Multiplicam-se as tentativas de justificar o descalabro eleitoral do Bloco de Esquerda. Este é só mais um contributo para a miséria.

A “ala direita” do bloco, conotada com os sociais-democratas oriundos da Política XXI, tenta justificar a recente derrota com a alegada deriva esquerdista interna, protagonizada, alegadamente, pelo Ruptura e pela UDP. O erro do BE foi ter-se colado ao PCP, considera mesmo Daniel Oliveira. O aparelho, pela mão de Fernando Rosas, teve um discurso fundamentalmente avestruziano, ou seja, tudo correu bem: a campanha, o programa eleitoral, o trabalho destes últimos anos… o povo é que é parvo e se deixou manipular pela imprensa propagandeadora das verdades construídas pela direita…
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Esta derrota é a derrota da social-democratização da esquerda anti-capitalista e por isso gosto dela. Durante anos, a estratégia do BE foi crescer, crescer, crescer, mas à direita (posicionalmente, claro). O Alegre (que estava no hotel altis a dar abraços a Sócrates na noite da sua derrota) era preferível ao PCP, a conferência de imprensa ganhava à comissão de trabalhadores, um pequeno grupo de eleitos era sem dúvida melhor que fazer partido e discutir na base um programa anticapitalista… Depois os episódios de apoio à Nato de um dos seus deputados, apoio ao FMI na Grécia, preferir renegociar a dívida a simplesmente não a pagar ou retirar referências às “minorias” do seu programa eleitoral. Ou seja, toda uma grande estratégia de colher votos de socialistas descontentes. O problema é que não se pode tentar passar o PCP pela direita e pela esquerda ao mesmo tempo. Ou tentavam produzir um discurso realmente anticapitalista ou retiravam de vez o “socialismo” do programa e disputavam com o PS, cara a cara, o seu eleitorado. Não há clientes para toda essa salada na mesma malga.
Esta é uma derrota que não me desagrada nada, porque é a derrota da ideia que o “alaragmento” da “esquerda” (conceito que cada vez mais não passa de uma imagem) passa por grandes convergências à direita (posicional bem sei), onde cabem patrioteiros caravelistas ou discursos de legitimação de alguma da dívida numa grande gestão da crise. O grande argumento era que quem assim não via a coisa – bando de sectários! – não trabalhava para a grande transformação da esquerda; os números das eleições bem mostram que esse eleitorado não queria, em nome dessa suposta convergência, o abandono do discurso anti capitalista, e só isso justifica a quebra de mais de 200 mil votos e tantos votos deslocados de gente que todos conhecemos cara a cara que votou, pela primeira vez, no PCP em duplo voto de protesto: contra o Governo e contra o Bloco de Esquerda.
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Ouve-se agora ao fundo um carpir fragmentado para que esta situação se resolva com um golpe palaciano. A nata tem de ser substituída porque está azeda. Logro, logro, é que o BE é e sempre foi pouco mais que a sua direcção, e salvo algumas pequenas franjas residuais, o pequeno partido que cresceu fora da direcção está feito à imagem e semelhança dela. Assim, quem irá substituir aquela gente? Só mesmo o Gil Garcia (que colhe menos consenso ali que uma amiba e é tão desligado dos movimentos sociais como toda a direcção do partido): não há BE fora disso…
Mas não há problema e os actuais dirigentes podem estar descansados, e sabem disso não é? É que além de não haver alternativa, durante estes anos a estratégia foi clara: funcionalizar gente com capacidade assim-assim, para ter um exército de capacidade crítica nula que possa trabalhar arduamente nestes momentos, dentro e fora do partido, em reuniões e em blogues, em artigos de opinião e em facebooks, para garantir que as críticas serão bem abafadas e para conseguirem convencer que, como disse o Fernando Rosas, esta até foi a melhor campanha do BE desde sempre.

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5 thoughts on “Multiplicam-se as tentativas de justificar o descalabro eleitoral do Bloco de Esquerda. Este é só mais um contributo para a miséria.

  1. a ala comuna reclama mais comunismo, a ala social democrata mais capitalismo e os que já lá estão mais mesmismo. todos ja tinham respostas antes do problema. É a opera bufa no seu melhor..

  2. è que nem mais :) ou também se pode aplicar o ditado de não se poder agradar a gregos e a troianos :))

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