Comentários sobre os incêndios deste Verão (1)


É sem dúvida um aspecto digno de registo e um fenómeno repleto de implicações que os acontecimentos iniciados em Londres e alastrados a outras partes tenham sido objecto de juízos tão pouco lúcidos. Não me refiro, evidentemente, ao facto de motins, pilhagens e actos de destruição terem convocado a célere formação de um partido da ordem empenhado na sua repressão e punição exemplar. Nada houve de novo, nos métodos empregues como na “enérgica” resposta dada, por parte de quem tem como tarefa assegurar o respeito pela lei e pela propriedade privada. Mobilizar todos os meios técnicos e humanos ao seu alcance para perseguir os desordeiros e criar tribunais de excepção para os punir exemplarmente é a obrigação óbvia de quem administra o monopólio da violência organizada. A Scoland Yard limitou-se a seguir o manual de instruções contra-subversivo e devolver as ruas aos seus proprietários habituais, enquanto a direita uivava o habitual ódio aos pobres.
Foi sobretudo ao nível da interpretação histórica e política dos eventos que esta espécie de sociedade em que vivemos revelou as suas mais evidentes fragilidades. Dita a tradição que a Esquerda seja chamada a explicar as causas profundas das coisas, a chamar a atenção para os “problemas” e “desequilíbrios” na origem das revoltas, a clamar por uma reconfiguração das políticas sociais e a apontar o caminho para que tudo volte à “normalidade”. Não é exagerado sugerir que momentos destes funcionaram frequentemente, ao longo da história, como elementos de modernização e, por isso mesmo, de reforço do capitalismo.
Ora o espaço público revelou-se particularmente incapaz de acolher e desenvolver essa reflexão de sinal tranquilizador. A combinação da severidade dos juízos proferidos com a superficialidade das análises publicadas evidenciou de tal forma a natureza do tempo histórico em que vivemos que a expressão “guerra civil mundial” assumiu uma materialidade sem precedentes. O simples facto de tão poucos terem escrito algo que que ultrapassasse a condenação – quando não o desprezo – e de determinados adjectivos e temas terem sido utilizados, repetidos e inflacionados a uma escala sem precedentes, é o acontecimento político mais relevante deste Verão. Para os intérpretes autorizados da realidade, a revolta tornou-se um facto inexplicável e a “crise de valores” assumiu o lugar de todas as outras narrativas. No início do século XXI, registe-se, o mais arcaico dos juízos acerca das causas para uma revolta atravessou grande parte da esfera pública e foi considerado uma boa grelha de leitura para motins e pilhagens nas ruas de uma grande metrópole, na sequência de um assassinato cometido pela polícia. Note-se que me estou a referir aqui aos “colunistas” e “comentadores” que sentiram apesar de tudo a necessidade de identificar causas para os acontecimentos, uma vez que a maioria se limitou a exibir, como Maria Antonieta antes deles e com os resultados que se conhecem, a sua revolta por ainda haver pessoas que se revoltam.
Vivem-se tempos amargos para os profissionais das ciências sociais que não aceitem a sua integração em bloco nos dispositivos de controlo que dão corpo à criminologia. Os teimosos refractários que o ignorarem ou desrespeitarem, que avançarem, em suma, uma interpretação distinta daquela que nos apresenta o ministério público britânico, correm o sério risco de vir a sofrer o destino dos que apelaram aos motins no facebook. A república francesa já deu, aliás, sinal de estar à frente do seu tempo, quando deteve, em prisões de alta segurança e rigoroso isolamento, os autores de um livrinho de bolso que se limitava a fixar no papel as ideias dispersas de uma época assinalada pelo esgotamento de todas as formas de mediação e representação que caracterizaram a segunda metade do século XX.
O capitalismo não tem, neste momento, margem de manobra suficiente para recuperar qualquer contestação que ultrapasse o plano simbólico da reivindicação e do protesto ordeiro. O Estado já só sabe vigiar e punir. O império treme perante a ameaça dos bárbaros, mas estes bárbaros não vieram de paragens longínquas e desconhecidas. Foi neste deserto a que chamamos sociedade que se formaram os bandos errantes que espalham a destruição nas ruas de Inglaterra. E é por isso que o processo de interpretação do seu comportamento e atitudes se revela tão trabalhoso e – a prazo – arriscado. Compreendê-los equivale a compreender o mundo de onde eles surgiram, o tortuoso conjunto de engrenagens e dispositivos que lhes deu forma e sentido. Um inquérito cuidadoso aos incêndios deste Verão revelaria demasiadas coisas acerca do Estado e do capitalismo para que as verdades a extrair dele pudessem não assumir proporções criminosas. Juntamente com lojas e automóveis, várias foram as ilusões que desapareceram nos incêndios de Londres.

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6 thoughts on “Comentários sobre os incêndios deste Verão (1)

  1. Urge perguntar, à margem de uma análise profunda acerca das lutas de classes contemporâneas e do carácter de classe da sua cristalização teórica: “Onde raio está o Paulo?”
    P.S: O texto está muito bonito!

  2. “se os ricos são culpados pela miséria não serão os pobres culpados pela riqueza?” do tio Max Stirner ( para os ignorantes, que ainda se vão espumar todos aqui, pelo arrastão e nas tascas)
    volta salazar estás perdoado!
    portugal dos pequeninos
    o país, do conformismo,
    amnésia também há,
    temos saudades do fascismo.
    caos e anarquia beijos

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