
Nos comentários a este post, o Saboteur defende que a prisão e tortura de dois jovens da Amadora poderão constituir um reflexo de “problemas profundos e complexos, ligados à falta de formação, falta de cultura, falta de qualidade das chefias e até falta de respeito pelo próprio trabalhador-polícia, obrigado a fazer dezenas de horas semanais num trabalho ultra-desgastante e stressante… é claro que não ficam bons da cabeça”. Não existe qualquer dúvida que os polícias, tal como grande parte dos trabalhadores, ganham mal e trabalham demasiadas horas. A repressão policial, contudo, não poderá ser reduzida a um fenómeno causado pela ausência de um investimento quantitativo e qualitativo nas forças de ordem. Numa das obras mais inspiradoras sobre o «ser-se polícia» e o «ser-se ladrão», a série de televisão The Wire, constatamos como a tortura de suspeitos constitui uma prática institucional que se desenvolve no interior dos locais de trabalho, constituindo mais uma fase do processo de investigação do que um devaneio de um ou dois bófias. Não se trata assim de um problema derivado da falta de formação ou de cultura, mas sim da expressão de uma formação ou cultura profissional (que, obviamente, varia de esquadra para esquadra).
Considerando todas as especificidades deste caso, nomeadamente os seus contornos político-repressivos, não deixa de ser verdade que, mais uma vez, as vítimas deste modo de fazer as coisas são negros descendentes de imigrantes. O que faz com que não constitua um caso de polícia, mas sim um caso de aparelho de estado. A condição de não cidadania a que estão votados os imigrantes e os que deles descendem – quer em termos formais (negação do direito de voto, a título de exemplo), quer em termos informais (precariedade a todos os níveis, do trabalho à habitação) – torna a sua existência mais frágil. Um factor que, obviamente, será aproveitado pelas demais autoridades, seja a da polícia, seja a do patrão. Os eventos desta sexta-feira à tarde apenas vêm confirmar esta tendência.
Finalmente, é importante referir a importância dos meios de comunicação social na legitimação deste tipo de acontecimentos. Algo que se encontra longe de constituir um fenómeno recente. Em 1982, a CGTP convocou aquela que seria a primeira greve geral da história do regime democrático português. De acordo com Diego Palacios Cezerales, uma dramatização marcou então a cobertura mediática de tal ousadia: diversos meios de comunicação públicos, inclusive a RTP, vincularam a iniciativa a supostos planos insurreccionais, chegando mesmo a relacioná-la com a acção das FP-25 Abril. Durante a greve, convocada para o dia 12 de Fevereiro, ocorreram confrontos em Lisboa entre manifestantes e polícia. Meses depois, o governo civil do Porto resolveu ceder à UGT o espaço tradicionalmente ocupado pela CGTP nos festejos do dia 1 de Maio. Perante a eventualidade de conflitos entre membros das duas centrais sindicais, a PSP enviou quatro companhias da Força de Intervenção. Às 11 da noite do dia 30, já após o concerto organizado pela UGT ter acabado, uma carrinha da PSP é apedrejada. A polícia tenta desmobilizar tanto o grupo agressor, como todas as pessoas que se encontravam no local, lançando gás lacrimogéneo, disparando tiros para o ar, carregando sobre a multidão; esta, por sua vez, respondeu com pedras, não se retirando do local. Dos confrontos, resultaram duas mortes: uma pessoa atingida com uma bala nas costas, a outra – de acordo com as conclusões do inquérito da procuradoria-geral da república – foi executada com um tiro, contra a parede.
Não obstante a distância de acontecimentos, ambos os casos traduzem a existência de uma relação associativa entre intoxicação mediática e actuação policial. Na altura, o alvo era a CGTP. Hoje as shotguns apontam para quem ousa denunciar a militarização dos bairros ditos problemáticos.
bom post.
Ganda Dallas!
Eu sempre disse que este miúdo ia longe.
Que merda de texto :)
Então a fonte desta prosódia toda é uma…série de televisão? OK.
Tornou a acontecer: um amigo convidou outros para um concerto e perante os óbvios aplausos, por afecto, pensou que tinha tocado muito bem.
o the wire não é uma série de televisão, é o mais importante artefacto cultural do que vai de séc XXI.
…claro que sim. Artefacto cultural qualquer coisa. Cada macaco no seu galho. Diz só que foi feita por uma multinacional americana.
Anon,
esse purismo assusta-me. o teclado, computador, acesso à internet e todo o conhecimento que adquiriste até hoje para vires aqui fazer esses comentários vieram de onde, da mercearia da esquina? e mesmo que numa perspectiva idealista assim fosse, a mercearia é menos capitalista ou igualmente exploradora que a Sonae mas apenas numa proporção menor?
RIP Omar Little
Saca a série da net. Depois falamos.
Outro exemplo semi-ficcional (ups anon!) é o filme Battle in Seatle: en.wikipedia.org/wiki/Battle_in_Seattle. Lá é claramente ilustrado o quão a violência policial não é nem fortuita nem fora da lei.
p.s.:a honestidade e profundidade dos factos retratados no filme, vale o que vale.
Mas porque crlh é que alguem usa o nick com que eu costumo postar no spectrum meh..
Não adianta estarem a citar uma ou duas ou várias séries de ficção. Não é pelo número delas que a verborreia do Dallas se torna plausível. Porque essas séries nada mais fazem do que corroborar um juízo que já tinham antes de a verem, mormente: “a bófia bate mais em pretos e não é por eles serem proporcionalmente mais criminosos”. Dirão: sim, mas a série baseia-se em testemunhos e experiências de polícias profissionais.
Não é preciso ser nenhum merceeiro para se perceber que mesmo que isso seja válido, é-o para as condicionantes e contextos dos escritores da série…daí que a expansão apressada e atropeladora de lógica do Dallas para todos os outros contextos, nomeadamente o português, é pura e simplesmente, mesmo que coincida com a realidade, um acto de fé.
E há outra questão: no mundo do crime não intervêm só polícias, pelo que a ficção do post já se encontra condicionada por esse ponto de vista. Há juízes, ladrões, vítimas. Daí que pressupormos que a versão de um dos intervenientes no mundo do crime nem sequer vacila perante outras versões é simplesmente outra crença mal fundada.
Se quiserem vir à Amadora ou a Queluz gostava de vos apresentar outras versões sobre como jovens pretos vivem numa cultura do crime, com roubos, assaltos, insultos e a respectiva sensação de impunidade que reina. São eles que se segregam da comunidade e graças ao compadrio de parolos bem pensantes como vós :) ainda acham que estão a defender a sua identidade, ou os seus direitos perante o racismo de que são vítimas.
E quem é que partilha esta opinião? Serão os mitras brancos que convivem com eles? Gente reaccionária que não tem mais que fazer?
Não. Até membros do PCP. Juízes. Pessoas com bom senso e que não têm vergonha de falar dos factos. Mas um facto é isso. Acontece num determinado lugar. Dizer que há muitos lugares em que muitos pretos fazem merda não é dizer que os pretos o são :)
1. Muito feliz em ouvir uma expressão como “verborreia do Dallas”. Honestamente.
2. Existem claramente pontos em comum entre o contexto retratado pela série e o contexto descrito pelo post. Só quem concede demasiado valor à nação e não tanto à classe, uma categoria que atravessa fronteiras, poderá ver a coisa de outra maneira.
3. Cultura de impunidade? Como se portugal não tivesse uma das maiores taxa de encarceramento da Europa…
“Até membros do PCP”…
Deram um computador com net ao Mário Machado para ele se entreter na cela. Um conselho anon: faz uma busca por «skins polacos enormes» e deixa lá todos os comentários que queres fazer sobre Queluz, a Amadora e os «jovens pretos que vivem numa cultura do crime». Um dia a gente publica.
This atrcile keeps it real, no doubt.
UCJcdY nxrwbrcrcenl
To think, I was confused a mnitue ago.