precise de gerir bem este tipo de silêncios e de dar púlpito sem contraditório a gente deste calibre para continuar a ser uma das mais premiadas jornalistas de investigação em Portugal. Outros não tiveram tanta sorte.

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11 thoughts on “Mandela, Soares, Savimbi e Cândida

  1. A Cândida Pinto falou com pessoas que conheceram Nelson Mandela. Qual é afinal o problema? Conhecem alguém que se tenha dado com Mandela e com quem a Cândida Pinto não tivesse falado? Não, pois não? Então qual é o ponto?

  2. O silêncio Paulo, o silêncio. João Soares apoiava Savimbi, que por sua vez era o homem dos sul-aficanos em Angola. O conflito angolano foi indissociável da luta na Àfrica do Sul – havia combantentes da Swapo e do ANC do lado do MPLA e o exército sul-aficano apoiava a Unita – e a família Soares fez questão de marcar presença do lado que se sabe. Um mínimo de honestidade teria colocado esse pormenor na reportagem. Mas já se sabe que isso é esperar muito.

  3. é isso, o silêncio.
    entretanto fui ver se o mário soares tinha ido à Africa do Sul por causa do acidente e de facto não foi. Limitou-se, enquanto presidente da república portuguesa, a receber Savimbi em Paris um mês depois do acontecido na Jamba. o silêncio que é uma forma, mais uma, de branquear a história.

  4. Por acaso, quem não gosta nada do Sá Fernandes, e até disse na SIC que a história do Domingos Névoa ter tentado corromper o Zé “estava muito mal contada”, é o homem que trouxe a Bragaparques para a Câmara de Lisboa, o próprio João Soares.
    É um pouco rebuscado, mas como o último anónimo acha que o Zé fazia falta na reportagem… (dito isto, fico a pensar se mais algum vereador do ambiente e dos espaços públicos da CML, alguma vez mais na história, será convocado a partir de um post sobre Nelson Mandela…)

  5. se repetirmos o exercício da pesquisa de conteúdos no spectrum, mas desta vez com a palavra Sá fernandes, temos ainda mais posts! Afinal, o spectrum é talvez o blogue que nasceu para falar de sá fernandes e não tanto de sindicatos. com bastante mais consideração pelo primeiro (que fez muita coisa boa, ao contrário dos sindicatos, como se sabe…)

  6. Mas porque será que em Portugal, fazer jornalismo é ir SEMPRE descobrir portugueses que tiveram relação com este ou aquele e fizeram isto ou aquilo com aqueloutro??? Que pobreza!! Não há meio de aprenderem. VEJAM MAIS TV internacional. Coitada desta Cândida Sofrimento… (sempre com cara de sofrimento).

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