All you really need is some friends and a rock

A história repete-se: uma qualquer explosão num qualquer lado do mundo e de repente há mil e um especialistas de serviço a atropelarem-se para dar a sua opinião sobre a justiça ou não dos acontecimentos, sobre os verdadeiros motivos de alguém cuja as acções apenas conhecem do filme da semana da sic noticias, a condenar ou não o que acontece em nome da emancipação da humanidade. Não estando presente esse blitzkrieg de banalidades que é o Daniel Oliveira apresenta-se a serviço Sérgio Lavos, mais hábil do que Oliveira, mas ainda assim a insistir em categorias tão conservadoras quanto numa alegada irracionalidade de todas as massas não representadas ou não organizadas em torno de “ideias, manifestos e lideres”, sem as quais a política não existe. A discussão relativamente ao que diz tem sido esmiuçada de pior ou melhor forma noutros sitios donde atento somente na cavaleira estupidez destes fazedores opiniões que tudo se dispõe a comentar sem nada conhecerem. Serão os mesmos que se horrorizaram pela mesma violência em Génova que até os tribunais italianos consideraram legítima enquanto resposta a cargas policiais excessivas, são os mesmos que tivesse Londres a acontecer a uma distância segura e estariam a aplaudir, são os mesmos que na análise disto omitem uma e outra vez como é que estas coisas começam. Não começam com uma montra partida, começam como em 1980 em Brixton com alguém morto pela policia, como em 1985 em Brixton com alguém morto pela polícia, como em 1995 em Brixton com alguém morto pela policia, como em inúmeras outras datas em inúmeros outros sitios com alguém morto pela polícia. Sérgio argumentará que pilhar LCDs não é solução para nada. Pois não, solução para tudo será a manifestação com 2000 pessoas que um dos amotinados despolitizados afirmava ter organizado há uns meses atrás em que nenhum jornalista esteve presente e sobre a qual que nenhum meio comunicação falou. Poderá alguém honestamente dizer que o fim do racismo abertamente institucional não esteve ligado aos motins de Watts, de Newark e de Los angeles? Sérgio pouco sabe sobre Londres, discute com Tiago Mota Saraiva, outro especialista ao serviço da classe operária, se a divulgação da noticia dos Blackberrys tende ou não para a desvalorização das manifestações ao afirmar que possuir um Blackberry é um luxo para a juventude urbana desfavorecida, nenhum deles sabe que o preço de um Blackberry, no reino unido, é exactamente NICLES, são grátis com um plano de 20 libras por mês, toda a gente tem um. E acima de tudo essas qualificações omnipresentes: selvagens, ladrões, gatunos, oportunistas. Uma loja de um paquistanês é destruida e a esquerda bem-pensante perde a cabeça pois não concebe que alguém não branco possa de algum modo participar num sistema de exclusão, não imagina sequer que o papel especifico daquela loja naquele bairro possa ter algum detalhe particular que o nivelamento abjecto da informação decidiu apagar ou simplesmente não conseguiu ver. Acima de tudo o que assusta em Sérgio Lavos é perceber que a sua análise se baseia em e tem a mesma profundidade de um segmento noticioso televisivo, apelando eternamente à ala esquerda de um senso comum artificial e fabricado, tão ansioso por dizer alguma coisa que torna secundário dizer alguma coisa de jeito. É de certo modo impressionante como as vozes mais visíveis da esquerda são capazes de compactuar com uma tão brutal e orwelliana redução da amplitude dos discursos e com uma tão reaccionária simplificação social que nivela uma enorme explosão em que tudo do mais edificante ao mais nihilista se terá passado e a transforma num pesadelo empacotado para consumo de uma classe média eternamente assustada por tudo o que esteja além do condomínio e do centro histórico vigiado.

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5 thoughts on “All you really need is some friends and a rock

  1. Bravo…..sem tirar nem por. a íltima frase é simplesmente soberba (até me babo heheheheh)

  2. Alivio-me em ver que afinal ainda consegue haver alguém a resistir à minagem dos média. Salvé por isso!

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