O impasse do presente

A esfera da representação política fecha-se. Da esquerda à direita, é o mesmo vazio que toma, alternadamente, a forma de cão de guarda ou ares de virgem, os mesmos técnicos de vendas que mudam de discurso conforme as últimas descobertas do departamento de comunicação. Aqueles que ainda votam parecem ter como única intenção rebentar com as urnas, à força de votarem como puro acto de protesto. Começamos a pensar que é efectivamente contra o próprio voto que as pessoas continuam a votar.
Comité Invisible, L´insurrection qui vient, 22/03/2007
O impasse do presente, a que corresponde o fechamento da representação política, determina uma atitude que poderia ser assim definida: é contra o voto que se continua a votar. Nos movimentos dos jovens e dos “precários”, dificilmente encontramos uma linguagem que aponte para uma nova ordem. E é preciso perceber que os limites da ação política são os limites da linguagem. Desde logo, o termo ‘precário’ significa uma definição em relação à esfera do trabalho, uma reverência à ordem do mundo que chegou ao fim, mas a cuja salvação se entrega hoje um exército de alcance universal. Como o homeostato de Ashby, essa máquina funciona apenas para se alimentar a si própria, assim é o sistema paradoxal de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, de uma multidão de supranumerários que representa um perigo enorme: o de sabotar a máquina, deslumbrada com o seu próprio mecanismo.
Na mobilização geral pelo trabalho, reforça-se uma evidência que seria, pelo contrário, necessário abolir: a de que não há outra maneira de existir senão trabalhando. De tal modo que trabalhar, hoje, corresponde menos a uma necessidade económica de produzir mercadorias do que a uma necessidade política de produzir produtores e consumidores. A produção tornou-se sem objeto. A figura de Bartleby, o escrivão de Melville que respondia às ordens para trabalhar com a fórmula “I would prefer not to”, poderia servir de inspiração para desativar o sistema laborioso que suscita tanta mobilização: dos que o defendem para que nada se passe e dos que o atacam por ele se ter tornado tão exclusivo. E se, em vez da mobilização total com a qual se glorifica o trabalhador, que foi uma figura tanto do fascismo como do comunismo, o novo exército de não-trabalhadores recusasse assumir-se como multidão de desempregados e em vez de reivindicar o impossível gritasse em todas as praças “I would prefer not to”?

António Guerreiro, Expresso, 04/06/2011

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5 thoughts on “O impasse do presente

  1. Um reparo de somenos importância: não me parece que haja aqui qualquer tipo de plágio, apenas me saltou à vista a frase inicial porque conheço o livro supra-citado e porque o António Guerreiro é um dos poucos cronistas que continuo a ler regularmente.
    que estas ideias estejam em tantas cabeças é que é o ponto a destacar. mea culpa pela falta de tempo para o explicitar de melhor forma.

  2. Em qualquer caso só haveria plágio se houvesse um autor, e o Comité não é um autor :)
    Muito bom.

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