Comentários sobre os incêndios deste Verão (2)


Comecemos por esvaziar desde logo o balão de ar da pilhagem dos pequenos negócios, do incêndio de casas, carros e lojas de particulares, dos assaltos aos transeuntes e de outras ocorrências desagradáveis. Londres tem cerca de 7 milhões de habitantes no seu centro e 14 no conjunto da área metropolitana.
Alguém acredita que, numa base quotidiana e sem que esteja a acontecer qualquer motim ou acto de pilhagem, não morram pessoas em todo o tipo de situações violentas, não sejam assaltados inúmeros pequenos negócios, não sejam atropelados indivíduos que caminham na rua e não se assista a gestos de brutalidade e a roubos de pessoas isoladas?
Na cidade com maior número de câmaras de vigilância, que dificuldade poderia ter a polícia em seleccionar um conjunto (relativamente pequeno, diga-se) de imagens chocantes e fazê-las repetir incessantemente na televisão até que estivessem criadas as condições óptimas para impor o estado de sítio?
Basta ler o Correio da Manhã para ter a noção da quantidade de actos de violência gratuita e de roubos que ocorrem diariamente em Portugal para relativizar q.b. a relação entre a ocorrência de motins e o assalto a um estudante malaio ou o ataque a um motociclista ou o incêndio de habitações privadas. Relativizar, sublinho, ou seja, considerar várias hipóteses para explicar cada ocorrência isolada, que vão desde o ajuste de contas, até ao medo de estar a ser filmado pela polícia, até ao puro e simples furto de quem aproveita a vantagem numérica. É possível que estes não tenham sido aspectos menores dos acontecimentos mas não foram seguramente o seu centro nem o que motivou tão cerrada campanha de desinformação. Mais do que uma imagem revelava pessoas a observar pilhagens e incêndios sem participar neles e, simultaneamente, sem recear os que estavam a pilhar e a incendiar. Existe aliás alguma lógica em preferir assaltar um grande armazém de material electrónico ou uma grande loja de roupa em vez de ir roubar o jovem de mochila que passa numa bicicleta. Mas a lógica foi claramente uma cena que não assistiu a maioria dos comentadores dos acontecimentos.
Pelo contrário, a necessidade de amalgamar todas as criminalidades numa única galáxia de desordeiros perigosos correspondeu a um imperativo estratégico de quem geriu a repressão, servindo de caução a um estado de excepção judicial. Note-se o contraste (gigantesco para qualquer observador minimamente atento) entre a abundante repetição e descrição de actos de extrema violência (nomeadamente os que provocaram mortos) e a sucessão de condenações a penas excepcionais de indivíduos que cometeram delitos que seriam considerados “menores” em qualquer outra situação. Na impossibilidade (que era anterior aos motins e que prosseguirá após eles) de identificar e prender quem comprovadamente tenha incendiado prédios, baleado automobilistas ou assaltado transeuntes, os tribunais ingleses estão a distribuir condenações duras a quem roubou garrafas de água, apedrejou a polícia ou, pasme-se, escreveu mensagens no facebook.
Foi necessário, em suma, transformar o conjunto das ilegalidades cometidas nas ruas britânicas num único e gigantesco crime, de maneira a poder reprimir indiscriminadamente as manifestações de descontentamento político e social, a luta contra a repressão policial, a desobediência à autoridade do Estado, como se elas fossem meras variações daquilo a que se convencionou designar por criminalidade comum. Que tudo isso tenha ocorrido e se apresentasse inseparável em determinadas situações é uma possibilidade óbvia, mas que fosse assim em todas as circunstância e, sobretudo, que fosse esse o principal aspecto destes motins, parece-me bastante mais discutível. Em qualquer dos casos foi necessário apresentar os amotinados, em bloco, como um perigo público e uma ameaça ao bem comum para que o Estado retomasse o controlo das ruas. Os que lastimam a despolitização dos amotinados fariam bem em interrogar-se acerca da ingenuidade política que revelaram ao reproduzir de modo completamente acrítico a narrativa policial acerca dos incêndios deste Verão.

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