Leituras de Agosto

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«Carlos Brito, dirigente destacado do nosso Partido, militante de muitos anos, que passou o duro caminho da luta e da vida clandestina, das prisões, das torturas das condenações, não é um candidato à procura de promoção pessoal (…)».

É com estas palavras que Álvaro Cunhal apresenta o candidato do PCP às eleições presidenciais de 1980 e autor do livro de memórias “Álvaro Cunhal – Sete Fôlegos do Combatente”. Eleições em que o PCP viria a retirar a sua candidatura para apoiar Ramalho Eanes e derrotar o candidato da direita.
Aproveite-se, então, já esta oportunidade para sublinhar que, por um lado, estamos perante um livro de memórias singular de um homem particularmente bem colocado para testemunhar sobre Álvaro Cunhal e os extraordinários acontecimentos do período da história de Portugal, no qual o livro se desenrola. Por outro lado, estamos perante um livro de relevante actualidade política, que nos faz pensar no passado, mas também, através dele, no presente e nos combates do futuro.
O livro está organizado formalmente em três partes. As duas primeiras são memórias quase cronológicas: desde o primeiro encontro com Cunhal, em Paris, onde Brito, saído recentemente da prisão, assume acrescidas responsabilidades no Partido, até ao 25 de Abril e, depois, desde o 25 de Abril até ao XVI Congresso do PCP, em 2000. Na terceira, de uma maneira mais solta, Brito procura testemunhar mais sobre a personalidade do líder histórico do PCP, o seu sentido de humor, a sua sensibilidade, as suas embirrações…
Diríamos, no entanto, que são outras duas partes que nos ficam na memória: uma primeira ritmada pelos “sete fôlegos do combatente”, que dão título à obra, e uma segunda em que um oitavo fôlego, não de Cunhal mas sim de uma nova geração de dirigentes do Partido, liderado então já por Carlos Carvalhas, impulsionadora da Resolução do Comité Central designada de “Novo Impulso”, merece a oposição de Cunhal e marca o seu regresso à vida e à luta interna do Partido.
Os sete fôlegos são, como descreve Brito, sete “sobressaltos ideológicos [de Cunhal], viragens tácticas para abrir caminhos, quase sempre surpreendentes, mesmo para os que o acompanhavam mais de perto, que tanto podiam seguir-se a uma grande vitória como a grandes dificuldades ou derrotas”.
Sem sistematizar aqui os sete, note-se, a título de exemplo, “A Linha Conciliatória do Comité Central de Alhandra, de Agosto de 1975”, um fôlego bem sucedido que contribuiu para evitar a guerra civil e mitigar, depois, as consequências do 25 de Novembro para o PCP e para o movimento dos trabalhadores em geral. Ou a “Tese do Campo Social Politicamente Vazio”, em que o PCP apoia a criação do PRD, na convicção que este ganharia parte do eleitorado do Bloco Central e contribuiria para uma modificação da arrumação das forças parlamentares que quebrasse o bloqueio que impedia o acesso dos comunistas à área da governação.

O oitavo fôlego, o “Novo Impulso”, contendo um conjunto de decisões sobre organização interna e de relacionamento do PCP com a sociedade, conferindo-lhe maior abertura e dinamismo, foi a primeira grande viragem de orientação partidária que não teve Cunhal como autor.
Desta vez, segundo Brito, Cunhal não teve novo fôlego, mas sim deu um salto atrás, recuando mesmo em relação a rasgos analíticos que tinha personalizado no XII, XIII e XIV Congressos. Apoiou a ala conservadora do Partido numa dramática luta interna que gerou divisões e dissidências com uma magnitude nunca antes observada. Uma luta ainda muito pouco estudada e documentada, o que torna ainda mais valioso o testemunho de Carlos Brito.
Assim, esta obra é importante para conhecer o pensamento e a acção de Álvaro Cunhal, mas também um documento incontornável para a história do PCP e também para a história de Portugal, nomeadamente no que diz respeito aos primeiros anos de democracia.

11 thoughts on “Leituras de Agosto

  1. Sem entrar em apreciações globais sobre este livro, creio que um facto merece ser referido como querendo certamente dizer alguma coisa.
    É que, nesta obra, Carlos Brito conta um determinada versão dos acontecimentos e escolhas quando se tratou de eleger um Secretário-geral adjunto para o PCP.
    Em entevistas ao «DN», Carlos Carvalhas e Domingos Abrantes declararam com toda a nitidez que a versão apresentada por Carlos Brito é completamente falsa.
    Depois disto, grande mistério, não aconteceu nenhuma das duas coisas que, em circunstâncias normais, deviam ter acontecido:
    – uma, um jornalista tirar-se das suas tamanquinhas e ir perguntar a Carlos Brito o que tem a dizer sobre aquelas afirmações de Carlos Carvalhas e Domingos Abrantes;
    – a outra, Carlos Brito tomar ele próprio a iniciativa de comentar os desmentidos daqueles seus dois ex-camaradas.

  2. Sem entrar em apreciações globais sobre este livro, creio que um facto merece ser referido como querendo certamente dizer alguma coisa.
    É que, nesta obra, Carlos Brito conta um determinada versão dos acontecimentos e escolhas quando se tratou de eleger um Secretário-geral adjunto para o PCP.
    Em entrevistas ao «DN», Carlos Carvalhas e Domingos Abrantes declararam com toda a nitidez que a versão apresentada por Carlos Brito é completamente falsa.
    Depois disto, grande mistério, não aconteceu nenhuma das duas coisas que, em circunstâncias normais, deviam ter acontecido:
    – uma, um jornalista tirar-se das suas tamanquinhas e ir perguntar a Carlos Brito o que tem a dizer sobre aquelas afirmações de Carlos Carvalhas e Domingos Abrantes;
    – a outra, Carlos Brito tomar ele próprio a iniciativa de comentar os desmentidos daqueles seus dois ex-camaradas.

  3. A elevada perspicácia política que levou à criação do PRD também não é propriamente consensual. 10 anos de cavaquismo estão aí para o provar. Quanto às teses conciliatórias de Agosto de 1975 a coisa também fia mais fino. O Partido jogou em todos os tabuleiros, como se pode verificar pela sua adesão à FUR (frentismo com a extrema-esquerda) e a participação nos SUV. O Cunhal de que fala Brito só mostra a cara, mas nunca a coroa.

  4. Ao Rick aconselho a ler o livro antes de tirar conclusões precipitadas.
    De facto, Brito fala da criação do PRD como uma experiência falhada. Logo o Partido começa a perceber que o PRD entra no eleitorado do Bloco central mas também no seu próprio eleitorado e depois há todos os acontecimentos posteriores, que são também referidos/relembrados nestas memórias (sabiam/lembram-se que o PCP chegou a aceitar apoiar um governo PS/PRD sem a participação de comunistas, desde que fossem assumidos alguns princípios programáticos?), nomeadamente o papel de Mário Soares, que levaram aos tais 10 anos de cavaquismo e ao mais duro golpe sobre o 25 de abril.
    Quanto à adesão à FUR, tens de mesmo ler o livro, camarada historiador. Parece-me que a versão dos factos do membro da Comissão Política que negociou a adesão do PCP e que depois levou uma dura repreensão do Secretário-Geral e teve de voltar com todo o acordo atrás, é não só uma história deliciosa como incontornável para quem estuda o PREC.

  5. Julio: Essa é uma muito boa questão.
    Acho natural que no momento do lançamento do livro, Brito não tenha querido reduzir este importante documento a uma picardia sobre quem é que era o preferido de Cunhal para a sua substituição.
    Agora, acho que Brito devia voltar ao assunto até porque realmente, os termos e o plano em que o Domingos Abrantes mete as coisas são bastante graves (“aldrabice”??!!)
    Essa coisa de Carvalhas ter aparecido a dizer que ele é que foi a primeira escolha e não Luis Sá é que me deixou impressionado. Senti uma certa vergonha alheia, mas enfim…
    O que se percebe pelas memórias de Brito – e que me parece bastante verosímil – é que houve uma verdadeira dificuldade em encontrar um substituo para Cunhal. Abrantes não queria, Luis Sá não queria, Carvalhas não queria e outros também não.. Percebe-se também que se esteve até muito tarde sem solução até que Carvalhas mostrou disponibilidade (revolucionária) para aceitar a dura tarefa.

  6. Eu gostaria de ver num partido comunista, ou naqueles que se reclamam do comunismo, um debate sério sobre a luta de classes e a revolução.

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