Quarta, 21h no RDA69: Discussão sobre Occupy Wall Street e sobre o 15 de Outubro.

E de repente, enquanto ninguém esperava, do coração da besta e do grande satã surge uma enorme acampada, talvez ainda maior do que em Barcelona e em Madrid, aparentemente com um discurso mais radical e tudo. Tudo muito estranho, não era suposto ser um pais dividido ao meio pelos cowboys e pelos hipsters? entre o cinismo do Seinfeld e o consumismo do Sexo e a Cidade? Longe dessa espontaneidade e vida comum dos povos mediterrâneos? (nos quais, sem se saber muito bem porquê, se costuma incluir Portugal).

E no entanto as razões do sucesso da acampada de NYC são semelhantes às de Madrid ou Barcelona:
A esquerda americana nunca teve partido. Será arriscar uma sociologia do facto que terá sido feita para além do senso comum imediato que aqui nos assiste mas terá também a ver com a imensa e complicada diversidade cultural, composta por camadas que chegaram em alturas diferentes muitas vezes em conflicto com as anteriores e com as futuras, e também com uma questão de vastidão do território disponivel: quem estava mal podia sempre ir para outro lado, como mostra a expansão para o oeste ou o grande exôdo dos negros do sul para o norte industrializado. Que não haja partido não quer dizer que não haja, até historicamente, uma esquerda interessantissima: dos sindicatos informais e proto-autónomos negros de Detroit (DRUM) à Insurreição de Blair Mountain em que 15 000 mineiros pegaram em armas contra a polícia e contra mercenários contratados pelos patrões para quebrar greves, para não referir pormenorizadamente as dezenas de milhar de experiências comunitárias que sempre existiram espalhadas por todos o pais.
Após as enormes explosões dos anos 60 e 70, marcadas no seu início pelo movimento dos direitos civís e no seu fim pela luta armada dos Weatherman e de outros grupos nacionalistas negros, o passo atrás da esquerda foi na direcção da formação de inúmeros grupos e colectivos mais pequenos, organizados institucionalmente enquanto organizações sem fins lucrativos, que operassem dentro das comunidades às quais se sentissem mais ligados. Hoje em dia, no Harlem, há literalmente centenas de pequenas associações que se ocupam de questões locais. É um tecido de esquerda bizarro para qualquer olhar europeu já que assume também por vezes uma perspectiva algo assistencialista, obviamente que procurando substituir a inexistência de um estado social. Por outro lado, a esquerda que não se ocupou com as necessidades básicas de comunidades especificas virou-se ou para um activismo intelectual e académico bastante presente nas universidades americanas ou para um activismo de construção dos media alternativos. Esta esquerda atomizada será talvez eficaz a um nivel muito local mas é largamente invísivel fora dele. De outro modo, uma manifestação como a da CGTP do fim de semana passado seria impossível nos Estados Unidos, e no entanto nesse mesmo dia haveria mais do triplo de pessoas a fazerem coisas muito mais pequenas. Sendo os Estados Unidos um pais gigantesco há ainda espaço para todas as possiveis combinações, dos trotskyistas queer pró coreia do norte aos anarco-insurrecionalistas de Raleigh, Carolina do Norte, que sabotam as máquinas industriais no meio dos bosques das montanhas Appalachia rodeados pelos rednecks que tocavam banjo no Deliverance.
O que isso provoca é que no momento da ocupação estejam logo imediatamente presentes inúmeras formas de a ocupar e de construir toda a infraestrutura que a assegura: a heterogeneidade do movimento permite que assuma muito facilmente essa caracterização de cidade espontânea que faltou à acampada de Lisboa. Presume-se então algo que começa a ser óbvio: muitos dos presentes no Rossio se queixaram de que este rapidamente se tornou numa competição de diferentes facções por protagonismo. Resta por explicar porque é que permitiram que tal acontecesse – talvez a triste explicação seja a de que ainda estamos todos demasiado habituados a que um comité central nos diga o que fazer.
Para terminar uma catafrada de Links:
Vários textos escritos por pessoal fixe:
The Carcass in Our Heads: A Mic Check – More of the Same, September 2011
Occupied Wall Street: Some Tactical Thoughts – Malcolm Harris – September 2011
The Park and the Protests – Willie Osterweil, September 2011
Covering the March, on Foot and in Handcuffs – Natasha Lennard, October 2011
A Bridge to Somewhere – Malcolm Harris, October 2011
The Battle of Brooklyn Bridge – Willie Osterweil, October 2011
e mais várias coisas que foram surgindo, nem todas boas, nem todas más:
The intersection of race and pop culture
Leaderless Resistance
Occupy LA
Occupy Austin
Occupy LA 2
Occupy SF
Short film on Occupy Wall Street
Psicogeografia e Occupy Wall St
What sparked the occupy wall street movement
Anonymous Occupy Wall Street

6 thoughts on “Quarta, 21h no RDA69: Discussão sobre Occupy Wall Street e sobre o 15 de Outubro.

  1. “Um cunhado algo assistencialista”? Acho que não devias falar assim acerca do irmão da tua namorada…

  2. Sindicatos dos transportes “ocupam” Ministério da Economia (pt.indymedia.org)
    HOJE DE MANHÃ.
    VAMOS PARA LÁ TODOS OU QUÊ?
    ACHO QUE É AO LADO DO LARGO DO CAMÕES.
    ++++
    Lisboa, 10 out (Lusa) – Uma delegação da Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (FECTRANS) está no Ministério da Economia para exigir uma reunião com o ministro e não vai sair enquanto não for recebida por Álvaro Santos Pereira, disse hoje um sindicalista.
    “Decidimos hoje de manhã, durante uma reunião que fizemos, ir ao Ministério face aos anúncios feitos recentemente pelo ministro”, disse à Agência Lusa José Oliveira, coordenador da FECTRANS.
    Os sindicalistas criticam o facto de não ter existido qualquer discussão ou uma simples informação aos sindicatos sobre a decisão do ministro.
    ++++

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