A propósito do Rossio, um facto incontestável


Garante Fernanda Câncio que se limitou a oferecer do acampamento do Rossio uma imagem tão verídica e representativa como qualquer outra: Esta.
Eis o que escreveu na caixa de comentários, em resposta a quem pôs em causa a seriedade intelectual de semelhante post:
esta foto foi tirada no rossio. isto é o rossio. não está lá só isto – não. há mto mais q este lixo; há a estátua cheia de cartões, de panos e cordas; há tendas; há sofás; há pessoas. eu tirei a foto q m apeteceu tirar. é a foto q eu tirei, e como foto é naturalmente parcial. mas má fé? porquê, porq achas q isto tem mau aspecto? tem sim senhora. mas está lá, e ñ é preciso fazer qq esforço para ver.
Este jogo sonso continua alguns comentários abaixo: deixa-m dizer-t q acho espantoso q as pessoas achem q têm o direito d transformar a principal praça da cidade numa lixeira e q s espantem s alguém lhe chama lixeira, e mais q espantar-se falem em má fé. ou seja, de desonestidade. honestamente, joana, achas q tens o direito d fazer aquilo? porq eu acho q ñ tens.
Vejo que algumas pessoas se indignaram e acharam bem perdidos os minutos passados a argumentar com Fernanda Câncio e a explicar-lhe que aquele foi o ponto da praça escolhido para recolher o lixo, de maneira a que ele não seja simplesmente atirado para o chão. Mas Fernanda Câncio sabe perfeitamente isso e muito mais, o jogo dela é outro e chamar-lhe má-fé é um eufemismo deslocado. Diria ela porventura o mesmo de uma rua conspurcada por milhares de panfletos e “brindes” após uma arruada de Sócrates? Imagine-se uma foto de semelhante cenário, encimada pelo título “campanha socialista, 27 de Maio de 2011” e calcule-se a gritaria que não iria por aqueles lados.
Fernanda Câncio não entende, porque não quer entender, que o espectáculo sórdido que esta campanha eleitoral nos tem proporcionado é bastante mais lamentável, para não dizer aborrecido, do que qualquer imagem captada no Rossio, ou do que a mais estereotipada ou circense intervenção naquelas assembleias.
Para ver se nos entendemos: há pessoas pobres que são arregimentadas para servir de figurantes em comícios de José Sócrates em troca de uma sandes ou de uma refeição quente. Que isso não tenha motivado qualquer comentário no Jugular diz tudo sobre a preocupação que ali se nutre pela saúde da democracia.
Tudo o que aqui se escreve sobre as interessantíssimas opiniões de Câncio pode ser estendido a outras luminárias várias, como Pacheco Pereira (que volta a queixar-se que a extrema-direita não tem os mesmos direitos), José Manuel Fernandes (que recomenda Tocqueville em vez de Marx para a biblioteca do Rossio) ou Miguel Sousa Tavares (este nem sequer disse nada que se percebesse, limitou-se a demonstrar que não gosta de ver pessoas a discutir política numa praça). Parece que Helena Matos também escreveu qualquer coisa que pode, a custo, ser considerada uma “reflexão”.
Eles não entendem nem querem entender nada do que ali se passa, porque valorizam na democracia, acima de tudo, aquilo que lhes paga o jantar. E todos sabemos como se têm banqueteado. Ter suscitado o incómodo – e até, note-se, uma saudável indignação – de todas estas pessoas é já uma incontornável vitória deste movimento. Ele está a irritar as pessoas certas. Bastas vezes demonstrada ao longo dos últimos anos, a sua imbecilidade é agora um facto incontestável.

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14 thoughts on “A propósito do Rossio, um facto incontestável

  1. Todos os instalados temem uma manifestação espontânea que não usa o vocabulário a que eles, os instalados, estão habituados. É essa a natureza das Revoluções: acrescentar léxico.

  2. Não Dinis. Apenas um pouco de pudor no momento em que partilham a sua estupidez com os leitores. Não lhes custa nada e dá-nos um jeitão.

  3. Ela podia era trazer brioches pr’ó pessoal!
    (E não se ponham com brincadeiras de segundos sentidos, que eu estou mesmo a falar da Mª Antonieta)
    Mas eu queria era salientar o que dizes e que:
    1º — chegámos às tvs, só foram precisos 8 dias para darem a notícia! Que rapidez!!!
    2º — se tanta gente está incomodada, a coisa já deve ter mais importância até do que o que eu me apercebi!

  4. valorizam aquilo que lhes paga o jantar, parece-me assim de uma maneira mto resumida, uma das melhores formas de definir a coisa…

  5. Já vi Carlos. Mas ele está claramente abaixo das tuas capacidades. É mesmo o que menos vale a pena no meio destes todos.
    Caro anónimo insistente, já te foi explicado (e até desenhado) o que eu penso destas fotos e do “grupo da garrafinha de Loios”, mas aqui vai novamente: é um dos melhores e mais auspiciosos sinais deste movimento que os bêbados, pedintes, pobres, loucos e sonhadores que percorrem as ruas de Lisboa tenham encontrado ali um espaço para dormir e comer. Nem sempre é fácil, mas a vida não se faz apenas de coisas fáceis.

  6. Vou agora deitar-me um bocado para me rir descansado durante uma boa meia hora, pois acabei de ler todos os comentários do post da f. cancio. bom post, rick

  7. Vindas de cavalgaduras como estas, as distorções deviam ser motivo de regozijo para a malta da acampada.
    De facto, elas estarão com medo de quê?

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