Comentários sobre os incêndios deste Verão (3)


Os amotinados de Londres ressuscitaram, com a fúria da sua abrupta interrupção nas ruas, a imagem da multidão incontrolada que destrói, por motivos vários e que são sobretudo seus (ainda que tenha por vezes a cortesia de os partilhar), coisas cuja utilidade não descortina, ao mesmo tempo que se serve abundantemente de tudo aquilo que deseja. E tudo leva a crer que é sobretudo essa ressuscitação que não lhes pode ser perdoada, pelo que evoca de passado e de futuro, pela facilidade com que ocorreu em pleno centro da acumulação capitalista, pela ameaça que contém ao controlo do território metropolitano pelo Estado.
Os seus actos foram apresentados, pelo poderoso dispositivo mediático que controla a imagem e a informação, como desprovidos de sentido, estratégia, objectivos ou propósitos, como toda esta gente saíssem à rua, corresse todo o tipo de riscos e se expusesse à repressão policial devido apenas a fenómenos de imitação e sentimentos de impunidade. A facilidade com que se decretou a ausência de sentido dos actos praticados indicia, pelo contrário, que o seu sentido foi amplamente sentido por muitos e que se tornou imperativo removê-lo da atenção das massas telespectadoras pela incessante repetição de preconceitos e lugares comuns.
Que há qualquer coisa como uma gigantesca ausência de sentido e de inteligibilidade no mundo em que vivemos, já para não falar de uma boa dose de cinismo e de inimputabilidade, será difícil desmentir. Pode-se passar a noite na esquadra por pintar grafitis ou por bloquear o trânsito em defesa da paz mundial e pode-se urinar para uma fonte pública (como um jovem católico mostrou em Madrid) ou para um carro da PSP (como o presidente da JSD-Madeira demonstrou no Funchal) sem que daí resultem consequências de maior. Pode-se ser baleado na cabeça por assaltar uma agência bancária e pode-se chegar a administrador de uma empresa do Estado após ter desfalcado toda uma instituição bancária. No limite, pode-se destruir ou danificar propriedade privada, retirar objectos e bens a uma ou várias pessoas, cometer os maiores actos de violência e até matar, tudo isto beneficiando de total e completa impunidade, desde que se tenha um distintivo policial e as vítimas de todos estes abusos sejam pobres ou pretas ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Seria por isso desconcertante que milhares de revoltosos fossem movidos sobretudo pela generosidade desinteressada e pela indignação contida perante mais um homicídio policial. Desconcertante e, provavelmente, menos eficaz, uma vez que manifestações gigantescas contra o racismo e a violência policial não são assim tão pouco numerosas e não consta que tenham colocado qualquer uma das questões no centro do debate público. Já o fogo, as pilhagens e os confrontos com a polícia têm a propriedade mágica de se tornarem incontornáveis. Pagarei um jantar opíparo a quem souber indicar em que momento uma gigantesca manifestação pacífica, cheia de conteúdo político, levada a cabo por pessoas ordeiras e de intenções nobres, com objectivos claros e uma perspectiva emancipatória, foi capaz de chamar a si a atenção noticiosa em todo o mundo, obrigar um primeiro-ministro a cancelar as suas férias e levar ao cancelamento de um jogo da respectiva selecção nacional de futebol.
É certo, e até um pouco evidente, que nenhuma destas coisas alterará as vidas das pessoas em questão e dificilmente impedirá novos abusos policiais que resultem em mortes. Mas são certamente bons indicadores do impacto histórico imediato de tudo isto.
O resto continuará a ser debatido e isso, diga-se de passagem, não é assim tão pouco, pois é através de momentos desta natureza que ganha forma a consciência de que a revolta e o ódio, o gigantesco descontentamento que mais e mais pessoas sentem relativamente à ordem social em que vivemos, são partilhados através das fronteiras, em sítios distantes uns dos outros mas que se assemelham cada vez mais. Apesar de todos os esforços para nos fazer comer, sem estrebuchar nem levantar ondas, este pão que sabe a merda, nem tudo é fácil para os donos deste mundo, face à possibilidade de o planeta inteiro se transformar em Hackney ou em Clichy-sous-bois.

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9 thoughts on “Comentários sobre os incêndios deste Verão (3)

  1. Eu nao veria a situação tanto pela dicotomia violencia dos civis contra a ordem publica e violencia da policia sobre os civis mas sim acho e concordo com eles fizeram e tambem mandava uns cocktalais molotov contra a maior empresa do sitio ( deve dar um certo gozo mandar um cocktail …digam la mque nao….) desde que sejam pelos motivos certos que para alguns foram para outros nao mas isso e o problema das multidoes …. e termino dizendo se os ricos nao aos pobres os pobres acabam por roubar os ricos enquanto nao distribuirem um bocado a cena( riqueza) tas bom Rick?

  2. Esqueci-me de dizer no fundo e uma forma de combater o capitalismo hum pelos cidadaos europeus um bocado na ideia que a unica hipotese tal como os terroristas o fazem….. tudo isto e discutivel mas a verdade e essa fazes uma manifestação pacifica e depois e daí …. volta tudo ao normal …. partes umas montras incendeias uns carros destrois umas empresas mas eles ja começam a pensar duas e começam de certa forma a ter medo …. nao e melhor maneira mas havera outra nesta altura …. eu nao estou nem tenho paciencia para ir casa a casa e fazer as pessoas mudarem de ideias porque ta visto que na assembleia da republica e os debates que aparecem na televisão ou os comicios para os que la vao faz as pessoas mudarem de ideias … vais-me dizer o que achas ou isto e so para escrever e nao esperar resposta … de qq maneira ja foi bom encontrar alguem que concorda comigo ou ve a cena da mesma maneira … e tu perguntas por onde tenho andando … epa por portugal!

  3. os textos medem-se aos meios-metros. aos palmos mede-se a pasta homogénea formada por fezes humanas e respectiva massa encefálica.

  4. JA VI QUE AQUI E PALCO DE PEQUENAS BATALHAS PESSOAIS OU NAO IDEOLOGICAs ou nao enao me parecem muito ineterssandos em encontrar soluções …. ate um dia destes rick

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