Desde que vi um porco a andar de bicicleta já acredito em tudo ou o dia em que Trotsky perdoou Estaline

Este comunicado da Ruptura/FER é no mínimo insólito. Depois de apresentarem as suas razões para desaconselhar o voto em quase todos os candidatos presidenciais (sobretudo em Alegre), sugerem o voto em branco ou no… «candidato do PCP».
Passando por cima de uma análise mais elaborada sobre o que levará a secção portuguesa da IV Internacional a aconselhar o voto num candidato do PCP (eventualmente o facto fala por si, nem é preciso elaborar nada…), há dois aspectos a assinalar nesta indicação de voto de escolha múltipla. Em primeiro lugar, o voto em branco ou o voto em Francisco Lopes têm consequências políticas e eleitorais absolutamente opostas e contraditórias. O voto em branco contribui, de facto e independentemente do que se possa pensar sobre o assunto, para a vitória de Cavaco (a não ser, evidentemente, que a opção na cabeça do eleitor se ponha entre Cavaco ou a abstenção). Pelo contrário, o voto em Francisco Lopes contribui para uma potencial (embora pouco previsível) segunda volta. Se a segunda volta, como parece óbvio, for entre Cavaco e Alegre, então quem seguir esta indicação de voto poderá estar, em última análise, a contribuir para a vitória de Alegre nas eleições.
O outro aspecto interessante é a indicação de voto em branco em vez da abstenção pura e simples. Geralmente, a justificação que se utiliza para o voto em branco é qualquer coisa do género «o acto eleitoral é importante, eu quero participar nele, mas não me revejo em nenhuma das candidaturas», em contraponto com a simples abstenção, que indicia um distanciamento (por opção, por inércia ou por «despolitização») do acto eleitoral. Ora, a Ruptura/FER parece valorizar este acto eleitoral ainda que lhe falte, como diz o comunicado, uma «candidatura anticapitalista». Será impressão minha, ou há aqui uma adesão inconfessada à democracia burguesa?

19 thoughts on “Desde que vi um porco a andar de bicicleta já acredito em tudo ou o dia em que Trotsky perdoou Estaline

  1. percebo a crítica. só não vejo onde é que está a “adesão inconfessada à democracia burguesa”.

  2. @Anónimo: ninguém é estalinista por votar no PCP. Eu próprio já votei no PCP uma data de vezes e não me colocaria nessa categoria…
    @Filipe: a «adesão inconfessada» era uma meia-provocação. A questão é que se se conclui que era necessário haver uma candidatura anticapitalista e não há e que todos os candidatos se equivalem no facto de não serem anticapitalistas, então terá de se concluir, digo eu, que estas eleições perdem importância no contexto da luta anticapitalista. Se, ainda assim, se apela ao voto em branco em vez da abstenção, parece-me que o que resta é a valorização do acto eleitoral em si, da representação política, da democracia burguesa.

  3. Por acaso eu acho que o mais interessante no comunicado é o facto de eles não terem a certeza do que o proletariado revolucionário deveria fazer. Numa organização leninista, a linha costuma ser um pouco mais clara e, mesmo que existam duas hipóteses plausíveis, costuma-se considerar que uma é melhor do que a outra. Afirmar simplesmente que “votar em branco ou no candidato do PCP será a forma que inúmeros militantes anticapitalistas vão encontrar para manifestar o que lhes vai na alma” é um pouco contraditório com a pretensão de construir uma direcção revolucionária.
    Mas o tempo passado nas caixas de comentários do spectrum talvez lhes tenha retirado a disponibilidade para aprofundarem o seu debate acerca destas eleições.

  4. O título é parvíssimo.
    Ao contrário de muitas pessoas neste blog, ainda não vi a luz e não percebo em que termos é que votar implica uma desistência do trabalho revolucionário e uma desistência em favor da “democracia burguesa”…
    Suponho que se estejam a referir à existência de um mundo paralelo ou a um jogo de plataformas em que a política representativa está desligada de uma realidade extremamente fervilhante de fulgor revolucionário e de agitação das massas.
    A oposição talvez seja entre o “do mal o menos” e o “quanto pior melhor”. Quanto ao voto, ainda estou do lado do “do mal o menos”.
    À posição do Ruptura/FER, eu retiraria a sugestão do voto em branco.

  5. Não acho nada que o voto seja «uma desistência do trabalho revolucionário e uma desistência em favor da democracia burguesa». O voto é um instrumento de intervenção política como qualquer outro, que pode ou não ser usado consoante as circunstâncias. E nas circunstâncias deste acto eleitoral até acho que é muito importante usá-lo, e eu vou usá-lo. O que eu quis dizer é que apelar ao voto em branco em vez da simples abstenção, para mais, como é o caso, não tendo o voto em branco qualquer efeito político diferente de não votar, não creio que possa significar outra coisa senão uma valorização da participação em si mesma no acto eleitoral. E essa formalidade do voto, independentemente do seu significado político concreto em cada situação concreta, é uma das características da democracia burguesa.
    O Francisco Lopes tem tanto a ver com o Estaline que nem precisa de usar bigode…

  6. Na Mouche, Manic Miner.
    Por outro lado há ainda uma questão a analisar: Como é que se sentirá o camarada chico lopes com um apoio destes? Será que o Albano e a manuela bernardino não se mostraram preocupados com um apoio tão “complicado”? E aquele nosso grande amigo e camarada que gostava de ostentar uma t-shirt com uma foto do “el mata trotskistas”? ehehehe
    Bem, na verdade, piadas à parte, é como diz o Rick. E portanto, provavelmente, Albano terá reagido ao comunicado com um sorriso condescendente.

  7. Sem querer meter a mão em seara alheia, eu também já vi autonomistas a chamar ao voto no Defensor de Moura e trotskistas, maoístas e bloquistas afins, a defender o voto no candidato do PS. Será nesse caso devemos fazer a mesma aplicação da lógica de regime que o Manic Minner propõe?

  8. Mas lá está, esse «autonomista» e os afins apelam a um sentido de voto concreto e não a uma de duas alternativas, por sinal com efeitos completamente diferentes. Nenhum deles defendeu o voto em branco, pelo que aplicar a lógica proposta por Manic Miner se torna impossível.
    Gosto do paralelismo entre realismo e conformismo. Claro está que ele só é possível quando se considera que a única alternativa ao conformismo é viver num mundo à parte. Nesse sentido, penso que todos (ou quase todos) os que escrevem no spectrum são sobretudo realistas.
    E não se trata de considerar que a “política representativa está desligada de uma realidade extremamente fervilhante de fulgor revolucionário e de agitação das massas”. Ela não está desligada. Na maioria dos casos, ela está contra essa realidade que, sem ser extremamente fervilhante, é algo completamente diferente, que fala outra linguagem e age segundo outros cálculos. E que mete medo suficiente para pôr os arautos da política representativa a brincar aos polícias. Até ao dia.

  9. Entretanto, lido no Público, Arnaldo Matos, apela ao voto em Manuel Alegre e lembra que “o voto em branco ou a abstenção apenas servirá para eleger Cavaco logo à primeira volta”.
    Ao Renato, lembro que não é excepção, nestas eleições, os comunistas fazerem uma utilização estratégica do seu voto nas presidenciais, procurando não só eleger um presidente da republica mais à esquerda possível, como ter a maior influencia possível na eleição do presidente da república e, por conseguinte, no desenrolar do seu mandato.
    O que é verdadeiramente extraordinário, é que certa esquerda dita “trotskista”, para além de, como sempre, gastar boa parte das suas energias a combater a esquerda que no seu entender tem desvios de direita, desta vez extreme a sua oposição a esta parte da esquerda (que insiste em procurar ganhar influência junto do poder eleito) ao ponto de apelar ao voto no seu arqui-inimigo, PCP (ou então em branco – eheheh ).

  10. eu vou votar COELHO porque ele foi expulso/saiu do pcp e diz que é mais comunista que todos os outros. Esse Matos não foi aquele que votou Eanes com o ppd em 76? acho que me lembro dele.

  11. politicAs de merdA com merda de politicos. e as moscas discutem qual merda escolher. é o que dá tanta fartura de merda.

  12. Está tudo percebido. Opção táctica do amigo do amigo é estratégia política alvo de debate fraterno, opção táctica dos trotskistas é capitulação alvo de fúria gurilácia. Um bocadinho mais de política, se faz favor!

  13. Está tudo percebido. Opção táctica do amigo do amigo é estratégia política alvo de debate fraterno, opção táctica dos trotskistas é capitulação alvo de fúria gurilácia. Um bocadinho mais de política, se faz favor!

  14. Já encontrei o candidato que há-de levar o meu cartão vermelho às elites portuguesas, esse candidato é o José Manuel Coelho.
    Palhaço e maluco é o povo que vota sempre da mesma maneira esperando obter resultados diferentes!

  15. Já encontrei o candidato que há-de levar o meu cartão vermelho às elites portuguesas, esse candidato é o José Manuel Coelho.
    Palhaço e maluco é o povo que vota sempre da mesma maneira esperando obter resultados diferentes!

  16. Eu não tenho simpatia nenhuma pelo MRPP. Só assinalei que os camaradas, que inicialmente tinham sugerido a abstenção como orientação para as presidenciais, corrigiram o tiro.
    De qualquer forma, não é tão estranho o apoio do mrpp ao alegre, como seria se fosse de apoio ao chico lopes… e sobretudo, nada disso é comparável ao apoio do ruptura ao chico lopes ou voto em branco. Não é “capitulação alvo de fúria gurilácia” (esse tipo de fúria costuma vir mais desse lado, ó amigo). É apenas divertido.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s