O ressuscitar na praça pública do slogan «mort aux vaches »

Cerca de 30 pessoas foram interpeladas pela polícia no sul de França por estas terem cantado «Hécatombe » de Georges Brassens em frente do comissariado. As razões da actuação do coro em tais condições deveu-se à condenação de um dos seus companheiros (ele também acusado de ter insultado três polícias com os mesmos versos de Brassens através da janela da sua casa).

A questão que se coloca, portanto, é o que leva uma canção a causar tanto tumulto na ordem policial. Conhecendo a desenvoltura linguística e poética de Brassens e a dificuldade que isso acarreta na compreensão da suas letras, nomeadamente para os não-francófonos, fui levada a trabalhar a letra com um amigo francês. Deixo-vos aqui o fruto desse trabalho, por achar que a canção faz eco aos ultimos acontecimentos de Portugal, numa tentativa de tradução sintética (não houve preocupação de ritmo ou de forma, apenas tentou seguir-se a mesma ordem narrativa) :
Numa feira de Briv’-la-Gaillarde
Umas dezenas de mulheraças,
Guerreavam por causa de um punhado de cebolas.
A pé, a cavalo e de carro,
Os polícias com uma ideia falsa
Chegaram e aventuraram-se
A tentar parar a escaramuça.
Num entanto, sob um céu sem vergonha,
é conhecido que,
A partir do momento que se trata de dar porrada nos bofias,
Toda a gente se reconcilia.
Furiosas e perdendo o tino,
Lançaram-se aos bobos da festa,
E deram-lhes, asseguro-vos,
Um espectáculo bastante pitoresco.
Vendo estes corajosos polícias,
A dois dedos de sucumbir,
Eu jubilei porque os adoro
Em forma de cadáveres.
Do apartamento onde resido,
Encorajei os braços selvagens
Das megeras gendarmicidas
Gritando : Hip,hip,hip, hourra
Frenética, uma delas amarra
O chefe dos polícias,
E obriga-o a gritar : « Morte às vacas, morte às leis, viva a anarquia ! »
Uma outra enfia com aspereza
O crânio de um desses brutamontes
No meio das suas gigantescas nalgas,
espremendo-as.
A mais gorda dessas mulheraças,
Abrindo a sua blusa dilatada
Matraca fortemente com as suas mamas
Aqueles que passam na sua frente
Caindo uns atrás dos outros
E segundo a opinião de alguns competentes
Parece que esta hecatombe
Foi a mais bonita de todos os tempos
Julgando enfim que as suas vitimas
Ainda não tinham o merecido,
Estas furiosas como insulto final,
Voltando às suas cebolas…
E se ainda tenho coragem de contar,
Uma vez que dizê-lo é de tão baixo nível…
Elas teriam mesmo cortado « as coisas »
Felizmente eles não as tinham.
Nota : « Mort aux vaches » é um slogan que aparece nos anos 1870 nas prisões francesas. Por volta dos anos 1890 torna-se um slog anarquista contra todo e qualquer agente vestindo um uniforme e representando a autoridade.
Um das contestatárias interpeladas, quarta feira passada, declarou que se forem a tribunal cantarão em frente do juiz « les goriles »… A tradução ficará para breve :

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6 thoughts on “O ressuscitar na praça pública do slogan «mort aux vaches »

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