Indiferentes como o mar que transporta navios


O mais impressionante no romance O Zero e o infinito (em inglês, Darkness at noon) – escrito em 1939 por Arthur Koestler, um ex-militante Komintern de origem austríaca – é a permanente sensação de empatia que qualquer comunista pode sentir para com Rubachov, o dirigente soviético caído em desgraça e acusado de conspirar contra Estaline, a unidade do partido e o superior interesse da pátria da revolução. Todas as recordações que o atormentam na prisão, entre os interrogatórios a que se vê submetido, confrontam R. – um velho bolchevique que não hesitou perante nenhum trabalho sujo ao serviço do poder soviético – com a sucessão de eventos que o conduziu até ali.
Expulsou das fileiras da Internacional um jovem carpinteiro alemão que reorganizou o Partido na sua cidade, após a vaga repressiva que assinalou a subida dos nazis ao poder, por este ter defendido a unidade de toda a Esquerda contra Hitler. Em seguida expulsou e caluniou a célula dos estivadores do porto de Antuérpia, por eles se recusarem a furar o boicote de venda de petróleo à Itália fascista durante a invasão da Etiópia, decretado pelo Komintern mas violado pela Agência de Comércio Externo Soviética. Finalmente, permitiu que a sua jovem amante fosse acusada de espionagem ao serviço de uma potência estrangeira, denunciando-a em público para não se deixar arrastar na sua desgraça.
E em todos esses momentos, Rubachov agiu por motivos estritamente políticos e sem que alguma vez os seus interesses pessoais tenham determinado a sua conduta. Foram sempre os superiores interesses da revolução e a convicção na imparável marcha da história a ditar o seu comportamento. Lentamente, o círculo fecha-se e ele, que resistiu a vários meses de tortura nas prisões da Gestapo, acaba por aceitar todas as acusações que lhe são feitas. Cada uma das suas escolhas anteriores conduziu-o a essa opção e o seu julgamento público é a farsa final, que assegura a Estaline o controlo absoluto sobre o partido e o Estado. O desafio, que R. aceita, é a renúncia à última forma de vaidade que consistiria na salvaguarda da sua dignidade pessoal, pela recusa de uma confissão pública e a escolha de uma execução “administrativa”, convenientemente secreta. No contexto dos processos de Moscovo, a dignidade pessoal era a derradeira traição aos interesses do proletariado e Rubachov deve admitir os mais infames crimes de maneira a tornar a sua execução um elemento de reforço da revolução.
Todos os personagens são construídos com uma contenção extrema, mas simultaneamente com o grau de complexidade que lhes confere uma verosimilhança rara nos textos ficcionais que se debruçam sobre o universo concentracionário do Estalinismo. Ninguém é apenas grotesco e até o mais cínico dos carcereiros invoca sinceramente a seu favor a convicção de agir pelos mais elevados interesses. Algumas figuras são tão familiares que quase poderíamos julgar tê-as conhecido em pessoa…
Na sala onde interrogam R., está a fotografia do “Nº1”. Ao seu lado uma marca na parede, onde durante muitos anos estivera uma outra foto, de um congresso de revolucionários clandestinos e ilegais, realizado no estrangeiro. A marca que sinaliza uma ausência está presente em muitos outros locais por onde passa o olhar de Rubachov, relembrando-lhe os seus ex-camaradas desaparecidos e o destino que também o aguarda. O primeiro dos seus interrogadores – ao lado de quem Rubachov havia combatido durante a guerra civil – não sobreviveu ao seu interrogatório. É provável que o segundo não tenha sobrevivido à sua confissão. A revolução não sobreviveu a nenhum deles.
Diz Rubachov, a dada altura, ao primeiro homem que o interroga :

Nesse tempo chamavam-nos o Partido da Plebe. Que sabiam os outros da história? Ondulações passageiras, pequenas marés e ressacas. Espantavam-se com as mudanças da superfície e não conseguiam explicá-las. Mas nós tínhamos descido ao fundo, às massas informes e anónimas que desde sempre constituíram a substância da história; e fomos os primeiros a descobrir as leis do seu movimento. Descobrimos as leis da sua inércia, da lenta mudança da sua estrutura molecular, e das suas súbitas erupções. Essa era a grandeza da nossa doutrina. Os jacobinos eram moralistas; nós éramos empíricos. Cavámos na primitiva lama da história e aí encontrámos as suas leis. Sabíamos mais do que qualquer homem jamais soube sobre a humanidade; e por isso a nossa revolução foi bem sucedida. E agora voltámos a enterrar tudo…
As massas tornaram-se de novo surdas e mudas, o grande x silente da história, indiferentes como o mar que transporta navios. Cada luz que passa reflecte-se na sua superfície mas, no fundo, tudo é escuridão e silêncio. Há muito, muito tempo, conseguimos agitar os fundos, mas, agora, tudo acabou. Por outras palavras, nesse tempo fazíamos história; agora fazemos política. E essa é a grande diferença.

5 thoughts on “Indiferentes como o mar que transporta navios

  1. pois é. gostei de ler. tudo me parece já tão longínquo…mas nunca perdoarei àqueles filhos da puta o que fizeram.
    já agora, quando é que te deixas de merdas e vens tomar uns copos à festa do avante? Aquilo não é só gente do calibre deste Rubachov, como sabes. E mesmo os que são, tê-los a trabalhar para mim a tirar imperiais não me causa a mínima impressão.

  2. pensando melhor, há aqui uma tragédia que também é muito do comunismo que vivemos. essa de a própria indignidade na morte justificar-se com os interesses da revolução/partido. de facto, metaforicamente, é o que muitos fizeram quando decidiram calar-se em vários pontos da sua trajectória militante.

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